Entre 10 e 15 mil membros da etnia foram vítimas do nazismo

Primeiro cigano a participar em aniversário de Auschwitz denuncia "condições indignas"

Pela primeira vez, um sobrevivente do Holocausto de etnia cigana discursou durante a celebração oficial das vítimas do nazismo na Alemanha. Zoni Weisz aproveitou para denunciar o tratamento “indigno” de que os ciganos ainda são alvo.

“Em vários países somos a minoria mais antiga. Mas os sintis e os roma [dois grupos ciganos] são tratados de forma indigna, em particular nos países da Europa de Leste como a Roménia e a Bulgária”, disse Weisz. “Em certos países da Europa Ocidental, como Itália ou França, somos vítimas de discriminação, excluídos, e vivemos em condições indignas em guetos”, adiantou este florista que se tornou num activista pela defesa dos direitos da etnia cigana. Weisz tinha sete anos quando a sua família foi deportada da cidade holandesa de Zutphen, durante a II Guerra Mundial, e exterminada pelos nazis. Os pais, irmãs e o irmão mais novo morreram em Auschwitz; Weisz conseguiu escapar à deportação graças à ajuda de um polícia.

“A discriminação, estigmatização e a exclusão são o quotidiano” dos roma, lançou perante o ar grave da chanceler alemã, Angela Merkel, e dos deputados do Bundestag. “Em certos restaurantes reapareceram avisos de ‘interdito a ciganos’. A história repete-se”.

Sublinhando que certos ciganos têm sido expulsos “dos países a que pertencem na comunidade europeia”, o activista recordou que a vice-presidente da Comissão Europeia Viviane Reding denunciou “com palavras claras” estas práticas. No ano passado, a França intensificou a expulsão da etnia para a Roménia e a Bulgária, suscitando fortes tensões com Bruxelas. Reding denunciou então a situação “escandalosa” dos roma na Europa, que vivem “na pobreza absoluta”. Também a Itália foi acusada de violações dos direitos dos ciganos, nomeadamente no que se refere à habitação.

“Espero que os governos em questão continuem a ser interpelados” sobre a situação, referiu ainda Zoni Weisz. “Somos europeus e devemos ter os mesmos direitos que qualquer outro habitante, e as mesmas hipóteses”, concluiu.

Esta foi a primeira vez que um cigano foi convidado de honra do Bundestag desde 1996, quando se começaram a celebrar anualmente as vítimas do nazismo. O dia assinala a libertação pelas forças russas do campo de concentração de Auschwitz, a 27 de Janeiro de 1945.

A comunidade cigana, que conta actualmente com 10 a 12 milhões de pessoas no território europeu, foi um dos alvos do regime nazi. Mas membros da comunidade dizem ser o “Holocausto esquecido”: os historiadores apontam para entre 200 e 500 mil mortos entre o milhão que vivia na Europa. Também eram sistematicamente perseguidos e levados para campos de concentração. Em Auschwitz e Ravensbrueck foram alvo de experiências clínicas grotescas, recorda um artigo do “Telegraph” publicado hoje. Apesar disso, adianta o diário, só em 1982 é que a Alemanha reconheceu ter existido um genocídio.