Reportagem

“Os direitos são uma conquista, não uma dádiva”

Anousheh não votou em Mir-Hossein Mousavi, mas foi para a rua protestar. Nesta reportagem conta a busca frenética pelo irmão e os espancamentos da polícia

No sábado e domingo, centenas de apoiantes de Mousavi envolveram-se em confrontos com a polícia
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No sábado e domingo, centenas de apoiantes de Mousavi envolveram-se em confrontos com a polícia Reuters

Os olhos castanhos de Anousheh ardem por causa do fumo. Ela recupera o fôlego. Mais acima na avenida, entre o ruído indistinto, a polícia antimotim espanca pessoas com bastões e ameaça outras. Irrompem gritos, enquanto homens e mulheres novos fogem à procura de abrigo.

A designer de interiores iraniana, de 29 anos, e o irmão, Babak, vieram de lá, na ponte norte da Alameda África, em Teerão, onde as multidões cantam “Morte ao ditador” – uma massa crescente de centenas de pessoas que protestam contra alegadas fraudes na contagem dos votos na reeleição do Presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Quando os milicianos da Ansar e-Hezbollah, barbudos e de bastões em riste, começaram a atacar a multidão que se concentrava, Anousheh e Babak correram rua abaixo, perdendo-se um do outro no meio do caos. Ela procurou-o sem sucesso nas ruas laterais. Pensou em regressar a casa, mas sabe que o seu protector irmão mais velho não sairá dali enquanto não a encontrar.

Imagina-o deitado na rua, em agonia, ou preso numa carrinha a caminho da prisão, talvez a de Evin, com a sua ala de isolamento onde diz que a mãe foi mantida durante sinistros 40 dias, em 2003.

Antes de regressar para o meio da multidão e arriscar ser espancada, decide livrar-se da mochila, que contém uma câmara digital cheia de imagens potencialmente provocatórias de manifestantes a atirar pedras, da carteira carregada de documentos de identificação e dos telemóveis dela e do irmão, com os números de todos os seus contactos. “Podem por favor ficar com isto”, pergunta a um grupo de estranhos sentados num carro a observar a revolta lá em cima. “Preciso de encontrar o meu irmão”.

Os desconcertados passageiros ficam com a mochila, abrem-na rapidamente, para ter a certeza que o conteúdo não é perigoso, e vêem-na regressar para o meio do tumulto, um figura solitária num casaco bege e um leve lenço verde na cabeça.

Com

formação de artista gráfica, Anousheh é uma improvável activista política. Vive com os pais. Ficou em casa no dia das eleições, ao contrário dos pais e irmão, que votaram no candidato moderado Mir-Houssein Mousavi, que acusa Ahmadinejad de fraude eleitoral. Mas ela acredita que Mousavi deveria ter ganho. “Não aceito nenhum deles”, diz Anoushehcom voz firme , que pediu para não publicarmos o seu nome de família. “Nenhum deles pode fazer nada”.

O que a move, diz, não é a política, mas um sentimento de injustiça em tudo isto, um forte empenho com o seu país, a sua cidade, o seu bairro, Jordan, que está entre os mais urbanos da capital iraniana.

Jordan foi um alvo dos revolucionários islâmicos que assumiram o controlo do Irão no final da década de 1970, como um símbolo de tudo o que era decadente no deposto regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi. As autoridades renomearam a Alameda Jordan, que devia o seu nome ao pedagogo americano Samuel Jordan, que ali criou uma escola secundária, em Alameda África, num sinal de solidariedade com o Terceiro Mundo. Uma bofetada nas pretensões cosmopolitas do bairro.

Os analistas muitas vezes descrevem um grande fosso no Irão entre os ricos e os pobres, entre os piedosos nas massas populares e a abastada elite ocidentalizada. Mas muitos dizem que a divisão iraniana tem mais a ver com cultura do que com classe, com estilo do que com dinheiro.

Muitos dos comerciantes dos bazares que financiaram os ayatollahs e se tornaram os pilares fundamentalistas das República Islâmica são ricos e muitos dos jovens que têm empregos subalternos nos bairros comerciais ouvem música pop persa feita em Los Angeles e embebedam-se em vodka caseira com os amigos, ao fim-de-semana.

E entre a chamada elite do Norte de Teerão há muita gente de posses modestas: funcionários do governo ou professores que apreciam arte, viajam para o estrangeiro e, acima de tudo, valorizam uma boa educação para os filhos.

Os revolucionários desprezam os que moram no norte de Teerão não pelo seu dinheiro mas pela sua educação, a sua mundanidade e por aquilo que vêem como uma pretensão de misturar o Oriente e Ocidente em vez de se resignarem com as tradições iranianas.

O falecido intelectual Ali Shariati, que em tempos inspirou os revolucionários islâmicos, criou um termo para isso: gharb-zadeghi, para designar influenciado ou envenenado pelo Ocidente.

Enquanto

crescia, Anousheh deparou-se várias vezes com milicianos pró-governamentais, em patrulhas motorizadas no seu bairro. Eles visitavam com regularidade Jordan para montar postos de controlo. Revistavam os carros em busca de álcool ou de pares de rapazes e raparigas não casados para os deter.

Por vezes, os jovens do bairro ripostaram, socando os milicianos e correndo-os dali. Para os miúdos do Jordan, os confrontos dos últimos dias entre as milícias governamentais e os jovens são apenas mais um episódio de 30 anos de brigas.

Anousheh acabou por estudar artes e grafismo na universidade e Babak, seis anos mais velho, tornou-se engenheiro, como o pai.

A mãe, uma doméstica tornada activista, envolveu-se no movimento da sociedade civil durante o governo do Presidente Mohammad Khatami, o reformista que tentou, mas falhou, abrir o sistema político religioso conservador do Irão. Foi detida em 2003, por apoiar uma revolta estudantil.

Anousheh viveu durante algum tempo em Londres e dois anos no Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para estudar inglês e trabalhar como administrativa.

Depois de regressar a Teerão, decidiu um dia vestir uma elegante abaya árabe, que a cobria dos pés à cabeça, no estilo usado pelas mulheres nos Emirados e no Bahrein. Por graça, juntou-lhe uma colorida blusa tailandesa por cima.

Resultado, foi mandada parar na rua.

“Pareces um painel de publicidade”, disse-lhe uma mulher das “patrulhas da moralidade”.

“Desculpe?”, lembra-se Anousheh de ter respondido. “Está toda a gente a olhar para ti”, retorquiu a mulher.

Anousheh ficou furiosa. “As minhas pernas estão cobertas, os meus braços estão cobertos, as minhas roupas não são justas”, respondeu. “De que poderá estar a queixar-se?”

Experiências como estas fizeram-na querer ir viver para o estrangeiro. Mas continua a retrair-se devido às redes de amizade e à viva familiaridade do seu país, uma sociedade em que alguém pode deixar para trás uma mochila com uma câmara digital, telemóveis e dinheiro a perfeitos estranhos na rua com a certeza razoável que os reaverá dias depois.

Sem

que soubesse, no sábado deixou a mochila com um grupo de jornalistas que discretamente tomava notas mentais enquanto assistia à confusão lá fora.

Usámos o telemóvel para lhe ligar no domingo de manhã e para lhe dizer que tínhamos a mochila dela. “Venham cá a casa”, disse.

“Eu confio nas pessoas”, explicou durante uma conversa ao final da manhã. “Se nunca roubar nada a ninguém, então ninguém lhe roubará nada”.

Explica então o que lhe aconteceu depois de nos ter deixado, no sábado à noite. Anousheh diz que quando correu para encontrar o irmão, a polícia antimotim gritou-lhe que fosse para casa. “Sai daqui ou vamos bater-te, vamos esmagar-te”, disse-lhe um miliciano.

“Vá, batam-me, mas eu tenho à mesma que encontrar o meu irmão”, respondeu-lhe.

O cenário era caótico, diz. Havia milicianos barrigudos e de capacete a fazer rodopiar os seus bastões. Polícias de unidades especiais, de uniformes negros, em motorizadas. Havia agentes antimotim. Ao longo dos passeios, funcionários dos serviços de segurança, de barba, gritavam uns com os outros pelos walkie-talkies.

Enquanto navegava entre as fileiras de polícias armados, enfrentou insultos e bastonadas, pelo menos cinco a contar pelas nódoas negras na parte de baixo do corpo. As forças de segurança começaram então a espalhar-se pelas ruas.

“Anousheh”, gritou-lhe um vizinho. “O teu irmão está à tua procura”.

Após 90 minutos, ela encontrou-o abrigado na entrada de um edifício numa rua lateral, tão preocupado com ela como ele com ele, e igualmente ensanguentado.

Mas em vez de ir para casa, diz, regressaram aos protestos, cantando slogans e jogando ao gato e ao rato com a polícia, até às seis da manhã.

“O meu irmão disse que o Nelson Mandela esteve na prisão durante 20 anos até que conseguiu os seus objectivos”, diz. “Aprendi com a minha mãe que temos de lutar pelos nossos direitos”.

“Os direitos são uma conquista, não uma dádiva”.