Takashi Miike para maiores de 12 anos

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"13 Assassins", de Takashi Miike DR/Hanway Films

Já sabemos que do nipónico Takashi Miike tem sempre de se esperar o inesperado.

E logo no pré-genérico percebe-se porquê: comete-se um hara-kiri fora de campo, visto apenas no rosto de dignitário que o comete, sem sangue nem vísceras.

Lá mais para a frente, haverá um par de cabeças a rolar, alguns bois a arder e uma rapariga mutilada – e o sadismo assumido do vilão da história.

O inesperado, no caso de “13 Assassins” (competição), é que a obra habitualmente “interdita a menores de 18 anos” de Miike dá lugar a um filme para “maiores de 12 anos”, onde as tendências sanguinolentas e desvairadas do realizador estão de tal modo controladas que quase não reconhecemos o autor de “Ichi the Killer”.

Que “13 Assassins” seja mais “soft” do que é normal não é exactamente uma surpresa para os cinéfilos mais habitués do cinema asiático, ainda menos para os ferrenhos de Miike, que já assinou para cima de cem filmes (e tinha dois outros fora de concurso em Veneza, as suas comédias de super-herói “Zebraman” e “Zebraman 2: Attack on Zebra City”).

A reputação sulfurosa que o cineasta tem no Ocidente deve-se aos seus filmes mais extremos e desvairados, mas “13 Assassins” é uma “remake” de um “jidai-geki” (filme de samurai) de 1963 de Eiichi Kudo, sobre a missão secreta de doze samurais enviados para eliminar um nobre cruel e sádico. Dentro de uma estrutura clássica, Miike joga deliberadamente com estruturas e convenções do género: há algo de western, algo de filme de guerra a espaços, sentem-se referências a “Doze Indomáveis Patifes” e “Os Sete Samurais”.

 E é particularmente interessante o modo como o filme é deliberadamente separado em duas partes, concentrando toda a acção numa alucinante sucessão de cenas de combate que ocupam os últimos 45 minutos do filme. (A versão apresentada em Veneza, avance-se, é uma montagem internacional 20 minutos mais curta que a versão que irá estrear no Japão.)

13 Assassins” cumpre o caderno de encargos do “jidai-geki” na perfeição e é um excelente exemplo clássico do género. Mas quem esperar dele uma versão “Miikiana” do filme de samurais pode tirar o cavalinho da chuva - “13 Assassins” é Takashi com a rédea curta.