O coração no lugar da cabeça

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"Fim de citação" mistura diferentes autores que a Cornucópia nos apresentou - Genet, Lorca, Müller, Shakespeare, entre outros - para perguntar se ainda vale a pena fazer-se o que se diz que se anda a fazer. Até dia 12 de Dezembro, eis-nos, outra vez, no novo teatro do mundo

"Fim de citação", em cena na Cornucópia, termina com a imagem de Luís Miguel Cintra a segurar uma bandeira, tal como acontecia em "Mauser" (1992). Poderia ser uma peça de teatro-no-teatro não fosse dar-se o caso de o Teatro da Cornucópia nos perguntar se falamos da mesma coisa quando falamos do Teatro da Cornucópia. Trinta e sete anos depois da primeira peça, "Anfitrião", a inquietação é a mesma: perguntar se está alguém do outro lado. E pedir que a resposta não seja um passivo "sim".

Luís Miguel Cintra diz que está cansado: da rotina, das cedências, da esperança em futuros que não vão acontecer, do teatro e do sistema que o consome e que ele consome. A peça fala disto tudo. "É uma charada" onde importa "o que os actores fazem com o que estão a dizer, não o que estão a dizer". Figuras definidas não há, apenas quatro actores num palco cheio de espelhos, permanentemente reflectindo aqueles corpos sem idade, sem nome, sem história. E, no entanto, o que vão dizendo - sobre o teatro, sobre a vida, sobre o que existe entre e partir dessa relação - vai desfiando memórias de outras peças, tal como os adereços vão trazendo à memória imagens de outras peças. E ele, senhor, recusa uma distância, um púlpito, uma estátua. Continua a querer sujar as mãos e, agora, "sem a vergonha que o consumia antigamente". Eis Luís Miguel Cintra pronto para começar, mais uma vez.

Está cansado?

Sim, estou. À medida que a Cornucópia vai somando espectáculos parece-me que se sente na relação com o público o peso dessa história, mais do que a novidade desse espectáculo. Cansa-me essa luta constante e este espectáculo explica isso.

Não é um cansaço de derrota, mas de vontade de modificar qualquer coisa. É a inquietação que faz parte da natureza de qualquer artista. É sintoma de que sempre me considerei não como fabricante de espectáculos, mas como pessoa que sempre se disse intérprete de textos de outros. Nunca me limitei a que as encenações fossem uma interiorização, antes uma adopção dos textos, de modo a que isso resultasse num espectáculo mais pessoal. E digo pessoal só para facilitar a linguagem. É o produto de muita gente. Mas funciono muito neste colectivo como um despoletador de sensibilidades, de provocador.

Não de demiurgo?

Creio que não. E as pessoas gostam. O que acontece é que recebo uma resposta interessante porque as pessoas aceitam essa posição e respondem-me nessa situação. Há um acordo tácito, uma carta em branco, uma confiança grande.

Está permanentemente a perguntar se merece essa carta?

Estou sempre à espera de conseguir provocar nelas uma responsabilidade paralela à minha. Por isso a minha relação com os actores é parecida com a minha relação com o público. No fundo estou sempre ansioso por encontrar um outro, uma pessoa com quem esteja a dialogar, e que me fale a mesma linguagem. E aí é que é difícil conseguir isso com o público. Mas é menos difícil com uma pessoa com quem já tenha trabalhado há muito tempo.

Preciso de um estímulo de outra pessoa. Mesmo na minha relação com o público sinto que estou sempre a reagir àquilo que sinto que é o viver das pessoas à minha volta. Sinto a temperatura da sociedade em que estou inserido e é a essa temperatura que tendo a reagir.

Lemos os textos anteriores de apresentação dos espectáculos e descobrimos que o medo do impasse é uma ideia que vem do início.

Sim, mas isso é como na vida. Estou permanentemente a tentar viver e não a ficar instalado numa posição de reafirmação de uma personalidade. Há uma coisa qualquer no teatro que me fascina: a necessidade de actualizar tudo a cada dia. Mesmo quando o espectáculo está pronto, temos que o renovar e reinventar. Um escritor quando escreve já esta a reflectir sobre o que aconteceu. A actividade de criar não é simultânea à actividade de viver. No teatro isso não acontece. 

O que está a pedir é que o público seja reactivo.

O público deve ter vontade de ver alguma coisa. Temos a sensação de que há uma superestrutura ideológica que domina toda a sociedade e as pessoas estão integradas nisso, não tendo a disponibilidade e a curiosidade para uma novidade. Porque já estão com aquilo na cabeça.

As pessoas têm o seu pensamento organizado, pessoas até de quem me sinto próximo e que não têm já espaço para qualquer esperança e conhecimento de uma linguagem nova ou de novas ideias. O que queria era perceber nas pessoas mais novas e que vão continuar a vida depois da minha alguma coisa que me interesse que eu não vivi. Isto acontece pouco na vida. As pessoas envelhecem, confirmando o seu estatuto, o seu pensamento e com saudades do passado. Eu não tenho saudades do passado, eu quero é ser estimulado com coisas que venham para a frente.

Repugna-me nas pessoas da minha geração uma espécie de amargura por não receberem aquilo de que estavam à espera. Eu gosto dos gestos gratuitos, eu não lanço para depois colher, eu lanço porque me apetece. Se depois me vem uma prenda fico contente mas não estou a fazer um cálculo. Na minha geração havia mais invejas, mais competição a um nível mais profundo. Este género de sensibilidade felizmente está a morrer.

Mas o que acontece com a sua geração?

A gente respeita o trabalho uns dos outros, há uma solidariedade de pessoas que começaram já há muito e que têm experiência de muita coisa. Mas creio que cada um percebeu que tem um objectivo concreto que é diferente, uma concepção do teatro que é menos profunda que aquilo que existe entre as pessoas mais novas. E pesa muito os anos de experiência, pesa muito alguma decepção em relação ao que a gente esperou que pudesse acontecer.

Isso faz com que a ideia de pares e cúmplices não se possa fechar numa ideia geracional.

Pois não. Mas isso faz parte da minha maneira de viver. Vivo muito por entusiasmo ou por paixão, para usar uma palavra grave. Vivo muito emotivamente. Quer no trabalho como actor quer na vida em geral, tenho que ter um sistema de autocrítica a funcionar. Portanto, funciona com a cabeça e o coração ao mesmo tempo. Mas o motor é o coração.

Pensa numa Cornucópia pós-Luís Miguel Cintra?

Não. Muitas pessoas insistem que não estou a preparar a minha descendência, que não estou a saber passar a companhia a outras pessoas mais novas. Eu acho que esta companhia, quando deixar de a dirigir com a Cristina [Reis, cenógrafa e figurinista], já não faz sentido. E acho que não deve fazer sentido, corresponde a estas pessoas e a este grupo. Não estou interessado em conservar isto.

Imagina o espectador dos seus espectáculos?

Imagino um espectador que me responda com perguntas que nunca fiz a mim próprio. Que vá mais longe do que eu. Quando um espectáculo me dá essa possibilidade é uma alegria muito grande. A sociedade onde estamos a viver limita a personalidade das pessoas e é preciso muita força para não se deixar esmagar.

E em relação ao que tinham sido as ideias de como essa sociedade poderia ser desenvolvida?

Para nós era importante a ideia de povo, e havia uma responsabilidade em relação a isso, ao povo que sabia menos que nós, que tinha menos acesso a informação, e isso dava-nos uma responsabilidade grande em relação a essas pessoas. Actualmente na minha cabeça isso já não existe, povo já não há. Mas lamento que não haja a inocência e a disponibilidade que uma pessoa do povo há 60 ou 50 anos tinha. Foi agradável quando foi possível, como a recepção ao "Terror e Miséria no III Reich" [Brecht, 1974] nas campanhas de dinamização do MFA, isso é inesquecível, a sensação de encontrar pessoas virgens, com uma capacidade de análise do que lhes era posto à frente, não eram perturbadas por nenhum ruído. Hoje isso já não é possível, as pessoas têm que fechar o ruído se quiserem.

Isso deixa-vos com que responsabilidade?

A mesma atitude séria com que nos dirigimos aos outros. Mas faz parte dessa responsabilidade perceber que não devemos exercer influência sobre eles no sentido de transmitir uma ideologia.

Sente-se responsável por alguma coisa?

Por tudo. As pessoas gozam comigo porque tenho um sentimento de culpa gigantesco e acho sempre que sou o culpado pelo que acontece de menos bom. Mas tudo o que se faça que me diz respeito. Acho que tem que me atingir de alguma maneira: se decido fechar a porta e dizer que um assunto não me interessa, estou a ser responsável por isso. Espero e exijo muito de mim próprio.

Mas tem medo de si, do que sabe que é capaz?

Acho que não.

Mas sente-se ou não capaz de tudo?

Não, mas sinto que devia ser capaz [de tudo]. Há uma luta por fazer sempre aquilo que não sou capaz de fazer, mas se antigamente tinha vergonha de mostrar essa luta, hoje já não tenho. Se não conseguir fazer, não tenho nenhum problema.

É assim no teatro como na vida?

Na vida sou muito menos activo, tenho prazer em estar a receber o que os outros me querem dar, já tenho espaços diferentes que não são de afirmação.