Cinco perguntas a... Donal Mosher e Michael Palmieri

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Juntos, assinam "October Country", um dos grandes momentos da competição do DocLisboa

Michael Palmieri tem carreira na publicidade e nos telediscos, Donal Mosher é fotógrafo. Juntos, assinam "October Country", um dos grandes momentos da competição do DocLisboa, poderosíssimo e perturbante olhar sobre as disfunções de uma família de classe trabalhadora do Mohawk Valley, no estado de Nova Iorque, ao longo de um ano balizado pelo Halloween - a própria família de Mosher. "October Country" nasceu de um longo ensaio fotográfico (visível no website http://www.donalmosher.com/), transformado num retrato íntimo do que é pertencer às classes trabalhadoras americanas hoje. Em Lisboa para apresentarem o filme, Mosher e Palmieri não fugiram às perguntas difíceis.

Há momentos em que "October Country" recorda os "reality-shows". Onde é que está a fronteira entre o documentário e o "reality-show" e como é que evitaram atravessá-la?

Donal Mosher (DM) - Estávamos muito conscientes das imagens que a "reality-TV" dá da classe trabalhadora americana - gente pobre, mal amanhada, pouco articulada, que não sabe falar... A minha família não é nada assim. Sabem muito bem o que dizem e como o dizem. E essa era a questão principal: deixar que fossem eles a falar em vez de fazermos uma montagem exploradora. 

Michael Palmieri (MP) - Uma das chaves do filme é ser uma colaboração entre mim e o Donal e a família do Donal. Nunca teríamos mostrado nem uma imagem do filme se eles não tivessem dado o seu acordo. O filme dá-lhes voz, e espero que faça as pessoas pensar sobre o modo como o que vêem no écrã é diferente da imagem tradicional das classes trabalhadoras americanas. 

DM - E eles tinham direito ao "final cut". (risos)

MP - E, espantosamente, não pediram para tirarmos nada.

Foi difícil convencê-los a abrirem-se desta maneira face à câmara?

MP - Nada. Talvez por o Donal ter passado tanto tempo a fotografá-los, quando os fomos visitar pela primeira vez - eu ainda não os conhecia - ficámos lá seis dias e rodámos durante cinco desses seis dias.

DM - A minha irmã a princípio não quis, mas quando viu toda a gente a falar para a câmara não quis ficar de fora. (risos)

Donal, porque razão não aparece no filme?

DM -  Originalmente aparecia, mas a minha história não tinha o mesmo interesse. Eu estava de visita e tenho uma vida muito diferente deles - queríamos fazer um retrato de uma classe social à qual já não pertenço e a minha presença enfraquecia o filme.

MP - Estávamos interessados nas vidas destas pessoas e nos problemas reais que eles enfrentam no quotidiano. Mas é uma pergunta que muita gente nos põe. Há sempre qualquer coisa que fica de fora quando se quer contar uma história - e a presença do Donal não servia a história.

De onde surgiu a ideia do Halloween como âncora visual do filme, e a divisão do filme pelas estações do ano?

DM - O Halloween é uma festa muito importante para a América, especialmente naquela zona que é muito patriótica e tem muitos soldados no estrangeiro. Com o país em guerra, este é o único feriado onde isso pode ser extravasado, com bandeiras americanas e membros decepados lado a lado nas montras das lojas e nas janelas... É uma altura em que esse lado subterrâneo da cultura americana vem à superfície e pode ser vista. 

MP - Decidimos logo ao princípio que íamos filmar a família durante um ano apenas e depois parávamos, porque isso nos permitia desde logo impôr prioridades ao nosso trabalho, decidir o que queríamos fazer. E quando chegámos ao fim, todos sentimos que tínhamos acabado.

DM - E também sentimos isso no final de cada estação, tinha chegado um ponto em que estávamos todos exaustos, olhávamos todos para a câmara e dizíamos, "pronto, acabou por agora".

É um filme bastante americano, na medida em que as personagens nunca se deixam abater e recomeçam sempre...

DM - Como sou natural daquela zona, reconheço isso, mas não me consigo distanciar o suficiente para poder identificar isso como sendo especificamente americano.

MP - E isso acaba por ser um pouco comum às classes trabalhadoras um pouco por todo o mundo. Mostrei o filme há poucos dias na Rússia, e houve quem me viesse dizer "esta é a minha família"... E o filme tem sido recebido da mesma maneira em sítios muito diferentes. Independentemente de serem ou não de classe trabalhadora, muita gente se sente emocionada por esta situação; tem a ver com relações de família, problemas pessoais... Existe uma certa universalidade, por muito que não goste da palavra, que toca gente em todo o mundo.

DM  - Na Suiça, houve muita gente que nos veio dizer que as famílias deles também eram assim, só que nunca discutiam a questão. Descobrimos que o filme tem algo de catártico, que deixa as pessoas emocionadas. E isso faz-me pensar que fizemos algo de bom.

DOCLISBOA
Competição Internacional

October Country, de Michael Palmieri e Donal Mosher. Culturgest (Pequeno Auditório), quinta (22) às 16h15.