Crítica

Retrato do artista enquanto ícone

Um singular olhar sobre Serge Gainsbourg que, mais do que biografia da pessoa, é uma assumida celebração do mito

Que não se entre nesta "vida heróica" de Serge Gainsbourg, o provocador icónico da música pop francesa da segunda metade do século XX à espera de um filme biográfico tradicional. Não foi isso que o argumentista e desenhador de BD Joann Sfar quis fazer na sua primeira longa. O genérico, aliás, é sintomático, ao chamar a "Gainsbourg" um "conto" - uma biografia do mito mais do que da pessoa, um olhar sobre as vidas e as imagens que Gainsbourg projectou e viveu usado como meio para chegar mais perto da essência de alguém que se tornou num ícone de uma certa ideia da França artística.Este Gainsbourg é uma vedeta relutante que escreve canções como declarações de amor ou frases de engate (a Brigitte Bardot, a Jane Birkin, a Juliette Gréco, às mulheres que atravessam a sua vida), desdobrado num alter ego fantasmático (La Gueule, uma representação grotesca das suas fraquezas tornadas em força) e numa criança precoce. No processo, Sfar desenha um delicioso retrato do artista enquanto criação pop como raras vezes se terá visto no cinema, ajudado pela criação de estarrecer de Éric Elmosnino, que transcende o mimetismo para se tornar numa espécie de encarnação livre do ícone.Mas "Gainsbourg, Vida Heróica" é também um exercício sublimemente minucioso na mecânica da "féerie" hollywoodiana, que recria com amor e carinho as convenções do musical e do "biopic" para em seguida as subverter subterraneamente através da incrustação de elementos oníricos. O efeito é simultaneamente lúdico e hiper-realista, com Joann Sfar a manipular as figuras obrigatórias com desenvoltura e irrisão, conseguindo combinar fantasia e rigor com uma segurança surpreendente para um estreante. Mesmo que tudo perca gás no terceiro acto e se comece a reduzir a uma sucessão de episódios um pouco apressados e desconexos, o que ficou para trás é suficiente para garantir que o realizador sabia muito bem o que estava a fazer: um filme pop singular e fascinante, tão caleidoscópico como a multiplicidade de imagens que Gainsbourg projectou. Parece-nos bem que o artista aprovaria.

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