A casa onde Almada pintou o Amor

Paulo Cintra
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Paulo Cintra

A italiana Barbara Aniello apaixonou-se por uma casa de Lisboa com características "muito difíceis de encontrar" noutro lugar da Europa: tem painéis de azulejos de Almada Negreiros, e nasceu de um projecto de quatro amigos que nela quiseram materializar o mito de Psique e Eros - hoje, afirma Aniello, a casa está em risco

Há em Lisboa uma casa muito falada mas pouco conhecida. Chamam-lhe a Casa da Rua da Alcolena e por ela fizeram-se petições, lançaram-se apelos, indignaram-se estudiosos, arquitectos e simples cidadãos. A historiadora de arte e investigadora italiana Barbara Aniello veio para Portugal há cinco anos, apaixonou-se pela obra de Almada Negreiros, e pela Casa da Rua da Alcolena, situada no Restelo, em Lisboa. Escreveu um livro e espera que, se mais pessoas conhecerem a história desta casa, talvez ainda se possa salvar - possivelmente já não tudo, mas alguma coisa.

A casa, do arquitecto António Varela, tem estado em obras de ampliação que, segundo Barbara Aniello e vários especialistas, a descaracterizam de forma irrecuperável. E não apenas por causa dos painéis de azulejos de Almada terem sido, por agora, parcialmente retirados. A casa é uma "obra de arte total", afirma Barbara Aniello (que chegou a ela através do seu trabalho de pós-doutoramento O Diálogo Interartes no Século XX em Portugal, no qual Almada é uma figura incontornável). Tocar nela é destruir aquele que foi o sonho de quatro amigos.

"É difícil encontrar no âmbito europeu uma casa que reúna estas características", garante - e é isso que defende no e-book A Casa da Rua da Alcolena - História, Mistério, Símbolo, que escreveu a partir de uma investigação que foi possível por ter ganho o primeiro prémio de apoio à edição do Serviço de Belas- Artes da Fundação Gulbenkian, e que, por vicissitudes várias, só conseguiu até agora editar na Internet (http://casadaruadealcolena. blogspot.com).

Temos que recuar aos anos 50 para perceber como tudo começou. Para entrar no espírito do que foi este grupo de amigos o melhor será começar por uma imagem que Barbara Aniello reproduz no seu e-book e que mostra José Manuel Mota Gomes Fróis Ferrão, o proprietário da casa, sentado na biblioteca, com o seu cão, um fox terrier chamado Jagodes, ao colo. José Manuel, vestido de escuro, está sentado num sofá, em primeiro plano, e ao fundo vê-se o vitral Eros e Psique, da autoria de Almada, e que por razões técnicas terá sido retirado logo nos primeiros anos de existência da casa (pertence hoje ao Museu da Assembleia da República).

"Era aqui que José Manuel se reunia com os seus amigos eleitos, os colaboradores da revista Eros, que ele escreveu e editou precisamente nos anos em que a casa era concebida", explica a investigadora, que ouviu algumas das memórias ligadas à Rua da Alcolena da filha do proprietário, Madalena Ferrão. É nessa representação de Eros e Psique do vitral de Almada que está, segundo Barbara Aniello, a chave para compreender toda a casa. Esta é "um conjunto de poesia, porque José Manuel era poeta, de pintura de Almada, escultura de António Paiva e arquitectura de António Varela". Até o jardim faz parte do projecto cúmplice dos quatro amigos. "O jardim, com as suas plantas, foi pensado a partir de uma ideia unitária: o mito de Eros e Psique. Toda a casa conta as metamorfoses de Psique à procura de Eros."

A investigadora teve acesso a uma planta autografada de António Varela, que estava no espólio de Madalena Ferrão, e na qual ele "não só desenha o alçado, mas põe os nomes das plantas que iam decorar o jardim, segundo um circuito bem definido". Na leitura que Barbara faz, "Psique parte da dúvida, representada pelos oleandros, uma planta considerada venenosa desde a antiguidade que, por isso, está associada à dúvida". A bela filha do rei grego que acreditava estar casada com um monstro, e não sabia que o amante era o próprio Eros, não podia ver o rosto do marido. "Duvida se o ser que está amando é um monstro ou não porque não o pode ver, essa é a condição [para estarem juntos]."

Obra de arte total

Havia ciprestes em dois pontos do percurso - relacionados com a morte e a imortalidade, os ciprestes marcam também momentos do percurso de Psique, que, depois de trair Eros, vendo-lhe o rosto, passa por uma série de provações até poder regressar novamente aos braços do amado. São estes, e ainda o alecrim-do-norte (a memória do amado), a magnólia (perseverança), e outras plantas que, ao longo do tempo, foram desaparecendo e que a investigadora defende que deviam ser "replantadas de acordo com o plano original".

Mas de onde veio a ideia de José Manuel de fazer da casa uma "obra de arte total"? Barbara acredita que o ponto de partida possa ter sido um texto do filósofo luso-brasileiro Eudoro de Sousa chamado precisamente O Mito de Psique - Quem Vê Deus Morre, e que é dedicado a Almada Negreiros. "O texto é de 1949, a casa foi feita entre 1951 e 55, e é quase uma transposição literária, filosófica, figurativa e arquitectónica dessa leitura do mito feita por Eudoro de Sousa."

Na altura, José Manuel, o dono da casa, tinha apenas 25 anos, e, segundo contou Madalena Ferrão a Barbara Aniello, "era fascinado" por Almada, que tinha então já 58. "Estranho proprietário este, homem de fortuna, vivendo com sua mãe, amigo do seu arquitecto e do seu escultor, e de Almada, em grandes frequências, autor de dez livros de poemas, entre 1944 e 1964, de limitadas tiragens e que se perderam bibliograficamente, sem registos de história ou de crítica que ao autor eram certamente indiferentes...", escreve José-Augusto França, descrevendo José Manuel, no prefácio que faz ao livro de Barbara Aniello. E prossegue: "Poeta precioso, num simbolismo esotérico, José Manuel (como assinava) dirigiu, ao mesmo tempo que fazia a sua casa, entre 1951 e 1958, quinze números de uma revista de pouco público também, Eros - que eu fui lendo na altura...".

Segundo Barbara, é Almada "o motor" do projecto, e é provável que tenha sido ele também a influenciar Varela, o arquitecto, na altura com 48 anos. Mas Varela estaria já predisposto a um projecto deste tipo. O investigador Hugo Nazareth Fernandes, que tem estudado a obra do arquitecto, dedicou uma monografia à "família simbólica das arquitecturas de Varela", explica Barbara, e a casa da Rua da Alcolena "é a última destas obras, pertence à caixa fechada das casas simbólicas".

1+1=1

A biblioteca era o centro. A investigadora nunca conseguiu visitar a casa por dentro, mas ouviu as descrições da filha de José Manuel e conhece-a pelas imagens que o fotógrafo Paulo Cintra fez do interior antes de ela ter sido vendida ao actual proprietário. No exterior dessa biblioteca, azulejos geométricos feitos por Almada desdobram-se por duas paredes como se fossem um livro aberto. E no interior, nas paredes negras, surgia, desenhada a branco, uma estrela de cinco pontas.

Os onze painéis de azulejos em vários pontos exteriores da casa, todos eles de Almada, repetem o tema de Eros e Psique, do amor sob diferentes formas: Columbina e Arlequim, Maternidade e Paternidade, um par de circo, outro dançante, outro ainda, enlaçado, num barco chamado Eros. Primeiro separados, depois unidos. É a busca da unidade, numa soma mais fi losófi ca do que aritmética. "O casal, diz Almada, resolve-se numa equação impossível: 1+1=1. O que é matematicamente absurdo é filosoficamente exacto e rigoroso."

O que Barbara Aniello lamenta profundamente é que essa unidade que terá feito parte do projecto dos quatro amigos para a casa da Rua de Alcolena se perca com as obras que estão em curso desde Março. Apesar de os protestos públicos - denúncias dos herdeiros de Almada, da vereadora Helena Roseta e do presidente da Ordem dos Arquitectos, João Rodeia, recolha de assinaturas, petição à Câmara Municipal de Lisboa - terem permitido travar os planos para a demolição da casa (que tinham dado entrada na CML em Janeiro de 2009) e de a retirada dos painéis de azulejos ter sido embargada, a investigadora considera que o anexo que está a ser construído (um projecto do atelier do arquitecto Vasco Massapina) constitui um "horrível compromisso".

A nova construção "não só anula a continuidade do jardim simbólico como apaga o calçado sudeste da casa, cancelando a sua perspectiva geométrica, o seu valor cúbico, a sua orientação metafórica" (virada a sudoeste, orientação "mítica e simbólica, que tem a ver com o Quinto Império e o destino mítico de Portugal").

Alguns dos azulejos de Almada que já tinham sido retirados estão à guarda do Museu da Cidade e deverão ser repostos - em frente da casa um grande cartaz anuncia que o projecto prevê "a reintegração e restauro dos painéis de Almada". "Mas não é sufi ciente", diz Barbara Aniello. O actual projecto de arquitectura "destrói completamente parte do jardim, o circuito mítico, o alçado sudoeste onde estão os azulejos, porque estes ficam em continuidade com uma casa que não tem nada a ver com o espírito modernista do edifício de Varela."

O que a investigadora gostaria de ver nascer na Rua de Alcolena era um Centro de Estudos Permanente do Modernismo Português e de Almada Negreiros. Mas neste momento o sonho de José Manuel e dos amigos parece mais próximo dos versos escritos nos anos 50 por Fernando Guimarães num dos números da fugaz revista Eros: "Assim vais tu morrendo, lentamente,/
Na incerta imagem de um vitral antigo/ Iluminado pelo sol poente...".