Declarações a bordo do avião

Bento XVI fala de pedofilia e diz que maior perseguição "nasce do pecado da Igreja"

O Papa demarca-se da tese da campanha organizada contra a Igreja Católica
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O Papa demarca-se da tese da campanha organizada contra a Igreja Católica Stefano Rellandini/Reuters

O Papa Bento XVI disse esta manhã, a bordo do avião que o trouxe a Lisboa, que o grande sofrimento da Igreja é o seu “pecado”, referindo-se aos casos de pedofilia de membros do clero. E acrescentou que a “maior perseguição à Igreja” não vem de “inimigos de fora, mas nasce do pecado da Igreja”.

Esta afirmação marca uma clara diferença com afirmações de vários cardeais e outros responsáveis da Cúria, que, sobretudo na altura da Páscoa, consideraram que as denúncias de abusos reflectiam uma campanha organizada contra a Igreja. O cardeal português Saraiva Martins, que acompanha o Papa na sua viagem de quatro dias a Portugal, disse mesmo que a Igreja deveria fazer como as famílias, não lavando a “roupa suja” em público.

“Os ataques contra a Igreja e o Papa não vêm apenas do exterior, os sofrimentos vêm do interior da Igreja, do pecado que existe na Igreja”, disse Bento XVI, citado pelas agências AFP e Lusa.

A Igreja Católica, acrescentou ainda durante o voo de pouco menos de três horas que o trouxe de Roma, tem uma “profunda necessidade” de “aprender o perdão e a necessidade da justiça”. O perdão não substitui a justiça, acrescentou, referindo-se aos autores de crimes pedófilos e às suas vítimas.

Papa falou da crise económica

No avião, respondendo a algumas perguntas de jornalistas, o Papa falou ainda da crise económica: “Vemos agora que um puro pragmatismo económico que se abstrai da realidade do homem” e da sua dimensão ética “não dá resultados positivos mas cria problemas insolúveis”.

Chegou o momento, acrescentou ainda Bento XVI, de ”dizer que a ética não é uma coisa exterior mas interior ao racionalismo e ao pragmatismo económico”.

Também nesta matéria há lugar para um mea culpa da Igreja: “Devemos confessar que a Igreja, a fé cristã, muitas vezes abandonou as realidades concretas e económicas”, sem “ver que o tema “implica uma responsabilidade de todos”.