Oposição a Khadafi formou governo provisório em Bengasi

Zauia "libertada" mas cercada por tanques das forças de Khadafi

Bengasi revela já “um certo nível de organização política” segundo a BBC
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Bengasi revela já “um certo nível de organização política” segundo a BBC Foto: Chris Helgren/Reuters

Zauia ficou esta manhã sob o controlo das forças revoltosas ao regime de Muammar Khadafi, com uma manifestação a ocupar todo o centro e civis armados no topo dos telhados para defender a cidade, estrategicamente crucial, a apenas 44 quilómetros de Trípoli. Mas próximo permanecem dezenas de tanques das forças militares ainda leais ao líder líbio.

"Vai ser uma batalha terrível. Esperamos um ataque a qualquer momento", estima um residente à Al-Jazira, dando conta de um ambiente em que se mistura o júbilo e a ansiedade e medo de um contra-ataque iminente. O canal avança que pelo menos 35 a 40 tanques aguardam nos arredores de Zauia, embora em posições mais distantes do que nos últimos dois dias em que as forças de Khadafi mantiveram ali combates acesos para recuperar terreno e conseguir entrar na cidade. Pelo menos 50 pessoas terão morrido em Zauia nos últimos dois dias de batalhas.

As imagens de hoje são de centenas de pessoas a manifestarem-se no centro gritando slogans pelo fim do regime de Khadafi. "Todas as ruas estão desertas com excepção do centro, onde foram montadas barricadas e se juntaram multidões de manifestantes que fazem esvoaçar a antiga bandeira líbia [pré-Khadafi]. Alguns estão armados e disparam para o ar. Dizem que estão a protestar pacificamente mas que estão prontos a combater”, conta a produtora da BBC Cara Swift.

A CNN avança que estas manifestações anti-regime eclodiram pela manhã quando um grupo de jornalistas estrangeiros estava a ser conduzido à cidade por tropas fiéis a Khadafi. Agora ouve-se apenas gritos de "fim a Khadafi" e "esta é a nossa revolução" e a Al-Jazira dá conta de que os revoltosos ganharam controlo de alguns dos tanques que se encontravam mais próximos de Zauia, e estão armados com espingardas e pistolas tiradas a soldados e polícias nos dias anteriores.

Misurata, a uns 200 quilómetros a leste de Trípoli e onde se centravam os mais acesos combates daquele lado do território, terá já hoje sido ocupada também pelas forças revoltosas – o que a confirmar-se indica que o movimento anti-Khadafi se aproxima cada vez mais de Trípoli também por esta frente.

Entretanto, as cidades “libertadas” pela revolta contra Muammar Khadafi puseram nas mãos do renegado ministro da Justiça, Mustafa Mohamed Abud al-Jeleil, a liderança de um governo provisório nacional com sede em Bengasi, a cidade embrião dos protestos contra o regime líbio, na região oriental do país.

“Houve uma grande reunião entre o antigo ministro da Justiça e os líderes tribais. E se alguma coisa sinaliza com clareza a queda de Khadafi é o facto de estas tribos se estarem a juntar e a mostrar unidade e solidariedade”, descreve o correspondente da Al-Jazira Tony Birtley, a partir daquela cidade, a segunda maior da Líbia onde há vários dias se celebra o fim dos 42 anos de poder autoritário do líder líbio.

Bengasi revela já “um certo nível de organização política”, avalia por seu lado o jornalista da BBC Kevin Connolly que também se encontra em Bengasi. O edifício do tribunal transformou-se em “central da revolta”, nota, incluindo um centro de comunicações e de imprensa, clínicas médicas, distribuição de sinal satélite e acesso à Internet”.

Mas, com a capital, Trípoli, ainda controlada pelas forças leais a Khadafi – unidades militares, milícias e mercenários – há também a sensação de que a Líbia pode facilmente derrapar para uma “divisão muito volátil”. “As pessoas em Bengasi sentem que terão que ser elas, em última análise, a assumir a responsabilidade de libertar todo o país e estão a dar os passos para o fazer”, adiantava Birtley.

A perita em direitos humanos líbia Hana Elgallal sublinhou já esta manhã à Al-Jazira que há nas cidades libertadas pela revolta um sentimento de frustração por o Conselho de Segurança das Nações Unidas não ter aprovado a imposição de uma zona de exclusão aérea ao país.

“Eu sou uma das pessoas que esperava que fizessem isso. Porque a verdade é que não vamos poder avançar daqui e ajudar Trípoli por causa do medo de que ele [Khadafi] use os aviões para nos bombardear. Espero que as coisas evoluam de forma a conseguirmos evitar massacres em Trípoli”, afirmou, quando a revolta entra hoje no 13º dia consecutivo e as estimativas mais conservadoras apontam para um número total de mais de mil mortos.

Da capital chegavam esta manhã testemunhos de que a situação é “tumultuosa”. Um residente da cidade, em mensagem de voz enviada para o Twitter descreve: “Em cada cem lojas só umas três ou quatro estão abertas. E mesmo naquelas que abriram, o ambiente é de tensão e medo. Os alimentos começam a escassear”.

Trípoli parece ser o último bastião seguro de Khadafi. Desde ontem que surgiam relatos de algumas partes da cidade, sobretudo os bairros mais pobres, terem já sido abandonados pelas forças que lhe são leais, mas na generalidade a capital, e sobretudo todo o núcleo da Praça Verde, está fortemente armada. Continuam as descrições de ruas a serem patrulhadas por civis armados apoiantes de Khadafi.

Notícia actualizada às 13h30