Uma portuguesa em Nova Iorque

Com 31 anos Sara Serpa é uma das mais interessantes e consistentes vozes do jazz nacional
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Com 31 anos Sara Serpa é uma das mais interessantes e consistentes vozes do jazz nacional

Sara Serpa é a grande figura do jazz nacional de 2010: não só pelo excelente "Camera Obscura", gravado em duo com Ran Blake, mas também por todo o seu percurso mais recente, do ambiente académico de Boston ao hiper-competitivo meio do jazz nova-iorquino. É sobre ela que achamos importante escrever agora

Em "Musicofilia", Oliver Sacks procura desmontar as convenções que deram origem à música tal como a conhecemos hoje e sublinha "como é estranho ver uma espécie inteira - milhões e milhões de pessoas - empregando boa parte do seu tempo a tocar ou a ouvir padrões tonais desprovidos de significado, dedicando-se a uma coisa a que chamam música". A música de Sara Serpa, a forma como emite e organiza as notas, quase sem vibrato e com enorme precisão, evoca toda essa força da música primordial, quando a música não era música e era apenas som. Numa permanente busca artística, procura quebrar os códigos da grande música, entender quais os mecanismos que formaram a voz de artistas como Ella Fitzgerald, Abbey Lincoln, Billie Holiday, Sarah Vaughan ou Elis Regina. Em conversa com a cantora, procurámos perceber quais as circunstâncias que a levaram de Lisboa a Nova Iorque, cidade onde vive agora. Com 31 anos, Serpa é uma das mais interessantes e consistentes vozes do jazz nacional.

Sara Serpa nasce em Lisboa e, aos sete anos, decide aprender piano. Passa pela Academia dos Amadores de Música, pelo Coro dos Pequenos Cantores do Grémio Literário e pelo Conservatório de Música de Lisboa. Aos 18, dá-se o "clash" geracional e desiste do piano. Prosseguindo o canto clássico, termina um curso de Reabilitação e Inserção Social no Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Mas a vocação estava bem marcada. Já próxima do final do curso, entra para o Hot Clube e descobre o jazz: "Foi uma coisa acidental. Quando experimentei cantar jazz, aquilo fez de repente um sentido." Cantava standards, canções com letra, cujas melodias lhe pareciam na altura básicas, e experimentou cantar solos transcritos, de Charlie Parker ou John Coltrane.

Com a técnica vocal adquirida no Conservatório, começa a perceber que podia usar a voz como um instrumento, se estudasse mais, se compreendesse como funcionavam as harmonias do jazz. Paula Sousa, pianista recém chegada de Boston, ajuda-a a entrar no mundo do jazz, incitando-a a inscrever-se numa escola americana. Em Maio de 2005 parte para o Berklee College of Music em Boston, um dos mais prestigiados centros de ensino do jazz em todo o mundo.

"De início, os meus pais ficaram preocupados. Estava a acabar o curso e era uma altura da vida em que deveria começar a trabalhar. Mas perceberam que houve realmente uma mudança no meu comportamento. Aquilo era mesmo o que eu queria fazer", diz. Quando chega à Berklee, sente-se integrada. Aconselhada por Paula Sousa, já levava um plano e sabia quais os professores a escolher. "Isso ajudou, pois é muito importante escolher os professores certos." Dos mais marcantes, recorda o trombonista Hal Crook, que lhe dava aulas de improvisação; "Normalmente pegávamos num standard e, com base na sequência harmónica, ele tem uma série de exercicios para abordar a improvisação. Uma coisa altamente racional e controlada que tem como objectivo tornar-nos livres e podermos improvisar de forma fluida sobre sequências harmónicas complexas. Nessa altura interessavam-me mais os instrumentistas do que as cantoras - Coltrane, Miles Davis, Kurt Rosenwinkel, Brad Mehldau, Mark Turner. Eram os que toda a gente ouvia."

Ao procurar uma professora de voz que a ajudasse em questões técnicas, é-lhe recomendada Dominique Eade, que dava aulas no New England Conservatory. Concorre ao Mestrado e ganha uma nova bolsa: "Foi uma mudança incrível. Eu nem sabia que existia aquela escola. Comecei a trabalhar como 'usher' [rapazes e raparigas que nos conduzem ao lugar nas salas de espectáculo] e 'babysitter' para pagar parte dos custos." Nesta nova escola, é exposta a outra vertente do jazz, começa a ter contacto com a cena de vanguarda. "É uma escola que não se conforma dentro de determinados parâmetros. Tens ali todo o tipo de músicos que faz umas coisas que tu nem sabes bem o que é... Tudo aquilo libertou-me da ideia de que se estuda a informação que está num papel e depois se é músico. Não é assim. A música é uma coisa que tu ouves, processas e depois reproduzes da tua forma. Sempre foi assim antes de haver escolas."

Fenómeno entre fenómenos

Uma jovem europeia decide estudar jazz. Com a ajuda dos pais vai para os EUA para uma das escolas de referência. Estuda standards e ouve Rosenwinkel, Mehldau e Turner. Até aqui nada de novo. Mas os acontecimentos precipitaram-se. Greg Osby, saxofonista e um dos nomes maiores do jazz mundial, ouve a música de Sara, gosta, e envia-lhe uma mensagem através do MySpace a dizer que gostava de a ter no seu grupo. "Na altura não levei aquilo a sério. Sabia que era um músico importante mas nem disse nada a ninguém e fiquei à espera para ver o que acontecia." Acabou por acontecer: "Em 2007 fizemos um concerto em Washington que teve boa crítica na 'All About Jazz'. Escreveram 'Serpa is a phenomenon'. Fui apanhada de surpresa." Perguntamos-lhe como estava antes do concerto. Muito nervosa? "Estava nervosa, mas muito mais preocupada com a música, por ele não dar instruções nenhumas. Não havia ordem de temas, nada. Por isso, quando começámos a tocar tinha de estar sempre a olhar para ele para tentar perceber o que ia acontecer. Lembro-me de ter ficado esgotada."

Pouco tempo depois, é convidada a participar no novo disco de Osby, "Nine Levels", registo com excelente recepção da crítica, quase sempre com referências elogiosas ao trabalho da cantora.

Simultaneamente, no New England Conservatory, desenvolve uma relação estreita com alguns dos seus professores mais interessantes, Ran Blake e Danilo Perez. Em Blake, sente o fascínio de uma personagem extravagante, com uma cultura fora do comum: "O Ran Blake é um dos meus grandes amigos. Ele vê potencial em toda a gente e por isso tem sempre à sua volta pessoas muito diferentes, pessoas por quem nunca darias nada, mas ele dá." Com Perez, um dos grandes nomes do jazz latino e colaborador do saxofonista Wayne Shorter, a relação é diferente: "Talvez por sermos ambos latinos há uma maior afinidade. É quase como se fosse alguém da família. É uma pessoa que me fala sobre todos os aspectos da música. Conta-me histórias sobre o Shorter ou sobre o Herbie Hancock. Pequenas coisas com as quais acabo por aprender muito. Uma vez, antes de um concerto, ao perguntar-lhe o que iam tocar, o Shorter deu-lhe um acorde: "É isto, só um acorde"."

Aventura em Nova Iorque

Com um segundo disco já gravado, "Praia", dá-se em Agosto de 2009 outro dos pontos altos da carreira de Sara- uma série de concertos em Nova Iorque no mítico Village Vanguard, integrada no grupo de Greg Osby. Serpa torna-se o primeiro músico português a pisar o palco daquele clube: "Esses concertos foram um pouco a prova dos nove. Aí estava nervosíssima. É onde muitas pessoas do meio vão ouvir novos nomes e é um clube onde raramente se apresentam cantoras. Foi a primeira vez que estive exposta àquela cena dura nova-iorquina." Com o curso terminado, decide mudar-se de Boston e ir viver para Nova Iorque, uma mudança que descreve como assustadora": "Não é uma cidade fácil. Uma das coisas difíceis é encontrar casa. Vimos sítios horrorosos. É tudo caro. Só as coisas mais suburbanas é que têm preços aceitáveis. Acabámos por arranjar casa no Harlem."

Já instalada, em fase de misturas do seu próximo disco, "Mobile", um quinteto com Kris Davis, André Matos, Ben Street e Ted Poor, Serpa mergulha fundo na cidade: "Neste momento toco, dou aulas, sou 'free-lancer', e já tenho um grupo de músicos com os quais trabalho." A participação no novo disco de Danilo Perez, "Providencia", dá-lhe a oportunidade de actuar no prestigiado Jazz Standard durante quatro dias: "Foi o ponto alto dos últimos meses. Era só eu a cantar com o trio e sentia-me vulnerável, despida. Com eles - o trio tem uma relação forte, de grande empatia - as coisas acontecem de forma imprevista, espontânea, nunca se sabe qual é o próximo tema, nunca se sabe o que vai acontecer. Mas o Danilo incita-me a arriscar. Diz-me muitas vezes: 'non-judgement', que significa sem medo de falhar, sem pensar no que os outros pensam."

"Camera Obscura", o último álbum, representa um regresso às palavras. Em palco com Ran Blake - actuaram domingo na Trem Azul Jazz Store, em Lisboa -, libertam as mais profundas e variadas emoções, rodeadas de um silêncio invulgar naquele espaço. "Quando tive a primeira aula com ele, pediu-me para cantar um tema sozinha. Pensei que seria fácil, mas acabei por me enganar, de tal forma que fiquei intimidada e tive de parar. Julgamos que sabemos uma série de coisas, mas depois encontramos uma pequena coisa, simples como a melodia de um tema, e não o conseguimos fazer. Com o Ran Blake concentro-me nisso. Escolhemos três ou quatro temas e tocamo-los vezes sem conta." Ao ponto de se tornarem dela: "Cada canção tem um contexto específico, particularmente estes standards que são de há 50 anos, que têm uma história que não é a minha. E eu também não cresci a ouvir aquilo. Sempre fugi um bocado da típica canção jazz porque não me saia espontaneamente. O Ran Blake mostrou-me que posso cantar à mesma estas palavras e torná-las de alguma forma minhas."