Já há cursos em videojogos, falta mão-de-obra especializada

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Mariana Cardoso diz que se contratam pessoas sem formação na área Shamila Mussá

Em 2006, uma empresa portuguesa chamada Move Interactive levou um trailer à maior feira internacional de jogos do mundo, a E3, em Los Angeles. Ugo Volt era um título de acção, com sofisticados gráficos tridimensionais e que se desenrolava numa Lisboa pós-apocalíptica. “O feedback foi estrondoso”, lembra Roberto Varela, fundador da Move.
Por essa altura, o jogo também fazia as delícias dos media portugueses.

A empresa tinha angariado quase 600 mil euros numa primeira ronda de investimento. A dada altura, a Move empregava 14 pessoas. Mas o jogo nunca chegou a ser produzido. O principal problema, recorda Varela, foram dois milhões e 200 mil euros a menos. Era esse o valor que a empresa queria obter numa segunda ronda de investimento para produzir o jogo Ugo Volt. Mas os fundos (nomeadamente aqueles que Varela esperava receber do Estado) nunca chegaram. O número de funcionários foi reduzido para seis e a Move foi até contratada pela SIC, para fazer um jogo baseado na Floribella, uma novela da estação de grande sucesso. “Foi só para fazer dinheiro”, avalia.

Sem capital e com uma equipa pequena, convencer as grandes editoras a apoiarem e comercializarem Ugo Volt foi impossível. Sobretudo porque Portugal é um país sem tradição a produzir videojogos. “Diziam-nos que o jogo era interessante, mas que a equipa reduzida não oferecia credibilidade, duvidavam que conseguíssemos reunir as pessoas necessárias num país sem historial e teríamos de importar muita mão-de-obra do estrangeiro”, explica o fundador e hoje o único funcionário da empresa.

A Move está agora num projecto de desenvolvimento de tecnologia com o Instituto Superior Técnico, da Universidade Técnica de Lisboa. Mas fazer jogos não está no horizonte de Ricardo Varela. Filipe Pina, da Seed Studios, resume o problema da falta de tradição: “É difícil negociar [com as editoras]. Não há histórico de fazer videojogos em Portugal, não há pessoas com know-how”.

Mariana Cardoso, da Gameinvest, diz que a solução é contratar pessoas sem conhecimentos específicos na área, mas que tenham “uma paixão por videojogos”. E Diogo Horta e Costa, fundador da Biodroid, uma outra empresa portuguesa, sublinha que “existem excelentes programadores [informáticos] em Portugal, mas não têm experiência a trabalhar com a complexidade técnica das consolas”.

Recentemente, abriram em Bragança e Barcelos cursos voltados para a produção de videojogos e alguns cursos de informática oferecem cadeiras opcionais nesta área. O mundo académico tem-se vindo a interessar pela área, nota o presidente da Associação Portuguesa de Ciências dos Videojogos e professor na Universidade do Minho, Nélson Zagalo. No final desta semana, por exemplo, a Universidade de Aveiro promove dois dias de conferências sobre o tema. Zagalo diz que ainda é cedo para avaliar o impacto dos cursos. “Esperamos que estes dois cursos possam colocar no mercado pessoas capazes de incitar e movimentar a indústria criando as suas próprias empresas”. E lembra que o sector não é só feito de grandes produções: “Existem muitas outras oportunidades, como a vaga que estamos a atravessar com os jogos sociais para o Facebook, que têm tido um sucesso enorme”.

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