A "lost highway" para a Rússia profunda: "My Joy" é a surpresa da competição de Cannes

"My joy"
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"My joy" DR

É um mergulho nas profundezas da História, da mentalidade e da sociedade russas. E nada é aleatório. Ou não tenha Loznitsa formação em Matemática

Isto podia ter saído de um filme de Lynch, súmula de um estado "Lost Highway", por exemplo:

- Para onde nos leva esta estrada...

- Não é uma estrada, é uma direcção

- Em direcção a...

- Sítio nenhum

Não será só o diálogo, também o pesadelo, as estradas perdidas, a brutalidade, a noite e a perda de memória, e o espectador metido neste beco sem saída. Mas "My Joy" não é Lynch. Nem sequer é um filme americano. É uma produção da Ucrânia, realizada pelo bielorrusso Sergei Loznitsa, e é para já a surpresa da competição do Festival de Cannes. Na verdade, nem sequer trabalha o onirismo, por isso esqueçam David Lynch. Embora seja um verdadeiro pesadelo. A realidade é que é brutal. Sergei Loznitsa tem percurso de documentarista, estreando-se agora na ficção - por isso, o filme, para além de concorrer ao Palmarés oficial, é também candidato ao prémio para as primeiras obras, a Câmara de Ouro. Se lhe for parar às mãos, não é exotismo nenhum...

Desde 1997 a documentar a Rússia profunda, Sergei foi coleccionando histórias, daquelas que alguém, sem razão aparente e aproximando-se não se sabe de onde, conta. Antes de desaparecer para o sítio de onde veio.

O que Loznitsa faz com essas histórias, o mergulho nas profundezas da História, da mentalidade e da sociedade russas ("My Joy" foi rodado na Ucrânia apenas por questões de financiamento), não é o que se espera. Atreve-se, por exemplo, a começar como umroad movie - um camionista inicia o seu dia de trabalho, fazendo as suas entregas -, de seguida, sem que nada avise, mergulha no filme de época, enviando o espectador por flashback para a II Guerra, porque entretanto o camionista encontrou um idoso, a quem dá boleia, que lhe conta um episódio do seu passado.

Outros flashbacks acontecerão, e o espectador que sofre um abanão com estas passagens vai sentir que nada disto é aleatório (até porque Loznitsa tem formação em Matemática...) e o passado e o presente estão ligados pela mesma "estrutura mental" (palavras do realizador), a mesma brutalidade. Como o camionista vai saber, quando entrar pela sua lost highway, embora não fique em boas condições de consciência...

Um filme sobre a Rússia, filmado na Ucrânia, "My Joy" também é um bocado romeno. Alguns dos seus actores e o director de fotografia, Oleg Mutu, estão ligados à obra de Cristi Puiu ("A Morte do Senhor Lazarescu") e Cristian Mungiu ("4 Meses, 3 Semanas e 2 Meses", Palma de Ouro em Cannes em 2006). Isto é importante para se perceber a textura rugosa, agreste, do realismo de "My Joy". E como isso é o passaporte para a alucinação.

O Iraque em Liverpool

Entre a realidade e a evasão está a personagem, uma avó, de "Poetry", do coreano Lee Changdong. Belíssimo retrato de senhora com Alzheimer em fundo, pode, à partida, confundir-se com "Mother", de Bong Joon-ho, neste momento nas salas portuguesas: uma mãe, no filme de Bong Joon-ho, uma avó, no filme de Lee Changdong, tentam salvar o filho e o neto, respectivamente, das consequências de um crime. Mas nada a ver, para além disso.

Esta avó, figura de uma elegância etérea, de outro mundo, não partilha a obsessão guerreira da mãe de "Mother", é uma figura em fuga, a evadir-se - o Alzheimer e o interesse por poesia sinalizam-no. Depois, Lee Changdong ("Peppermint Candy", "Oasis" ou "Secret Sunshine", prémio de interpretação feminina em Cannes em 2007) não corre nos filmes atrás dos géneros, como outros seus vorazes compatriotas. É delicado a estabelecer o background de uma personagem, esta maravilhosa avó e maravilhosa actriz, uma histórica do cinema coreano, Yun Junghee, que bem mereceria um prémio de interpretação.

À última hora entrou para o concurso o habitué Ken Loach, Palma de Ouro em 2006 com "Brisa de Mudança" e duas vezes Prémio do Júri: em 1990 ("Hidden Agenda") e em 1993 ("Raining Stones").

Loach é sempre um bocado mais do mesmo. Pode-se gostar da ferocidade e instinto de sobrevivência das personagens, e ao mesmo tempo desconsiderar a previsibilidade de relojoaria dos filmes.

Com "Route Irish", Loach vai à guerra no Iraque sem sair de Liverpool. É aqui que as personagens investigam uma morte, ocorrida na estrada que liga o aeroporto de Bagdad à cidade, de um "contratado" para a guerra- de um funcionário da empresa chamada guerra. Mas teria sido na intensidade do que se passa em Liverpool, mais do que na denúncia da imoralidade do que se passa no Iraque, que Loach ganharia o seu filme

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