Abdellatif Kechiche filma um destino de mulher

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O cineasta do "Cuscus" assina uma obra notável sobre a sociedade do espectáculo e a dignidade humana - mas Veneza não gostou

Há um momento em “Vénus Noire” (competição) que nos remete directamente para o anterior filme de Abdellatif Kechiche: o paroxismo de angústia e catarse que era a dança do ventre de Hafsia Herzi em “O Segredo de um Cuscus” (Prémio Especial do Júri em Veneza 2007).

Só que, aqui, esse momento surge a meio do filme, quando Saartjie Baartman se deixa levar pela sensualidade do ritmo e da dança e abre a porta à tragédia que se seguirá. Como quem diz que a tensão ainda só começou a subir.

E se a angústia que sentíamos por saber se o restaurante do sr. Slimane ia ou não ser um sucesso já era insustentável, a espiral de vertigem para que o sr. Kechiche nos arrasta em “Vénus Noire” é ainda menos recomenda nada a cardíacos e almas sensíveis. Porque Saartjie Baartman, a “Vénus hotentote” que foi atracção de feira na Europa do século XIX, ao contrário do sr. Slimane, não tem família a que se agarrar. Está sózinha e sózinha morrerá. E não estamos a revelar nenhum segredo porque “Vénus Noire” baseia-se numa história verdadeira de uma doméstica sul-africana que veio para a Europa fazer fortuna (e encontrou o infortúnio).

Não é, escusado será dizer, outro “Segredo de um Cuscus”. Sente-se, até, que Abdellatif Kechiche terá procurado um projecto deliberadamente nos antípodas, muito embora reconheçamos nele o seu tema-fétiche da dignidade humana confrontada com a violência psicológica, com o olhar dos outros. Mas quem viesse à espera de outro “Cuscus” terá saído, num primeiro embate, abananado – explicando a reacção fria na primeira projecção de imprensa, com direito até a algumas vaias.

Não é por acaso: “Vénus Noire” é uma extraordinária meditação sobre a sociedade do espectáculo, o modo como ela se alimenta da novidade, do escândalo, o modo como o olhar que se lança sobre alguém define a percepção de quem vê e de quem é visto.

Saartjie, interpretada com uma dignidade incontestável por Yahima Torrès (uma vizinha de Kechiche sem experiência profissional de actriz), era uma mulher livre para os padrões da sua época – só que ninguém acreditava nisso. Nem as actrizes que achavam que o seu espectáculo de selvagem domesticada era indigno de ser considerado representação, nem os moralistas que a queriam salvar da “escravatura” em nome da moral e dos bons costumes vigentes, nem sequer os naturalistas que queriam estudar a anatomia peculiar de Saartjie e não a consideravam capaz de vontade própria.

Ninguém é inocente nesta triste história verdadeira – nem sequer a própria Saartjie, cúmplice do seu próprio destino trágico: por trás das boas intenções ou das indignações, escondem-se preconceitos aos quais ninguém escapa. O liberalismo e o fundamentalismo têm mais em comum do que parece, afinal.

O estilo naturalista de Kechiche, que estrutura o filme de novo por quadros longos em tempo real (outros tantos actos na tragédia da Vénus negra), é perfeito para contar esta história. É graças a ele, e à entrega espantosa dos seus actores (Andre Jacobs, Olivier Gourmet, Elina Löwensohn), que somos arrastados nesta descida aos infernos, dos teatros rascas de Londres aos salões elegantes de Paris, revelando como não há assim tanta diferença entre a “plebe” e a “nobreza” quando é a natureza humana que está em jogo.

A odisseia de Saartjie raia a espaços o desconfortável, o chocante, o humilhante. Ocasionalmente Kechiche carrega em demasia no traço grosso – mas tire-se-lhe o chapéu por não ter feito de “Vénus Noire” nem o dramalhão de faca e alguidar que espreitava a cada canto, nem o panfleto de denúncia contra a exploração do homem pelo homem. Kechiche não julga, mostra. E conta-nos uma história exemplar de uma mulher a quem nunca ninguém deu o devido valor. Talvez seja precisamente por isso que Veneza reagiu tão friamente: porque nos força a confrontar-nos com o nosso próprio olhar.

Algo nos diz que “Vénus Noire” se vai tornar num grande filme maldito.