Somos todos cinéfilos?

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"Cada um o Seu Cinema" e "Dicionário de Cinema para Snobs" desenterram uma palavra rodeada de equívocos. E deixam pistas para que se reflicta sobre o estado actual da cinefilia.

Um filme estreado esta semana nas salas portuguesas, "Cada um o seu Cinema", e um livro recentemente editado, "Dicionário de Cinema para Snobs", trazem à baila uma palavra: "cinefilia".
Esta palavra, sublinhada a vermelho pelo corrector do processador de texto, mas utilizada há tanto tempo e por tanta gente que já é tudo menos um neologismo, ainda quer dizer alguma coisa?

Digitamos "cinefilia" no Google. O mais perto que ficamos de uma entrada dalgum dicionário "online" é a Wikipédia em língua portuguesa: "quem se interessa pelo cinema é considerado cinéfilo". Vago: basta dar uma volta pela expressão máxima da democracia opinativa, a blogosfera, para se perceber que toda a gente se "interessa" pelo cinema. Somos todos cinéfilos?

Convém desvalorizar a etimologia. Decomposta, a palavra "cinefilia" quer de facto designar um "amor pelo cinema". Como é feio julgar a qualidade do amor dos outros, tanto o indivíduo que passa os dias enfiado na Cinemateca como o que sai de casa uma vez por ano para ver o filme que ganhou os óscares têm igual legitimidade para se reclamarem "cinéfilos". Mas, e é aqui que convém perder de vista a etimologia, historicamente a palavra "cinefilia" - inventada, como tantas coisas relacionadas com a análise a percepção do cinema, pelos franceses - quis designar mais do que o seu etimológico amor. Antes, uma relação especial, uma condição quase ontológica, uma "cultura", como diz a entrada para "cinéphilie" na versão francesa da Wikipédia. Aliás, reproduzimos daí um parágrafo, absolutamente justo: "a cinefilia foi uma cultura porque possuía os seus próprios códigos distintivos e o seu próprio discurso. Ser cinéfilo era ser, ao mesmo tempo, espectador e crítico. Neste sentido a cinefilia foi uma prática de vida, a sós ou em grupo, entendida como forma de reflectir a arte e o mundo".

Repare-se no pretérito: "a cinefilia foi". A cinefilia, neste sentido histórico, a cinefilia "clássica", foi um fenómeno localizado no espaço e no tempo - Paris, anos 50 e 60, a Cinemateca Francesa, a "nouvelle vague", os "Cahiers" e a "Positif", e portanto, irrepetível nos mesmos termos. O que provocou foi uma imensa onde de choque, que espevitou o "amor absoluto" pelo cinema em muita gente, e previu toda a instintiva capacidade de "replicação" dessa cultura e dessa "prática de vida" que viria a ser demonstrada por jovens de todas as gerações futuras. Que, descobrindo textos de Godard, de Daney, de Skorecki, escritos muitos anos antes de eles próprios terem nascido, sentem-se imediatamente "reconhecidos" por eles, tanto quanto reconhecem exactamente aquilo de eles estão a falar. Alguns cantos da blogosfera também provam que isto se repete ainda hoje.

O "Dicionário de Cinema para Snobs", usando a artimanha do "snobismo" para distinguir uns cinéfilos dos outros neste tempo em que todos são cinéfilos, propõe uma espécie de guia introdutório à cinefilia enquanto "cultura", que com alguns postulados e referências "modernas" não deixa de reflectir e integrar elementos oriundos da cinefilia "clássica".
É um livro que, embora lacunarmente, e com diversos problemas (vontade de ter graça a todo o custo e uma ligeireza enervante em muitas entradas), tenta propor um esboço de reflexão sobre a possibilidade e os modos da cinefilia contemporânea, e nesse sentido talvez não seja um livro completamente inútil, por exemplo, para todos aqueles que se escandalizam quando o crítico não gosta de "Slumdog Millionaire" e se põem a falar das "massas". Por outro lado, faz o elogio da curiosidade, a curiosidade que falta às "massas", a vontade de ver, de descobrir o que está por baixo das pedras, e que é absolutamente constitutivo da cinefilia - mesmo, ou sobretudo, quando é confundido com "pseudo-intelectualice" e "elitismo". Ou "snobismo".

Já "Cada um o seu Cinema" evoca um elemento fundamental da cinefilia clássica: a sala de cinema. Nalguns casos - os melhores, como o episódio de Cronenberg - a conjugação da sala e da cinefilia é conduzida a um extremo "apocalíptico", mas com uma frieza - ainda que magoada - que evacua toda a xaroposa nostalgia que outros casos não evitam (Lelouch, Iñarritu...). Neste sentido, e no seu melhor como no seu pior, "Cada um o Seu Cinema" esboça as duas vertentes: fazer o seu requiem como maneira de lhe prestar justiça e, de algum modo, conservar a sua validade, ou prolongar os seus aspectos mais folclóricos, transformando-a em nostalgia barata.