The Legendary Tigerman

Femina

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A carreira de Legendary Tigerman tem sido a viagem de um andarilho do blues. Quando chegou, com "Naked Blues", havia nele uma rudeza vital no som e na exposição despudorada das suas obsessões: luxúria, tentação e perdição, pecados mortais bíblicos como fonte de salvação. "Fuck Christmas, I Got The Blues" acentuou tudo isso, carregando nos traços de uma iconografia que ganhava contornos cada vez mais nítidos: um espaço de mistério com corpos no lugar das sombras.

Com "Masquerade", terceiro álbum, o homem tigre tornou-se homem camaleão. Deixou de ser viajante por estradas secundárias e terriolas imaginárias e instalou-se na cidade, no frenesim de uma cidade, qualquer uma, que nunca dorme: um jogo de máscaras onde a electricidade da guitarra também avançava ao ritmo de batidas sintetizadas, onde o rock'n'roll se revelava em cenários cuidadosamente encenados. Este "Femina" que agora nos chega é algo substancialmente diferente. Um Tigerman partilhado, alguém que abre o seu universo aquelas que, desde sempre, tinham sido o objecto das suas canções, as mulheres. Na aparência, tudo muito simples. Um álbum de duetos. E é realmente isso e nada mais que isso. O que o torna mais que mero exercício é percebermos que, neste disco em que a interpretação se sobrepõe à composição – interessam os diálogos, a forma como Tigerman convoca as cantoras para o seu terreno e, depois, se deixa conduzir por elas -, o andarilho do blues, mantendo tudo aquilo que é essencial na sua música, se torna múltiplo. Asia Argento desce ao sussurro nessa belíssima canção de coração destroçado que é "Life ain't enough for you" – e ao ouvirmos aquela figura de guitarra quando as vozes se silenciam percebemos como a meticulosa construção de um espaço sonoro é aqui essencial (os ecos, as reverberações, a ideia de profundidade do som). Entre a doçura de Maria de Medeiros em "These boots are made for walking" – o que é, em si, uma perversão da exuberância do original -, o tom desbragado de Peaches em "She's a hellcat", o ataque da soul woman "extraordinaire" Lisa Kekaula (Bellrays), contagiante no blues-rock anfetaminado de "The saddest thing to say", e da infernizada Cláudia Efe, dos Micro Audiowaves, alimentado pelo riff de "Light me up twice" (sobre o qual paira, inevitavelmente, o bom fantasma de John Lee Hooker), vemos Legendary Tigerman, curioso, oferecendo música às palavras que lhes cantam. Ouvimo-lo a ouvir as provocações de um furacão chamado Cibelle em "I just wanna know (what we're gonna do)", ou a pegar na guitarra acústica para se aventurar entre as fantasmagorias de "Hey, sister Ray", guiada pelo piano e voz de Rita Red Shoes.