Morreu o compositor polaco Henryk Górecki

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Desaparece um nome maior da vanguarda polaca e do moderrnismo europeu.

O compositor polaco, Henryk Górecki, um dos grandes nomes do modernismo, morreu hoje em Katowice aos 76 anos, depois de vários anos a lidar com um frágil estado de saúde. O seu trabalho, seguido com admiração junto dos meios melómanos, onde era reconhecido como um dos mais originais compositores do seu tempo, ganhou reputação junto do grande público com a Sinfonia nº3, a chamada "Sinfonia das Canções Tristes", composta em homenagem às vítimas dos Holocausto e que atingiu vendas acima do milhão de exemplares, ou pelas colaborações com o Kronos Quartet. 

Nascido em Czernica, na Silésia, a 6 de Dezembro de 1933, Górecki, filho de músicos amadores, tornar-se-ia uma figura fulcral do renascimento da música polaca no pós-Guerra. Inicialmente influenciado pelo vanguardismo de Webern, Luigi Nono ou Karlheinz Stockhausen, dedicar-se-ia a partir da década de 1970 à música sacra, de um lirismo acentuado e onde se destacava a influência da música popular do seu país. A influência polaca é fulcral em todo o seu percurso (apesar de alguns períodos a estudar em Berlim ou Paris, passou toda a sua vida na Polónia), marcando-lhe a música e a intervenção social que desenvolveu. Foi figura de proa da chamada Nova Música Polaca, no pós-guerra, e célebre opositor ao regime comunista que liderou o país até 1989.

Apesar do seu precoce interesse em música, Górecki só iniciaria uma verdadeira formação musical aos 19 anos, quando venceu a oposição inicial do pai e da madrasta (a mãe morrera quando tinha dois anos de idade, e a ela dedicaria o compositor grande parte dos seus primeiros trabalhos). A sua férrea dedicação, contudo, levou a que completasse em apenas três anos o curso de quatro na Escola Estatal de Música Irmãos Szafrankowiem, em Rybnik, onde estudou violino, o seu primeiro instrumento, clarinete, piano e teoria musical. Completaria a sua formação na Academia Musical de Katowice, onde se graduou com distinção em 1960. 

A sua música, inicialmente marcada pelo serialismo e pelo modernismo de Webern, Xenakis e Boulez, revela-se numa Sinfonia nº1, de 1959, recebida com entuasiasmo na Polónia e vista como revelação de um enorme talento nos meios musicais europeus. A Sinfonia nº2 surgiria apenas 13 anos depois. Composta para celebrar o 500º aniversário do nascimento de Copérnico, revela já uma evolução estética onde o vanguardismo de outrora dá lugar a um lirismo mais acentuado e a um investimento melódico mais tradicional.

Católico devoto, procuraria a partir dali incutir na sua música um sentido espiritual profundo, que atingirá o auge na sua obra mais conhecida, a Sinfonia nº3, construída sobre que um lamento de século XV, as palavras que uma adolescente escreveu nas paredes de uma prisão polaca da Gestapo e uma história do folclore da Silésia, em que uma mãe chora o filho perdido na guerra. Conhecida como "Sinfonia das Canções Tristes",  tornaria Górecky um caso raro de sucesso transversal, ainda que os mais de um milhão de discos vendidos em 1992 não tenham gerado interesse no restante da sua obra.

Comparado a compositores como Olivier Messiaen ou Arvo Pärt pela estrutura musical, pelo temperamento romântico e pelos temas religiosos, Górecky foi também um professor marcante. Não só pela protecção da Academia de Katowice, onde começou a ensinar em 1968, daquilo que via como ingerência abusiva do estado comunista, mas também pela sua lendária exigência. Ele que abandonou o seu cargo na Academia em 1979, em protesto pela recusa do regime em acolher uma visita a Katowice do então Papa João Paulo II, costumava reservar um conselho aos seus alunos, como recorda hoje o "Guardian": "Se conseguem viver sem música durante dois ou três dias, então não componham - talvez seja melhor passarem algum tempo com uma rapariga ou à volta de uma cerveja".

Após a saída da Academia, Górecky colaboraria com a Sinfonietta de Londres ou com o Kronos Quartet, o que foi aumentando a sua visibilidade fora da Polónia, o país onde nasceu e que o condecorou este ano com a Ordem da Águia Branca, a mais alta distinção do estado polaco.