Relatório sobre abusos em Dublin descrito como “catálogo de actos maléficos”

Líderes católicos fecharam olhos a abusos de padres irlandeses

O ministro da Justiça irlandês disse sentir “repugnância e cólera”
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O ministro da Justiça irlandês disse sentir “repugnância e cólera” Cathal McNaughton/Reuters

A hierarquia católica de Dublin fechou “obsessivamente” os olhos a abusos de padres sobre crianças, durante décadas, pelo menos até meados dos anos 1990, e praticou uma política de silêncio. A conclusão é de um relatório divulgad hoje, que acusa de encobrimento os arcebispos John Charles McQuaid, Dermot Ryan, Kevin McNamara e Desmond Connell, líderes da arquidiocese entre 1940 e 2004.

“Todos os arcebispos de Dublin no período abrangido pela comissão estavam conscientes das queixas. Isto é também verdade para muitos dos bispos auxiliares”, refere o relatório de uma comissão liderada pela juíza Yvonne Murphy, criada para avaliar não só a forma como a Igreja, mas também o Estado, lidaram com as denúncias de abusos de crianças.

A comissão considera a expressão norte-americana "don’t ask, don’t tell" (Não perguntes, não digas nada) como a mais adequada para descrever a atitude da hierarquia da arquidiocese. Os relatos das agências e da imprensa britânica indicam que os quatro arcebispos são acusados de “não terem dito à Gardai [polícia], que estavam ao corrente de abusos sexuais a crianças” cometidos a partir dos anos de 1960. A investigação incidiu no período entre 1975 e 2004, mas reuniu dados que não se limitam a essa fase.

“A preocupação do arcebispado de Dublin na gestão dos casos de abusos sexuais sobre as crianças, pelo menos até meados dos anos 1990, foi guardar segredo, evitar o escândalo, proteger a reputação da Igreja e preservar os seus bens”, sublinha o relatório, divulgados seis meses depois de os resultados de uma outra investigação, o relatório Ryan, ter horrorizado a Irlanda, ao revelar que desde 1930, e ao longo de 60 anos, mais de duas mil crianças sofreram violações em instituições dirigidas pela Igreja.

Dos líderes da arquidiocese acusados de encobrimento, só o cardeal Desmond Connell, antigo chefe da Igreja irlandesa e arcebispo de Dublin entre 1988 e 2004, que estava em funções quando os primeiros casos foram tornados públicos, nos anos 1990, está vivo. Depois de ter seguido a política dos antecessores e optar por inquéritos internos, Connell forneceu em 1995 o nome de 17 padres suspeitos às autoridades, mas opôs-se mais tarde, sem êxito, à entrega de arquivos eclesiásticos à Justiça, recordou a BBC.

A comissão Murphy – cujo relatório, de mais de 700 páginas, assenta numa amostra dos casos de 46 dos 102 padres que, segundo o jornal Irish Times, são visados por 320 queixas – não teve dúvidas em concluir que os abusos “foram dissimulados pelo arcebispado e as outras autoridades eclesiásticas”.

“Repugnância e cólera”

Mas o Estado também não sai bem na fotografia. “As autoridades facilitaram o encobrimento ao não cumprirem as suas responsabilidades” e “o bem-estar das crianças, que devia ter sido a primeira prioridade, não foi sequer, no início, um factor tomado em consideração”. “Infelizmente, pode ter sido o importante papel que a Igreja desempenhou na vida irlandesa a razão pela qual os abusos de uma minoria dos seus membros ficaram impunes”, refere também o relatório, que denuncia o facto de a polícia ter demorado 20 anos a apresentar acusações contra um sacerdote.

Consciente de que as autoridades não cumpriram o seu papel, o ministro da Justiça, Dermot Ahern, lamentou o facto. “Quaisquer que tenham sido as razões históricas e sociais, o Governo, em nome do Estado, pede desculpas, sem reservas ou equívocos, pelas falhas”, disse.

O ministro, que exprimiu sentimentos de “repugnância e cólera”, referiu-se à “ironia cruel de uma Igreja que, motivada em parte pelo desejo de evitar o escândalo, de facto criou um outro, de uma incrível amplitude”. E classificou o relatório como um “catálogo de actos maléficos cometidos em nome do que era considerado como o bem comum”.

Algumas situações relatadas pela comissão Murphy são de gravidade semelhante a outras do relatório Ryan. É o caso de “um padre que confessou ter molestado sexualmente mais de cem crianças” e de outro que reconheceu ter abusado de menores “uma vez todas as duas semanas, durante o seu ministério, que se prolongou por mais de 25 anos”.

A primeira reacção da Igreja veio do actual arcebispo de Dublin, Diarmuid Martin, sucessor de Desmond Connell, que depois de entrar em funções desencadeou um inquérito interno e, há cerca de um ano, revelou que mais de 150 padres foram interrogados por alegações de abusos sexuais. Hoje, apresentou as suas “desculpas [e manifestou] tristeza e vergonha”.

Segundo a AFP, a justiça condenou já oito padres de Dublin, está a julgar três e estão em curso acções contra outros 35. A ordem dos Irmãos Cristãos, a mais visada pelo relatório divulgado há seis meses, dispôs-se entretanto a pagar 161 milhões de euros de indemnização às vítimas.

Abusos de sacerdotes sobre crianças têm sido noticiados também noutros países e abalaram a Igreja norte-americana. O Papa Bento XVI defendeu que os abusadores devem responder perante a Justiça e no ano passado, durante a sua visita aos EUA, encontrou-se com vítimas.