Redescobrir a rainha de Steffani no S. Carlos

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Fascinado pela ideia de recompor óperas barrocas esquecidas, o maestro Thomas Hengelbrock levou o encenador Lukas Hemleb a embarcar na aventura de divulgar essas obras quase desconhecidas, através da sua recriação e encenação a partir de fragmentos de partituras encontradas em bibliotecas e arquivos de música italianos.

Começaram por fazê-lo com partituras do compositor Alessandro Scarlatti e depois passaram a um seu contemporâneo, o também italiano Agostino Steffani (1654-1728). E contam fazê-lo com outros.

A ópera em três actos Niobe, Rainha de Tebas, de Steffani, que se estreia hoje às 20h, no Teatro Nacional de S. Carlos (TNSC), em Lisboa (repete-se a 27, 28, 30, 31 e 5 de Abril), é o exemplo mais recente desse trabalho dos dois alemães e resulta de uma co-produção do TNSC e do Festival de Schwetzinger (Alemanha). A ópera de Steffani - pela primeira vez vista em 1688 - continuará o seu caminho com uma produção em Londres (Setembro) e no Luxemburgo (Dezembro).

Como num espelho

A ideia de recompor uma versão de Niobe foi completada com uma outra "que fosse o espelho da primeira", explica ao P2 Lukas Hemleb. Assim, antes desta ópera barroca em três actos, encenada por Hemleb, o S. Carlos mostra em estreia mundial Hybris, um drama para vozes da compositora romena Adriana Hölsky, uma peça de 20 minutos.

Para o espectáculo agora apresentado em Lisboa, o encenador manteve três solistas, homens, da versão da ópera apresentada em Schwetzinger: os dois contratenores (o francês Pascal Bertin e o suíço Peter Kennel) e um sopranista (o polaco Jacek Laszczkowski). A razão é simples: tanto os contratenores como os sopranistas, que actualmente substituem os castrati que cantavam nas óperas barrocas, são "raros de encontrar", não estando essa tradição tão desenvolvida como na Alemanha. A maior parte dos contratenores, que conseguem emitir sons agudos através da técnica do falsete, possuem uma tessitura equiparável ao registo de contralto. Nos casos mais raros, como o de Jacek Laszczkowski, em que atingem o registo agudo (equivalente ao soprano feminino) são normalmente designados como sopranistas.

A voz límpida de soprano confere uma dimensão divina ao rei Anfione. E essa é a intenção original da peça, cujo libreto de Luigi Orlandi se inspira nas Metamorfoses de Ovídio.

Na mitologia, Anfione é um dos representantes do poder da música. Na perspectiva de uma guerra com o reino da Tessália, o seu canto ajuda a erguer os muros em defesa de Tebas, naquilo que é por ele visto como um sinal da sua divindade e que vai ao encontro da sua aspiração "de se desfazer da banalidade da vida quotidiana do reino, elevar-se aos céus e chegar mais perto das esferas espirituais", diz Lukas Hemleb.

Transformada em rocha

Na mitologia, a sua mulher, Niobe (a soprano Alexandra Coku), insurge-se quando o povo de Tebas se reúne para prestar homenagem a Leto (mãe de Apolo e Diana). A ousadia de Niobe em considerar-se mais abençoada do que Leto por ter sete filhos vira-se contra ela quando Leto clama vingança. Os filhos de Leto matam, com flechas, os sete filhos de Niobe, que para não sentir dor se transforma em rocha.

O libreto desta ópera não trata, porém, apenas o mito tal como é contado em Ovídio. A ele juntam-se um contexto político e amoroso e outras narrativas: a história de um amor antigo entre Niobe e Clearte; uma intriga política protagonizada por Polifemo e Creonte com a legitimidade de Anfione a ser posta em causa; e a história em que Tirésias surge como um sacerdote cego, que encarna o culto convencional da adoração dos deuses e que Niobe questiona.

Mas Anfione também é uma personagem forte. As árias que o põem no centro do palco são para Hemleb exemplo do "grande talento" de Steffani: "Ele interessou-se muito pela divindade de Anfione e para isso escreveu uma música totalmente extraordinária, que ninguém da época, nem de hoje, estava e está habituado a ouvir."

O encenador elege, por outro lado, a ária final em que Niobe, perante a morte de todos os filhos e de Anfione, se transforma em rocha, esmagada pelo luto, como sendo aquela que melhor exemplifica a habilidade de Steffani para romper com as convenções barrocas da época.

A acompanhar "os dois seres que deixam literalmente de viver, temos uma música que morre de uma maneira totalmente assustadora e ao mesmo tempo trabalhada com toda a fineza".

É essa capacidade de Steffani - um músico cujas melodias foram retomadas mais tarde em produções de Handel, sendo a tradução das suas obras sacras utilizada na liturgia anglicana - em "escrever uma música totalmente ancorada nos estados físicos das personagens" que fascinou Hemleb.