A educação de Patti Smith

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Premiado com o National Book Award, "Just Kids" não é a autobiografia da estrela rock reflectindo sobre a fama ou as drogas. É um livro sobre os anos formativos de Patti Smith e Robert Mapplethorpe e é um manual de sobrevivência de artistas na cidade, uma deambulação por uma Nova Iorque que já não existe ou uma fábula sobre crianças à deriva

Em Outubro de 1972, Patti Smith e Robert Mapplethorpe decidem sair do "loft" que partilham na Rua 23, ao lado do Chelsea Hotel, em Nova Iorque. Nos últimos cinco anos, tinham sido inseparáveis, como um casal ou um par de gémeos. Tinham partilhado a cama, a fome e ideais artísticos.

Ao fazer as malas, ela sabe que tudo vai ser diferente a partir de agora. Deixa algumas coisas para trás, como quem deixa um resto de vinho na taça para os deuses. Robert Mapplethorpe pega-lhe na mão e pergunta: "Sentes-te triste?" Ela responde: "Sinto-me pronta".

Não há nostalgia em "Just Kids", o livro em que Patti Smith reconstitui a sua relação com o artista Robert Mapplethorpe. Não é um livro de memórias congeladas, é uma coisa viva. Em parte, isso tem a ver com o facto de Smith se lembrar de tudo ao pormenor, como se fosse ontem, alegadamente com a ajuda de diários escritos na altura. Mas também porque "Just Kids" é uma narrativa em constante movimento: os heróis literários invocados por Patti Smith podem pertencer ao século XIX, mas o seu livro é uma moderna epopeia americana, com mais do que um grau de parentesco com "The Adventures of Augie March" de Saul Bellow, e "Uma Agulha no Palheiro" de J.D. Salinger. Como estes, "Just Kids" é um romance picaresco sobre a busca de identidade e a determinação individual. Em todos eles, o "destino" é, ao mesmo tempo, resultado de vontade própria e das oportunidades que surgem caminho. Como o herói de Bellow, Patti nasceu em Chicago.

A fuga

"I'm gonna be somebody, I'm gonna get on that train, go to New York City, I'm gonna be so bad I'm gonna be a big star and I will never return". Estes versos, que Patti Smith canta em "Piss Factory", lado B da sua primeira gravação, revelaram-se premonitórios. A única correcção é que não chegou a Nova Iorque de comboio.

No Verão de 1967, tem 20 anos, acaba de dar à luz e dá o filho para adopção. Trabalha numa fábrica em Filadélfia onde ganha o salário mínimo. Desiste dos estudos e da ideia de ser professora. Tem a cabeça cheia de noções românticas sobre arte e a vida de artista. Vive, como ela própria afirma, no mundo dos seus livros, "a maioria dos quais escritos no século XIX". Os livros salvaram-na das múltiplas doenças que a imobilizaram na infância. Os livros e a música. Quer ser artista. Quer ser poeta.

Tem dinheiro suficiente para uma viagem de autocarro para Nova Iorque. "Ninguém me aguardava. Tudo me esperava." A mãe oferece-lhe uma bata e sapatos brancos, o uniforme de uma empregada de mesa. Patti inclui o seu exemplar de "Iluminações" de Rimbaud, na bagagem. "Iríamos escapar juntos." Rimbaud tinha a cara de Dylan, e não o contrário.

O preço do bilhete aumentara quase o dobro desde a última vez que viajara. Frustrada, decide telefonar para casa. Na cabine telefónica encontra uma carteira com 32 dólares - quase uma semana de salário na fábrica onde trabalhara. "Aceitei a dádiva da pequena carteira branca como a mão do destino a empurrar-me para a frente."

Patti Smith tem a morada de uns amigos que estudam e vivem em Brooklyn. Mas em vez deles, encontra um rapaz a dormir no apartamento. "Nunca tinha visto ninguém como ele." Nas primeiras semanas, sem um lugar onde ficar, dorme na rua, no Central Park, em carruagens de metro, num cemitério. É Julho, mas usa uma gabardine, inspirada em Dylan. Ela e o rapaz voltam a cruzar-se na livraria onde Patti começou a trabalhar. Pouco depois, ele salva-a de um encontro forçado. A partir daí ficaram juntos. Robert e Patti. Famintos, partilhando uma existência sórdida e um apetite insaciável pela arte. Já pareciam artistas, antes de o serem. Patti Smith conta como, passeando uma tarde em Washington Square, uma mulher mais velha incitou o marido a fotografá-los, julgando que eram artistas. "They're just kids", contestou o marido. "São apenas miúdos."

Heróis privados

Publicado no início do ano nos EUA e recentemente premiado com o National Book Award, "Just Kids" não é a autobiografia da estrela rock reflectindo sobre as consequências da fama ou o purgatório das drogas. É um livro sobre os anos formativos de Patti Smith e Robert Mapplethorpe e, dependendo do ângulo, é um manual de sobrevivência de artistas na cidade, uma deambulação por uma Nova Iorque mítica que já não existe, ou uma fábula infantil sobre crianças à deriva - Robert Mapplethorpe e Patti Smith são uma espécie de versão moderna de Hansel e Gretel.

O discurso é encantatório e impregnado de simbolismo. Patti narra como quem deita cartas de tarot. Acontecimentos e datas adquirem um manto providencial - Patti nasce durante o nevão de 1946, dá à luz o seu filho ilegítimo no aniversário do bombardeamento de Guernica, ela e Mapplethorpe deixam o "loft" da Rua 23 no aniversário do nascimento de Rimbaud.

"Just Kids" é o livro de uma fã, o testemunho da devoção aos heróis que a modelaram. Patti Smith aprendeu por imitação, e não tem pudor em admiti-lo. Posa para Robert Mapplethorpe à maneira de Dylan na capa do álbum "Bringing It All Back Home". Começa a escrever críticas de discos para revistas de rock inspirando-se em Baudelaire. É fotografada a fumar porque viu Jeanne Moreau fazê-lo. Pinta auto-retratos emulando Frida Kahlo. Antes de começar a recitar poesia em público, ouve gravações dos poetas da "beat generation" e do cantor e poeta afro-americano Oscar Brown Jr. Na célebre fotografia de capa do álbum "Horses", Patti tira o casaco preto e segura-o num ombro, imitando o estilo de Frank Sinatra. "Eu estava cheia de referências."

Bob Dylan assiste a um dos seus primeiros concertos, no clube nova-iorquino Other End. "Ele estava lá. Subitamente, percebi a natureza do ar eléctrico. Bob Dylan tinha entrado no clube. Este conhecimento teve um efeito estranho em mim. Em vez de me sentir humilde, fui invadida por uma sensação de poder (...). Pareceu-me uma noite iniciática. Em que eu tive de me tornar inteiramente eu própria na presença daquele em que me tinha modelado."

Bob Dylan, Baudelaire, Rimbaud, não interessa se estão vivos ou mortos. Nessa altura, não era raro ouvir Patti Smith que teria fodido com Rimbaud ou Blaise Cendrars. "Just Kids" é um fresco cheio de vitalidade, mas não quer dizer que não seja filtrado pelo tempo. A voz agora é madura, grata e reverencial. Pelo menos uma vez, ela recrimina o fantasma da sua juventude, quando se estreia a ler poesia na Igreja de St. Marks, no East Side a 10 de Fevereiro de 1971. "Na actuação, recorri a toda a arrogância submersa que podia possuir. Mas depois fiquei tão cheia de adrenalina que me portei como um galo vaidoso."

E para alguém que se impôs como uma figura intimidatória, cuspindo agressividade e provocação, revela como muitas das suas noções na altura, sobre sexo, drogas ou homossexualidade, eram cândidas ou ingénuas.

Quando Mapplethorpe regressa de uma viagem a São Francisco, onde tem as suas primeiras experiências sexuais com homens - ele implorara-lhe, antes de partir: "Se não vieres comigo, vou tornar-me homossexual" -, Patti escreve que se sentiu como se tivesse falhado. "Pensava que um homem se tornava homossexual quando não tinha a mulher certa para o salvar, um conceito errado que eu extraíra da união trágica de Rimbaud e do poeta Paul Verlaine. (...) Na minha imaginação literária, a homossexualidade era uma maldição poética, noções que eu respigara de Mishima, Gide e Genet. Não sabia nada sobre a realidade da homossexualidade. (...) Orgulhava-me em não julgar os outros, mas a minha compreensão era estreita e provinciana."

Continuam juntos, mesmo quando ele começa a ter as primeiras relações sérias com homens e ela envolve-se com outros artistas - o poeta Jim Carroll, Allen Lanier, teclista dos Blue Oyster Cült, Sam Shepard. Mais do que amantes, Patti e Robert são irmãos, guardiões um do outro, modelo e musa. "Ninguém vê como nós", costumava dizer ele. "Não havia dúvida de que ele ainda me amava, e eu a ele", escreve Patti, depois de Mapplethorpe voltar de São Francisco.

Corte de cabelo

Em Fevereiro de 1970, depois de lhe perguntarem num tom "condescendente" se é uma cantora folk - "Ohhh, o teu cabelo é tão Joan Baez" -, Patti Smith corta o cabelo à imagem de Keith Richards. O corte criou sensação e as oportunidades fizeram fila - outro dos seus encontros com a sorte.

É preciso dizer que Patti está no sítio certo na altura certa: o Chelsea Hotel, epicentro de uma das mais florescentes cenas artísticas dos 60s e 70s, a cultura "underground". Não era raro cruzar-se com Jimi Hendrix, William Burroughs, Candy Darling ou Salvador Dalí. É a sua "universidade", diz.

Allen Ginsberg tenta engatá-la num "self-service" julgando que ela é "um rapaz bonito". Perguntam-lhe se é andrógina. Ela não sabe o que isso quer dizer. "Pensei que a palavra queria dizer bonito e feio ao mesmo tempo." A sua aparência garante-lhe uma reputação de má rapariga e alguns equívocos. "Tu não te injectas e não és uma lésbica. O que é que fazes realmente?" Em 2002, num perfil na "New Yorker", Patti explicou: "Tive breves períodos de experimentação, frivolidade e promiscuidade durante a juventude. Mas não era uma pessoa dos anos sessenta. Não queria o amor livre e a liberdade das drogas. Na minha obra, violei, assassinei e ingeri drogas que nunca existiram. Mas na minha vida fui bastante bem-comportada. Tentei sempre explicar isso, mas as pessoas não querem acreditar."

Ao deixar o Chelsea Hotel, Patti Smith olha para os que ficam. "Muitos não iriam sobreviver. Candy Darling morreu de cancro. (...) Outros sacrificaram-se pelas drogas e desventuras. (...) Não sinto qualquer tipo de vindicação como parte de um punhado de sobreviventes. Preferia que todos tivessem tido sucesso e continuado a viagem. Como veio a verificar-se, eu fui uma das que apanhou um dos melhores cavalos."

A promessa

Robert Mapplethorpe morre a 9 de Março de 1989, vítima de sida. Patti Smith está na sua casa em Detroit. Deixara o rock há dez anos, casara-se e tinha uma família. Na véspera, tinha falado com Mapplethorpe ao telefone. Na manhã seguinte, acorda cedo, e ao descer as escadas, escreve, sabia que ele tinha morrido. A televisão ficara ligada toda a noite e nesse momento está a passar uma ópera de Puccini: Tosca declara a sua paixão pelo pintor Cavaradossi. Só depois o irmão mais novo de Mapplethorpe telefona, com a notícia.

Numa nota ao leitor, escrita depois da edição de capa dura, e incluída no "paperback" lançado recentemente, Patti Smith explica que Mapplethorpe lhe pediu para contar "a nossa história" na última vez que se viram. "Tens de, ninguém senão tu a pode contar." Ela prometeu fazê-lo, mesmo sabendo que era um pacto "difícil de cumprir". Quando começou a escrever as primeiras notas para o livro, o pianista da sua banda, Richard Sohl, morreu. Pouco depois, em 1994, perdeu o marido, Fred "Sonic" Smith dos MC5, e o irmão Todd. Há dez anos, a sua editora original desistiu do contrato, depois de Patti falhar a data de entrega do manuscrito.

Robert Mapplethorpe emerge como uma figura romântica em "Just Kids", mas o retrato nunca é complacente ou hagiográfico. Mais do que uma vez, Smith faz referência à ambição feroz de Mapplethorpe. "Eu não me importava de trabalhar na obscuridade. Eu era pouco mais do que uma estudante. Mas Robert, apesar de tímido, não-verbal, e aparentemente dissociado daqueles que o rodeavam, era muito ambicioso. (...) Grande arte e alta sociedade; ele aspirava atingir as duas."

Ela também oferece exemplos de como Mapplethorpe tirou partido de algumas relações para alargar o seu círculo social.

Sobre Mapplethorpe e Sam Wagstaff, simultaneamente amante e patrono, escreve: "Robert gostava do dinheiro de Sam, e Sam gostava que Robert gostasse do seu dinheiro. Sam tinha o desejo secreto de ser artista, mas não era. Robert queria ser rico e poderoso, mas não era."

No Verão de 1978, a canção "Because the night", co-escrita com Bruce Springsteen, atinge o 13º lugar no top de vendas. Até hoje, é o maior êxito de Patti Smith. Robert Mapplethorpe disse-lhe na altura: "Patti, ficaste famosa antes de mim".