Um cineasta do mundo que não pode sair do seu país

Stringer/REUTERS
Foto
Stringer/REUTERS

32 anos depois da revolução islâmica, o Festival de Berlim solidariza-se com o cineasta iraniano condenado a seis anos de prisão e a vinte de interdição de filmar e de sair do país. A sua cadeira no júri foi deixada vazia e Isabella Rossellini lembra que todas as vozes devem ser ouvidas, porque "toda a arte é baseada na liberdade"

Passam hoje 32 anos sobre a queda do regime do xá do Irão e a vitória da revolução islâmica liderada pelo ayatollah Khomeini, que teve lugar a 11 de Fevereiro de 1979. E o Festival de Berlim escolheu o dia de hoje para homenagear o cineasta iraniano Jafar Panahi, condenado a seis anos de prisão no seu Irão natal.

Erguido a "Cineasta do Mundo" pela organização, Panahi é - tal como aconteceu em Cannes 2010 - membro oficial do júri presidido por Isabella Rossellini, e a sua ausência foi marcada, na conferência de imprensa de abertura que decorreu na manhã de quinta-feira, por uma cadeira vazia. A actriz italiana disse ainda: "Não perdi a esperança que Jafar Panahi possa vir. Mas precisamos de lembrar que a liberdade de expressão é a base fundamental da liberdade da arte. Mesmo que ele não esteja aqui connosco, a sua presença é muito grande."

Hoje, o festival exibe a sua última longa-metragem, Offside, a história tragicómica de adolescentes iranianas que querem assistir ao vivo a um jogo de futebol - apesar da entrada estar vedada às senhoras e de só os homens poderem entrar no estádio. Offside venceu o prémio especial do júri de Berlim em 2006 e a projecção terá lugar em ambiente de gala na sala principal do certame, o luxuoso Berlinale Palast. Outros filmes seus serão apresentados ao longo da programação, introduzidos por colegas iranianos como Rafi Pitts (que escreveu uma carta aberta ao Presidente Mahmoud Ahmadinejad, pedindo a sua libertação).

A ironia trágica é que Panahi, que disse em tempos não fazer cinema político mas sim "cinema social" (porque não "dita o que é correcto" mas se limita a constatar os factos), é hoje mais recordado pelo seu engajamento político do que pelos seus filmes, apesar dos encómios da crítica e dos prémios recebidos.

Todas as cinco longas de ficção que realizou valeram-lhe prémios em festivais internacionais: para além do Urso de Prata berlinense por Offside, Panahi arrecadou a Câmara de Ouro (melhor primeiro filme) em Cannes 1995 por O Balão Branco, Leopardo de Ouro em Locarno 1997 por O Espelho, Leão de Ouro em Veneza 2000 por O Círculo, e o prémio do júri Un Certain Regard em Cannes 2003 por Sangue e Ouro.

Mas, à imagem da maior parte de cineastas iranianos da sua geração, o seu cinema pouco ou nenhum impacto tem para lá do circuito global de festivais e das salas alternativas de arte e ensaio. Basta pensar que, por exemplo, só dois filmes seus (O Círculo e Sangue e Ouro) encontraram distribuição nas salas portuguesas; Offside, o mais acessível dos seus filmes (e aquele que poderia ter encontrado uma maior audiência), limitou-se a passar pelo IndieLisboa.

Em rota de colisão

Panahi nunca teve a mesma reputação global de Abbas Kiarostami, seu mentor e figura proeminente do novo cinema persa, de quem foi assistente e filmou dois guiões (O Balão Branco e Sangue e Ouro). Mas engajou-se politicamente como nenhum outro no movimento reformista de 2009 do qual Mir Hossain Mousavi se tornou figura de proa. E as suas tomadas de posição públicas a favor da "revolução verde" que questionou abertamente o regime valeram-lhe uma punição "exemplar": uma pena de prisão de seis anos e a interdição de realizar filmes durante vinte anos.

É por isso que Berlim está a homenagear Panahi, reservando-lhe um lugar no júri e exibindo todas as suas longas: para recordar que, por trás do prisioneiro político, há um artista, um cineasta atento ao quotidiano da República Islâmica do Irão, pouco disposto a virar a cabeça quando confrontado com a realidade. O actor indiano Aamir Khan, que fez parte com Panahi do júri do festival de Locarno em 2002, sublinhou na conferência de imprensa a tragédia de prender alguém "muito inteligente e muito digno", cujo orgulho assumido na cultura persa o torna "num grande embaixador do seu país".

Panahi, no entanto, já estava há anos em rota de colisão com o regime islâmico: O Círculo, que abordava o tratamento das mulheres sob o regime islâmico, não foi visto com bons olhos, e Offside foi rodado à revelia das autoridades. O envolvimento na "revolução verde", que questionou abertamente a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, foi a oportunidade ideal para o amordaçar.

Preso pela primeira vez em Julho de 2009, o cineasta viu o seu passaporte confiscado e foi proibido de sair do país. Preso de novo em Março de 2010, ficou atrás das grades durante quase três meses, sendo libertado em finais de Maio sob uma fiança de 145 mil euros; em Dezembro, foi condenado por um tribunal a seis anos de prisão e vinte anos de interdição de filmar e de sair do país, que se estendem igualmente à escrita de guiões e a entrevistas com os media iranianos ou internacionais. Uma das acusações "provadas" pelo processo dizia que Panahi estaria a rodar uma obra de propaganda contra o regime - acusação negada pela mulher do realizador, que assegurava que o filme em que o marido trabalhava (rodado inteiramente em interiores dentro da própria casa da família e cujo estado é actualmente desconhecido) nada tinha a ver com os acontecimentos.

Colegas cineastas, iranianos e internacionais, movimentaram-se internacionalmente pela libertação de Panahi - Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Oliver Stone, os irmãos Coen, Curtis Hanson, Ken Loach, os irmãos Dardenne, Walter Salles, Martin Scorsese, Terrence Malick, Steven Soderbergh, Frederick Wiseman ou Michael Moore assinaram cartas abertas e petições públicas.

Mas nem as lágrimas de Juliette Binoche em Cannes 2010, apresentando Cópia Certificada, que acabara de rodar com o mentor Kiarostami, amoleceram o regime iraniano. Panahi continua preso - e parece que a entrada iraniana a concurso no festival deste ano, Nader and Simin: A Separation, apenas pode ser autorizada depois de o realizador Asghar Farhadi ter assinado uma espécie de "declaração de lealdade" ao regime. Berlim não quer que nos esqueçamos que há sítios onde ainda se paga um preço por se ser um artista, e fá-lo solicitando a realizadores e actores iranianos (residentes no Ocidente) que apresentem e contextualizem os filmes de Panahi.

Cadeira vazia

Mas o simbolismo da cadeira vazia serve para alguma coisa? Anke Westphal, do jornal Berliner Zeitung, assinava numa coluna de opinião a sua convicção de que opor o poder dos símbolos ao poder, ponto final, é uma luta desigual onde já se sabe quem leva a vantagem. E perguntava por que é que a homenagem do festival passava ao lado de um outro cineasta iraniano igualmente encarcerado, Mohammad Rasoulof. "Não é suficientemente conhecido?"

Respondendo a um jornalista indiano na conferência de imprensa, Isabella Rossellini, que fez a ressalva de não poder falar pela organização do festival, disse: "Ao convidar Jafar Panahi para jurado, estamos a assumir uma posição muito importante quanto à liberdade de expressão. Se apenas pudéssemos fazer filmes de propaganda, a arte morreria. Todas as vozes devem ser ouvidas. Toda a arte é baseada na liberdade."