António Lobo Antunes descodificado

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Há mais livros que revelam o homem, o escritor, a obra - Lobo Antunes visto por Lobo Antunes ou por quem decidiu meter-se nesse labirinto

"[As entrevistas] são para mim a forma de interrogatório mais assustadora do mundo, por me enfiarem um gravador na boca e me ordenarem que possua ideias e opiniões gerais, que são coisas que nunca tive", lemos de António Lobo Antunes no seu "Livro de Crónicas" (Dom Quixote). Se a isto juntarmos o velho título de entrevistado difícil, não deixa de ser curioso encontrarmos tantos registos de encontros com o escritor.

Primeiro foram as "Conversas com Lobo Antunes" (Dom Quixote), publicadas em 2002 pela jornalista do "El País" María Luisa Blanco. No livro fala o autor e, coisa inédita, falam os seus pais. "A vida é curta para ler o António. Eu já não tenho paciência. É complicado de ler. Gosto muito dos seus primeiros livros, têm coisas extraordinárias. Mas os mais recentes, não", diria então João Lobo Antunes, o pai.

O jornalista João Céu e Silva, do "Diário de Notícias", recupera o modelo em "Uma Longa Viagem Com Lobo Antunes" (Porto Editora), livro que nasceu depois de uma entrevista a propósito de "O Meu Nome é Legião", em 2007. "Não conhecia António Lobo Antunes pessoalmente e fiquei impressionado naquela entrevista. É uma pessoa fechada, que não gosta de falar ao jornalistas. Foi rude, disse-me que não me conhecia e perguntou-me o que estava ali a fazer. Eu respondi torto, na mesma moeda. Ele não estava a contar e acho que isso foi importante, facilitou a nossa relação", lembra.

Seguiram-se mais de duas horas de conversa e Céu e Silva teve vontade de continuar. Falou a Lobo Antunes do desejo de fazer um livro e a partir daí combinaram-se encontros com a regularidade possível. Céu e Silva encontrou Lobo Antunes "numa fase da vida em que lhe apetecia falar com alguém, especialmente com um homem". Falaram da guerra colonial, de mulheres, de livros, cinema, do suicídio - essa angústia que o assola entre cada livro que escreve. O jornalista foi ganhando a confiança do escritor, ao lanche, quando o observava olhando a parede durante largos minutos, quando folheavam páginas amarelas.

Tudo isto passou para o livro, cuja maior particularidade é, afiança Céu e Silva, poder revelar aos leitores de Lobo Antunes como é que ele escreve. O jornalista acompanhou o processo de criação de "Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?", da descoberta do título à última versão do texto. Discutiu, formulou questões e repetiu-as até à exaustão: "Queria ter a certeza que o que me dizia era verdade, que não estava a fazer aquela pose de escritor e a mandar umas coisas para o ar."

O pendor autobiográfico

Rodrigues da Silva, muitas vezes, Clara Ferreira Alves, Baptista-Bastos, Miguel Sousa Tavares, Ana Sousa Dias, José Jorge Letria, Sara Belo Luís e Alexandra Lucas Coelho são outros dos jornalistas que ao longo dos anos questionaram o escritor e a sua obra. Ana Paula Arnaut, professora de Literatura Portuguesa Contemporânea, reuniu e editou estes e outros registos em "António Lobo Antunes - Confissões do Trapeiro" (Almedina), publicado em 2008. E já está nas livrarias "António Lobo Antunes" (Edições 70), estudo sobre a obra e o autor.

O livro insere-se na colecção "Cânone", inaugurada com um tomo sobre José Saramago, também da sua autoria. "É mais que evidente que Lobo Antunes pertence ao cânone", diz-nos ao telefone, de Coimbra. "A evolução literária constrói-se a partir de autores que provocam reacções de choque, que inovam. Lobo Antunes subverte o romance dito tradicional e, nesse sentido, é inevitável".

O texto de Ana Paula Arnaut aborda o pendor autobiográfico da obra antuniana, a importância de África ou as inovações formais introduzidas pelo escritor. Mas as múltiplas vozes e tempos narrativos que encontramos nos romances são, diz, das coisas mais interessantes e, ao mesmo tempo, das que oferecem maior resistência à leitura. "Os leitores estão acostumados a uma narração cronológica e aqui é como se vivesse no eterno presente." Eterno presente e eterno livro, já que o próprio autor, numa entrevista a João Paulo Cotrim em 2004, fala da sua obra "como se formasse um único livro divido em capítulos, e cada capítulo fosse um livro".

Ana Paula Arnaut já leu "Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?". Descreve-o como "uma espécie de livro dos livros, onde de uma maneira ou de outra todos os outros romances estão contidos". E Maria Alzira Seixo, que na sua opinião assinou "o mais sistemático estudo da obra do autor" ("Os Romances de António Lobo Antunes", Dom Quixote, 2002), parte dessa visão conjunta da obra antuniana para dirigir o "Dicionário da Obra de António Lobo Antunes (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), publicado no final de 2008. Trata-se de um documento que lista e analisa os livros, lugares e personagens, o modo como se relacionam.

O objectivo, explica Maria Alzira Seixologo a abrir o livro, passa por facilitar a leitura do "elevado número de romances do escritor, nos quais histórias várias e enlevadas se cruzam, conduzidas por muitas dezenas de personagens espalhadas por vários lugares".

As abordagens mais académicas partem de uma igual certeza que Ana Paula Arnaut nos transmite: "Lobo Antunes não pode deixar de ser lido. ‘O Arquipélago da Insónia' ou ‘Os Cus de Judas', o penúltimo ou o segundo, são bons livros para começar. Além de compor um documento fundamental de uma época, há em toda a sua obra uma tentativa de mudar a arte do romance".

"Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?" é mais um capítulo na incessante busca da perfeição, do "livro em que o silêncio seja completo", do "livro limpo de gordura", de deixar "a obra redonda" para poder parar. Tê-lo-á alcançado? Lobo Antunes, a João Céu e Silva no dia 3 de Fevereiro de 2009: "Eu acho que nunca li um livro tão bom."