José Carlos Barros: O mundo rural é uma árvore doente

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"O Prazer e o Tédio" começou como folhetim no blogue Casa de Cacela e acabou em livro. José Carlos Barros, arquitecto paisagista, reflecte sobre a intervenção estatal no mundo rural e sobre a escrita no mundo da Internet.

Estamos à porta do grande auditório da Gulbenkian, em Lisboa. José Carlos Barros chega de uma viagem de mais de 300 quilómetros. Não de Trás-os-Montes, onde nasceu, mas de Vila Nova de Cacela, Algarve, onde vive há muito. O arquitecto paisagista de 46 anos sente-se bem no meio do verde, comenta o jardim, fuma um cigarro.
"O Prazer e o Tédio" (Oficina do Livro), a primeira incursão de fôlego na prosa por parte deste poeta premiado (também vice-presidente da Câmara de Vila Real de Santo António) é um livro surpreendente. Parte de Aline, uma mulher contemporânea e carnal, que demorou a compreender "a diferença entre o prazer e o sexo, a pele e o corpo". E de uma região, Trás-os-Montes, aqui concentrada na força de uma vila e de uma casa que, como em "Cem Anos de Solidão", atravessa gerações. Como em "O Delfim", de Cardoso Pires, temos um engenheiro e longas descrições do território, fruto de um conhecimento profundo da região e de "uma deformação profissional". Mas o que está no subtexto desta história com contornos fantásticos, que recua até 1921, é a degradação da paisagem, o abandono do interior do país e a "impossibilidade da narrativa", de qualquer narrativa. O resultado é um texto quase inclassificável, escrito aos solavancos num blogue (casa-de-cacela.blogspot.com) e seguido por leitores desde o começo.

José Carlos Barros trabalhou em cada fragmento partindo do anterior, teve em atenção as opiniões dos que o liam, escreveu atendendo às reacções. E fez regressar o folhetim, género por muitos anos cultivado na imprensa portuguesa, agora via Internet, para nos dizer aquilo que já sabíamos: "Sei lá que lhe diga. A vida é o caralho." (p.27)

Antes do livro, criou um blogue onde foi escrevendo textos com regularidade. Porquê?

Escrevi seis ou sete textos sem a menor ideia de que se tornariam uma coisa de maior fôlego. Eram à volta de uma mulher chamada Aline, pequenas reflexões sobre o prazer, a melancolia. Os blogues têm esta coisa engraçada da comunicação e comecei a receber e comentários e emails a perguntarem: "Isto é uma história ou não?" Eu próprio fui confrontado com essa interrogação e continuei a escrever já com a ideia de procurar o fio narrativo. Este texto foi escrito com a ideia antiga dos folhetins - não tinha um plano e procurava, depois de cada fragmento, o que iria acontecer a seguir.

Escreveu "O Prazer e o Tédio" em 11 meses. Impôs-se mesmo alguma disciplina?

À noite, em vez de ver televisão, ia para o computador e escrevia mais uma entrada. Como se fosse uma entrada de blogue mas com a preocupação de procurar esse fio narrativo. Muitos textos foram escritos em toalhas de papel de restaurantes, alguns directamente no editor do blogue. Nunca são versões muito acabadas. Às vezes fico insatisfeito com o resultado do que acabo de escrever, mas é quase como se tivesse um compromisso com os 10 ou 15 leitores que vão seguindo o blogue.

Como funciona essa interacção? 

Alguns dão-me sugestões para a continuação da história, que às vezes aceito. Certas entradas foram escritas como respostas a provocações de leitores, uma ou outra até como resposta a comentários que ficaram na caixa do blogue.

No livro, há um território real mas não é nomeado...

O livro passa-se em Trás-os-Montes, que chegou a ter a maior mancha contínua de pinheiro bravo da Europa. Em finais do século XIX começam as primeiras experiências de plantação, uma intervenção do Estado no mundo rural. Depois, um plano do Estado Novo recupera a plantação do pinheiro, alterando a paisagem e os modos de vida de uma maneira muito negativa. Há, ao longo do livro, um lamento sobre a intervenção da administração central nestes territórios, que parece sempre baseada em princípios do bem comum mas que é prejudicial para quem lá está. Isto desemboca na última intromissão do Estado: ir lá dar cabo dos recursos endógenos, mais uma vez em favor do "bem comum". Falo do actual programa nacional de barragens com elevado potencial hidroeléctrico, um nome fabuloso.

A sua relação com essa ruralidade é forte. Mal chegou disse que os jardins são sempre agradáveis para qualquer rural. É uma causa?

Estava aqui a ver [tira uma pequena folha de árvore da mala] que a árvore junto à qual estive a fumar um cigarro é um negrilho. No livro o negrilho, ou ulmeiro, é uma metáfora muito forte. Há uma doença que está a afectar esta espécie há alguns anos, uma das árvores mais imponentes deste território ficou doente. Isto serve de metáfora do mundo rural, que é como uma árvore doente, ao abandono. Mas este livro não é um elogio do mundo rural e de qualquer superioridade relativamente ao urbano, até porque há uma interdependência entre ambos.

O livro arranca em tom quase ensaístico. Mas a dada altura há uma referência aos romances sul-americanos e entramos noutro registo. É propositado?

Senti-me sempre como um primeiro leitor e essas reflexões, do género "isto já parece um romance sul-americano", resultam de às tantas olhar para o que estava a escrever e me intrometer, alertando: "Cuidado que isto não vai por bom caminho." Em vez de corrigir aquilo que por vezes me parecia descuido ou desatenção, o próprio leitor que eu era chamava a atenção do autor.

Há  elementos, como a casa da família, que fazem lembrar "Cem Anos de Solidão". E, noutro sentido, descrições que remetem para "O Delfim". Que cruzamento de géneros é este?

Li ambos os livros. De propositado não há nada, mas Macondo é um lugar mágico onde todas as coisas parecem possíveis e desse ponto de vista o território de que falo tem muitas semelhanças. A casa é verdadeira, conheço-a desde a infância, ainda com pessoas dentro. Agora vi-a já em ruínas, como no livro. É uma metáfora da passagem do tempo, que funciona como material romanesco interessante: imaginarmos o que nela se passou, a vida que teve. E essa casa vai mesmo ficar submersa. Só antecipo a realidade, até porque este deve ser o primeiro livro sobre o plano das barragens com elevado potencial hidroeléctrico (risos).
Quanto a "O Delfim", a escrita do José Cardoso Pires é das que mais aprecio e tenho-o na conta dos grandes livros da literatura portuguesa do século XX. Desse ponto de vista, se me disserem que há coisas que se parecem no meu livro, fico muito orgulhoso.

Nota-se uma preocupação intensa com a linguagem e o uso de recursos menos comuns como a repetição, levada ao extremo num dos capítulos. Tentou criar um novo estilo?

Ficaria muito contente se algumas pessoas sentissem isso. Têm-me dito que ao nível da linguagem há qualquer coisa de novo. Agrada-me imaginar que sim, porque se isso acontece é porque ela está muito próxima das coisas que narra. Posso afastar leitores quando escrevo palavras ou frases que não são habituais. Algumas palavras não as encontrei no dicionário, para grande desespero meu. Há quem diga que deveria ter uma espécie de glossário.

São palavras usadas em Trás-os-Montes?

Sim, palavras e expressões, como "águas sesserigas", que está logo na primeira página. As águas sesserigas são águas que vão alimentar os moinhos e desde criança que ouvia um tio falar disto. Talvez seja importante acrescentar que algumas destas histórias nascem da leitura de um jornal local que foi publicado no primeiro quartel do século XX.

Que jornal?

"Echos de Boticas".

Procurou-o propositadamente?

Veio parar-me às mãos em fotocópias e vi ali coisas que me levaram a usá-lo. Conta histórias das primeiras experiências com o pinheiro bravo e serviu de clique para escrever sobre isso.

Tem outro projecto em andamento no blogue. Qual foi o clique desta vez?
Gostaria de falar novamente sobre a passagem do tempo. Do real só me interessa o ponto de partida: uma daquelas coisas muito rurais, em que alguém mata alguém e o filho do assassino se vai apresentar às autoridades para que o pai não seja preso. Interessa-me perceber o que acontece a uma pessoa que tem 20 anos e, por uma coisa de que não é responsável, altera totalmente o curso da sua vida. Mas não estou a escrever um livro, estou a escrever entradas num blogue...

Que poderão vir a dar um livro.

Com uma estrutura narrativa que poderá dar ou não um livro, mas sem obsessões. Nem no primeiro caso tinha essa intenção. Uma amiga gostou muito dos textos e pediu-me para os enviar a editores. Rapidamente apareceu a Oficina do Livro a contratar-me. Foi uma grande surpresa, ainda por cima através do [editor] Marcelo Teixeira, que teve uma boa intervenção no livro. Falou-me das fragilidades do texto, deu-me tempo para fazer correcções.

Trabalhou então sobre o que já tinha escrito?

Sim, embora não fosse um trabalho profundo. No essencial o que está no livro é o que fui escrevendo, mas alterei algumas coisas. O editor desafiou-me a começá-lo de forma diferente e acabou por ser um processo interessante.

O seu percurso está  mais ligado à poesia, venceu o prémio Sebastião da Gama este ano com "Os Sete Epígonos de Tebas". É mais poeta do que prosador?

A poesia permite a indisciplina que a prosa não permite, e julgo que a escrevi sempre com vontade de contar histórias. Pode-se escrever um poema praticamente em qualquer altura ou estar uns tempos sem escrever e essa é uma grande diferença em relação à prosa.

E o folhetim, é um género que aprecia enquanto leitor?

Apesar de já ter uma certa idade não sou da época dos folhetins. Curiosamente, o Francisco [José Viegas], que assina o prefácio, diz que ele próprio escreveu folhetins e eu li-os. Só que esta ideia não veio tanto do contacto com o género mas de uma coisa do nosso tempo que é a Internet. Acabei por escrever num blogue como se escrevia antigamente nos jornais.

O Francisco José Viegas compara-o a alguns autores consagrados.

Sobre isso custa-me falar. Acho curioso que refira o Camilo [Castelo Branco], o meu escritor preferido, um contador de histórias fabuloso. Fala do Machado de Assis, que me agrada imenso, e de um nome que hoje é capaz de ser desconhecido, o João de Araújo Correia, um dos meus heróis literários do fim da infância.

Paremos no Camilo, que teve de escrever àquele ritmo que sabemos. Isto terá algo que ver com o seu compromisso de chegar ao blogue e sentir a mesma urgência?

O Camilo escrevia contra o tempo por razões de sobrevivência. Eu não estava a escrever contra o editor, mas o facto de ser seguido por leitores dava-me uma certa responsabilidade. Tive períodos em que não tinha tempo e mesmo assim sentia a obrigação de escrever, como se tivesse estabelecido um acordo. Nunca tinha pensado nisso mas, salvaguardadas as distâncias, estava a escrever um bocadinho como o Camilo. Não pelas mesmas razões, mas também pela necessidade de dar resposta a pessoas que estavam à espera de histórias.