E nos cofres nasceram sementes

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Enric Vives-Rubio

Códigos, fechaduras que só se abrem com duas chaves - a sala dos cofres do edifício do BNU, na Baixa lisboeta, abriu sexta-feira como o novo espaço de exposições do MUDE. Onde até há pouco esteve dinheiro estão agora sementes

No dia em que choveu tanto que a Baixa de Lisboa inundou, os donos dos restaurantes andavam aflitos a tentar salvar cadeiras e mesas, a retirar água com a ajuda de baldes, e a falar para a televisão, lamentando os estragos. Ali ao lado, na Rua Augusta, longe das câmaras de televisão, algumas pessoas entravam noutra cave. Mas o que vinham era muito diferente, e não tinha nada a ver com a inundação - algumas saíam da cave com dinheiro, outras com jóias, outras com objectos de valor, documentos importantes, outras com coisas cujo valor só elas percebiam.

Raras vezes a sala dos cofres do antigo edifício do Banco Nacional Ultramarino tinha assistido a tanta azáfama. Mas naquele dia do final de Outubro chegava ao fim um ciclo, e a Caixa Geral de Depósitos, ainda utilizadora do espaço, comprometera-se a esvaziá-lo e a entregá-lo aos novos proprietários, a Câmara Muncipal de Lisboa e o Museu do Design e da Moda (MUDE).

Hoje a sala forte, de grossas portas com códigos que têm que ser introduzidos à mão e que permitem rodar as grandes manivelas, a sala que guardou tantas riquezas e segredos, reabre com os cofres novamente cheios - só que desta vez não terão dinheiro, títulos do Tesouro ou barras de ouro. Desta vez vão ter sementes.

"Sabendo que a Caixa iria sair, começámos a pensar como é que reabriríamos os cofres", conta Bárbara Coutinho, a directora do MUDE. "Com joalharia, moda, peças mais espectaculares de design? Pareceu-nos que este lugar exigia da nossa parte uma afirmação mais forte." O que é que hoje tem tanto valor como o dinheiro? O que é que é tão importante que mereça ser guardado num cofre? Foi com perguntas como estas que Bárbara Coutinho foi chegando à ideia das sementes e à exposição que inaugurou sexta-feira, "Sementes Valor Capital" (até 20 de Março de 2011).

Dois homens, duas chaves

Mas antes de a explicarmos melhor, vamos conhecer a sala dos cofres. Quem nos guia é António Carneiro, funcionário da Caixa, que trabalhou aqui durante perto de dois anos, mas que conhece há muito esta sala para onde vinha muitas vezes substituir, nas férias, o colega que aqui trabalhava.

Quem descia as escadas deparava em primeiro lugar com uma porta de vidro com elegantes grades de metal. Passada essa porta, numa pequena mesa estava António Carneiro. O cliente tinha já sido identificado lá em cima, à entrada, mas ali voltava a identificar-se, e seguiam então, cliente e funcionário, cada um segurando a sua chave, para a sala dos cofres.

Paredes e chão são de mármore esverdeado. A luz vem de quadrados luminosos encastrados no tecto. Tudo é rigoroso. Metálico. Ao fundo há um relógio negro e quatro portas com janelas redondas - como se fossem salas de interrogatório de alguma polícia secreta do Leste da Europa. Era aí que os clientes "podiam ter mais privacidade, para contar os Títulos do Tesouro ou ver documentos", explica António Carneiro.

A porta imensa da sala dos cofres, ao lado esquerdo de quem entra, estava aberta desde que, de manhã cedo, António chegava e introduzia o código. Havia clientes habituais. "Os donos das casas de penhores vinham todos os dias. Alguns tinham aqui uma série de cofres".

Dois homens, duas chaves. A sala dos cofres reluz. Alumínio a toda a altura. 3500 cofres, cada um com dois pequenos olhos - as fechaduras para as duas chaves. Depois o cliente retirava a caixa que se encontrava no interior e sentava-se numa das mesas a ver o conteúdo. António afastava-se discretamente.

A história do BNU

A segurança aqui era absoluta. Quando encomendou a casa-forte à empresa britânica Chubb, em 1964, por ocasião das obras que realizou no edifício para celebrar o seu centenário, o BNU quis o melhor: segurança, elegância, sofisticação. "Este é um lugar absolutamente singular a nível internacional", escreve Bárbara Coutinho num texto de apresentação, "um exemplo de bom design que vamos preservar na sua integridade e que abrimos agora ao público, tornando-o acessível a toda a cidade e a quem a visita."

Passada a porta grande do cofre, existe à direita outra porta que dá acesso à zona de cofres maiores. "São cofres tipo dispensa, mais usados pelos marchands de arte para guardar quadros ou peças de arte", diz António. À esquerda, outra porta. "Aqui depositavam os volumes". Os clientes traziam as caixas - louças de grande valor, espólios de artistas - e deixavam-nas nas prateleiras.

Aí dentro, na parede, há mais uma manivela que abre uma pequena porta (há outra equivalente no lado dos cofres usados pelos marchands). É uma saída de emergência para quem, eventualmente, ficasse fechado na sala-forte. Não se dá por nada para, mas esconder essas saídas, vinte dos cofres da parede da sala-forte são falsos.

Atravessamos a sala principal, saímos por uma portinha ao fundo e António conduz-nos agora a uma zona escura, onde, por entre cabos e maquinaria, se vê a entrada de mais alguns antigos cofres do tamanho de pequenas divisões de uma casa. Era aqui que estavam guardados os valores pertencentes ao Estado, e reservas de ouro e bens das antigas colónias (o MUDE vai aproveitá-las como salas de reservas para as colecções de moda). O BNU, criado em 1864, foi durante muitos anos o banco emissor de moeda para todas as províncias ultramarinas e tinha dependências em África, na Índia, em Macau, e também em Londres e Paris.

Abrindo os cofres como espaço de exposições, Bárbara Coutinho quer valorizar essa história. "Há aqui uma riqueza patrimonial que espelha a nossa história recente, a história da finança e da própria Baixa. Percebe-se aqui a tercialização da Baixa, a importância dos bancos e do próprio BNU, sobretudo entre os anos 30 e os anos 70 [o banco foi nacionalizado em 1974 e em 1988 a Caixa Geral de Depósitos tornou-se o principal accionista]."

Desde a primeira hora que a intenção foi a de preservar a sala dos cofres, "transformando-a num lugar que contasse a própria história, não de uma forma didáctica mas de uma forma mais plástica, um lugar que servisse como uma espécie de jóia da coroa".

António Carneiro conduz-nos agora por um labirinto - um corredor longo e estreito, um caminho de ronda que permite dar a volta a toda a zona dos cofres. Olhamos para o fundo e os corredores parecem-nos intermináveis, mas é uma ilusão causada pelos espelhos colocados em cada esquina e que nos permitem ver quem vem atrás de nós mesmo quando a pessoa ainda não dobrou a esquina.

Percorremos o caminho de ronda até sairmos mais uma vez na entrada principal para a zona dos cofres. Atrás de nós, na escadaria, está outro pedaço da história do edifício que durante algum tempo a própria Bárbara Coutinho não sabia que estava ali. "Sabíamos que este painel existia, tínhamos visto imagens dele, mas não tínhamos a certeza de onde estaria."

Estava aqui, atrás de uma parede falsa que terá sido feita durante as obras de demolição do interior do edifício (que, em 2007, na altura da primeira visita de Bárbara Coutinho, antes de a CML o ter comprado para instalar o MUDE, estava num estado de "abandono e ruína"). O painel aparece agora em toda a sua glória. É uma peça do pintor Guilherme Camarinha (1913-1994) em mosaico Donà, de Murano, que conta a Epopeia dos Descobrimentos Marítimos. Do lado esquerdo, do pequeno rectângulo que representa Portugal, partem caravelas, num movimento que parece o de uma banda desenhada, avançando para a direita do painel, à medida que os navegadores avançam pelo mundo, encontram novos povos, trocam ofertas e conhecimentos. Quando a parede falsa saiu, o trabalho de Camarinha estava impecável - e, aqui e ali, a folha de ouro que cobre alguns dos mosaicos continua a brilhar. 

Sementes em risco

Sementes, portanto. Os últimos dias de Outubro foram os da saída do dinheiro, das barras de ouro, dos valores. A semana que passou foi a da entrada das sementes (500 variedades), que estarão expostas em caixas de acrílico mandadas fazer especialmente para caberem dentro dos cofres.

O MUDE teve dois parceiros principais para a exposição - inesperados se pensarmos que este é um museu de design e moda: o Banco Português de Germoplasma Vegetal (BPGV) e a Associação Colher para Semear - Rede Portuguesa de Variedades Tradicionais. São eles que fornecem as sementes para a exposição. Quando os contactou pela primeira vez, Bárbara Coutinho fez descobertas que a surpreenderam. Tinha desde o início a intenção de mostrar não as sementes mais exóticas, mas as mais banais, de alimentos comuns. E percebeu que estas são raras. "Pensei que cada semente existisse em grande quantidade mas não é assim. As associações explicaram-me que daquela semente só tinham determinada quantidade."

É precisamente isso, confirma Graça Ribeiro da Colher para Semear. A associação independente, que existe desde 2006, procura os agricultores mais antigos, aqueles que ainda têm sementes das variedades tradicionais portuguesas. "Hoje a prática de guardar sementes está praticamente desaparecida", lamenta. A maior parte dos agricultores, sobretudo os mais jovens, usa sobretudo sementes híbridas, as que se vendem nas lojas e que, explica Graça, exigem produtos químicos para crescerem, e têm um ciclo de vida mais curto. "Ao fim de uma ou duas gerações já não podem ser utilizadas, enquanto as das variedades tradicionais sobrevivem muito tempo e era isso que garantia antigamente a independência dos agricultores".

A experiência do Banco de Germoplasma (integrado no Ministério da Agricultura) é mais antiga. Nasceu em 1977 e desde então tenta também recolher o maior número possível de espécies e de variedades. "Grande parte dos materiais que temos no banco [mais de 100 espécies] já não estão em produção. Antigamente havia muito mais agricultores a usar variedades tradicionais do que os que existem neste momento", afirma Ana Barata, do BPGV.

A substituição das variedades tradicionais pelos híbridos levou a que a nossa alimentação ficasse mais limitada. "Hoje as nossas sementes estão a ser procuradas por restaurantes e chefs que promovem uma dieta mais variada", garante Graça Ribeiro. "Actualmente a população tem uma dieta muito restrita, e isso é negativo para a saúde." Só de feijões nacionais existem 400 variedades. "Se for ao supermercado encontra cinco ou seis, na melhor das hipóteses. Está a ver a perda enorme que isso representa do ponto de vista do nosso património?"

Quando se pôs a investigar o assunto, Bárbara Coutinho foi-se apercebendo de cada vez mais ligações. "As sementes estão na origem do cálculo e do próprio dinheiro." E hoje, o facto de muitas delas se estarem a tornar raras faz com que sejam preservadas em bancos como o BPGV em Portugal ou como o banco financiado por Bill Gates na Noruega, um autêntico bunker que pretende preservar a origem da vida para o caso de um cenário de catástrofe mundial.

Mas cada vez mais a tendência é para a preservação das sementes in situ, ou seja na terra, onde podem ser cultivadas e mantidas no seu ciclo natural de vida. É isso que faz a Colher para Semear, no seu terreno e com a ajuda dos sócios, que plantam em terrenos agrícolas mas também em pequenas hortas, quintais, jardins.

O BPGV, que conserva muitas sementes em câmara de frio, começou também a seguir essa tendência. "O objectivo é tentar que os agricultores voltem a produzir as variedades tradicionais, e eles estão abertos a isso", diz Ana Barata. Há mesmo produtos que já renasceram, como a broa de milho de Arcos de Valdevez ou o feijão tarrestre.

O MUDE organiza amanhã e domingo uma feira de produtos biológicos, com produtores que usam variedades tradicionais e a partir de Janeiro vai ter painéis de debate "sobre um leque de assuntos que se abrem a partir daqui e que entroncam em coisas tão diferentes como a slow food."

Em Março, quando a Primavera começar, a exposição encerra, as sementes voltarão para a terra, e os cofres que guardaram jóias, dinheiro, barras de ouro, segredos e sementes, ficarão à espera de novas riquezas - fiéis guardiões do que, na altura, os homens acharem que é, no mundo, o valor mais importante.