Torne-se perito

Os melhores museus estão onde menos se espera

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Gostamos de museus. E temos bons museus - alguns com prémios internacionais, e nem sempre os mais óbvios. Guardámos selvas empalhadas, ânforas romanas, latas de sardinhas, pentes pré-históricos, dados viciados, chapéus de feltro, e até a cadeira onde Camilo se suicidou. Houve alturas em que corremos o risco de nos esquecermos de nós próprios. Boas notícias: afinal não vamos perder a memória.

Viagem rápida pelo país. Cinco museus: Portimão, Penafiel, Casa de Camilo em São Miguel de Seide (Famalicão), Museu da Chapelaria em São João da Madeira, e Museu da Ciência em Coimbra. Podiam ser outros, é verdade, mas estes contam histórias diferentes umas das outras; foram, vários deles, premiados; fazem, quase todos, parte da Rede Portuguesa de Museus, que em 2010 celebra dez anos; e são, todos eles, exemplos de vontade, persistência, teimosia, e prova de que não deitar fora uma velharia pode afinal ser uma decisão de grande importância. Enão ficam nem em Lisboa nem no Porto.

Portimão, início dos anos 80. José Gameiro regressa do seu curso de Belas Artes em Lisboa para um cenário "de fábricas a fechar, património a sair". A Praia da Rocha estava cada vez mais pequena e precisava de  areia. Iniciam-se as dragagens do rio Arade para a praia. E do fundo do rio começa a sair o passado da cidade. O Arade deita cá para fora moedas, ânforas, era "a draga a lançar todos os testemunhos possíveis e imaginários da presença humana no rio".

Gameiro olhou para isso de um lado, olhou para as fábricas a fechar do outro, e decidiu falar com o presidente da Câmara de então para dizer que se estava "a perder um momento importantíssimo do ponto de vista histórico para a cidade". Foi ali, numa primeira conversa "na rua, à porta da Câmara", que se decidiu criar uma comissão de instalação de um museu. Estava-se em 1983.

"Começámos do zero. E deu nisto", diz Gameiro, com uma gargalhada. "Fomos reunindo em armazéns dispersos pela cidade um espólio incrível. Os nossos concorrentes na altura eram os sucateiros". Aproveitaram o Festival da Sardinha para abrir pavilhões e mostrar o que já tinham. "Aparecia um senhor 'olhe, sou pescador e encontrei uma ânfora, não querem?', e nós 'queremos, pois'".

2010. O Museu de Portimão, a funcionar desde 2008 na antiga fábrica de sardinhas dos irmãos espanhóis Feu, comprada pelo município em 1996, ganha o Prémio Museu do Ano do Conselho da Europa - uma distinção atribuída pelo Fórum Europeu de Museus. Em dois anos de funcionamento foi visitado já por perto de 200 mil pessoas.

O segredo, diz Gameiro, é que este museu "foi sempre pensado para a comunidade se reencontrar consigo própria, sentir-se bem consigo e com a sua história". Para o director, essa é a principal função dos museus hoje - "são o que eram antigamente os contadores de histórias".

E assim Portimão não perdeu a memória. "Somos uma região de turismo, em que há uma grande erosão da memória, e por vezes um acomodar a um gosto que é o do turista, e nós tentamos contrariar isso". Quando as fábricas fecharam, nos anos 80, surgiu um "novo paradigma, o turismo" e foi preciso "substituir rapidamente essas estruturas com alguma memória, para construir hotéis". Havia pressa e foi tudo muito rápido. "Não houve tempo para se repensar um pouco do ponto de vista cultural e histórico quem éramos", explica.

Agora é diferente. "O modelo do turismo assente no consumo do espaço e na densidade urbana está em questão". E são já os cruzeiros que pedem visitas ao museu, e os hotéis que o propõem aos seus clientes.

Muitos quilómetros mais acima, São João da Madeira, uma história não tão diferente quanto isso. Desta vez estamos nos anos 90, mais exactamente em 95, quando, esgotadas as tentativas de sobrevivência - inclusivamente a aposta em chapéus à "Dallas", no tempo em que a série americana mantinha os portugueses agarrados à televisão para saber quem matara JR Ewing -, a Empresa Industrial de Chapelaria decide fechar as portas.

Mas a cidade não estava distraída. Já desde 93 que uma escola desenvolvia um projecto para a criação de um museu regional e a Câmara estava disposta a fazer um museu ligado ao património industrial. Só que, conta Susana Menezes, directora do Museu da Chapelaria, os jovens de São João da Madeira tinham a ideia de que o que caracterizava a indústria local era sobretudo o calçado. Os mais velhos disseram-lhes que não e começaram a falar-lhes dos chapéus.

De repente, todos se apaixonaram por chapéus. Antigas fotografias e histórias saíram das gavetas e das memórias. Os operários voltaram à fábrica e falaram das máquinas e do tempo em que para se entrar ali todos tinham que ter um chapéu, explicaram como se tratava o pêlo e como se decorava um chapéu.

Havia pessoas como Méssio Trindade (hoje guia no museu, sempre com o seu chapéu na cabeça), que entrara para a fábrica aos dez anos, e que dizia nunca ter imaginado na vida vê-la fechar. "Uma empresa com aquela importância tinha fechado... As pessoas sentiam que naquela arte residia muito do que somos como comunidade", diz Susana Menezes. "A cidade deu-nos resposta a uma pergunta que não tínhamos chegado a colocar: em que indústria é que São João da Madeira se revia?".

O museu só podia ser da Chapelaria. A Câmara comprou o edifício e todo o espólio ligado à chapelaria, e em Junho de 2005 o museu inaugurou. Com pompa e circunstância, Presidente da República e segurança reforçada. Muitos dos habitantes da cidade não conseguiram entrar para ver o seu museu como queriam. Por isso, uma semana depois, a Câmara organizou nova inauguração para os chapeleiros - desde então, anualmente, há um Dia dos Chapeleiros. "Os mais novos agora acarinham este mundo como seu, e os mais velhos sentem que é a sua sala de visitas, onde podem mostrar uma parte daquilo que foram".

A vez das Câmaras

Seguimos viagem até ao Porto e desviamos para o interior. Penafiel, anos 40: Abílio Miranda, farmacêutico local, começou a reunir peças de arqueologia, etnologia, história local. Pedia às pessoas que lhe trouxessem tudo o que encontrassem nos campos para avaliar se seriam vestígios importantes. Foi director do museu quando este ainda era Biblioteca-Museu, e não poderia imaginar que na década de 90, 30 anos após a sua morte, o museu estivesse instalado no antigo liceu (antes disso um palacete residencial, e depois um colégio), que cresceu muito em área com o projecto dos arquitectos Fernando Távora e José Bernardo Távora, aproveitando antigos recreios e quintais para o que são hoje parte das seis salas (cinco de exposições permanentes e uma de temporárias).

"Temos uma visão do nosso desenvolvimento local e regional que passa pelo aproveitamento da cultura, das tradições e das artes", explica o presidente da Câmara de Penafiel, Alberto Santos. "O museu é um exemplo disso. A ideia era ter uma peça de arquitectura significativa e conseguir que a forma como a exposição é feita fosse tão inovadora e singular que criasse uma emoção nas pessoas." Aumentou o número de visitantes à cidade - dez mil este ano - e aumentou a auto-estima dos locais, assegura o presidente. A ideia é criar "âncoras", como o museu, a Rota do Romântico ou as termas de São Vicente - "um conjunto articulado de equipamentos em várias áreas, que vão construindo a ideia de que este é um território a que vale a pena voltar."

São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão. Entre a Casa de Camilo e o Centro de Estudos Camilianos há um pequeno estaleiro. Avançamos por entre o pó que se levanta do chão do pequeno largo entre as duas casas. De um lado, a mais antiga, amarela, a casa onde Camilo viveu e onde se suicidou. Do outro, branco, de linhas puras, o centro de estudos, projecto do arquitecto Álvaro Siza. Os estrangeiros que aparecem, de "roteiro Siza" na mão, à procura da obra, geralmente não fazem ideia de quem seja Camilo Castelo Branco. Mas, do outro lado, os portugueses que aparecem para ver onde viveu Camilo surpreendem-se por saber que há ali uma obra de Siza.

A ideia é que, entre uma e outra, São Miguel de Seide (era assim que Camilo escrevia, hoje escreve-se Ceide) se torne uma referência cultural na região. Daí as obras continuarem - num investimento total de cerca de cinco milhões de euros. O centro social ao lado da igreja, no mesmo largo, também foi desenhado por Siza, e o arranjo urbano é igualmente da responsabilidade do arquitecto. A "casa do Nuno", um dos filhos de Camilo, perto do centro de estudos, será a nova junta de freguesia. E por Siza ou por Camilo os visitantes virão - assim esperam todos.

Mas era preciso que o país ajudasse. José Manuel Oliveira, director do Centro de Estudos Camilianos, diz que quando o "Amor de Perdição" foi retirado dos programas escolares, em 2005, a Casa perdeu entre dez mil e 15 mil visitantes por ano. "E isto no mesmo ano em que se inaugura o Centro de Estudos!", indigna-se.

Foi preciso usar a imaginação. Tudo podem ser formas de entrar na obra do escritor. Por isso a Casa e o Centro desdobram-se em iniciativas: um torneio de jogos de damas e de gamão, apreciados na época de Camilo, passeios camilianos, leituras encenadas, visitas adaptadas às idades e aos públicos (a ideia é que venham aos três anos, voltem aos sete e continuem pela vida fora), comunidades de leitores (chamam-lhes "Noites de Insónia"), filmes. A Casa tem entre oito e nove mil visitantes por ano, o Centro, com mais actividades (tem um auditório e sala de exposições) entre os 18 e os 22 mil.

"Há muito poucos exemplos como este", diz José Manuel Oliveira. "De uma casa em que um escritor tenha vivido grande parte da sua vida, tenha escrito grande parte da sua obra, se tenha suicidado; uma casa que depois tenha ardido [no início do século XX] e tenha sido recuperada, que tenha sofrido intervenções várias até chegar a nós, ao século XXI".

Mais uma vez fazemo-nos à estrada. Próxima paragem, e última: Coimbra. Estacionamos à porta do Museu de Ciência, antigo Laboratório Chimico, criado no final do século XVIII pelo Marquês de Pombal. Do outro lado da rua, no edifício do Colégio de Jesus, que aguarda obras de remodelação (quem sabe se então se encontrará o Teatro Anatómico que se supõe que aqui existia?) -, nascerá o segundo núcleo do Museu da Ciência, integrando parte dos impressionantes espólios dos Gabinetes de Física e História Natural da Universidade.

Trata-se de um investimento - da universidade, com a Câmara - calculado entre os 15 e os 20 milhões de euros. Para valorizar colecções que, não se tem cansado de repetir o director do museu, Paulo Gama Mota, têm relevância mundial.

E assim, graças ao Marquês de Pombal e ao pescador que um dia encontrou uma ânfora em Portimão, aos amigos de Camilo e ao farmacêutico de Penafiel, aos chapeleiros de São João da Madeira e ao rio Arade, que guardou o passado para o devolver quando achou que, finalmente, lhe íamos dar atenção - graças à teimosia e à visão de todos eles parece que, afinal, não vamos perder a memória.

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