Os segredos da Ópera do Tejo

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Teve apenas sete meses de vida antes de cair com o terramoto de 1755 mas, apesar disso, a Ópera do Tejo foi um símbolo do reinado de D. José e de Lisboa. A investigadora Aline Hall vem agora defender que o edifício pode não ter desaparecido totalmente

A investigadora Aline Gallasch-Hall passara por aquele local milhares de vezes. Sabia que ali, onde hoje fica o edifício do Arsenal da Marinha, no Terreiro do Paço, em Lisboa, tinha-se erguido no século XVIII, e durante uns escassos sete meses, um outro edifício que o rei D. José sonhara como um dos símbolos do regime: a Casa da Ópera, que ficaria mais conhecida como Ópera do Tejo.

Às vezes os sítios tornam-se de tal forma familiares que já não reparamos bem neles. Mas naquele dia, Aline viu uma coisa que lhe chamou a atenção. "Olho para o Arsenal e penso 'eu já vi isto em algum lado'. É um pouco uma verdade de La Palisse, mas o que é facto é que já tinha visto e fora na gravura das ruínas da Ópera".

Aline refere-se à única imagem que chegou até nós do que terá sido esse imponente edifício à beira Tejo, desenhado pelo arquitecto italiano Giovanni Carlo Sicinio Galli Bibiena e inaugurado em Março de 1755. Aí, naquele que se julga ser "o único testemunho fiel do edifício", vê-se o que restou da ópera após o terramoto de 1 de Novembro de 1755: uma parede alta à direita com sete fileiras de janelas, a mais alta das quais termina em arco; no interior, por onde deambulam sobreviventes da tragédia, há algumas estruturas também em arco; à esquerda outra parede com o mesmo número de janelas; e ao centro vêem-se claramente duas empenas que terminam num triângulo e que se mantiveram de pé, ao fundo uma terceira meia derrubada e mais próximo de nós uma quarta da qual pouco mais resta do que a coluna.

E o que Aline viu naquele dia foram essas mesmas empenas no telhado do edifício do Arsenal da Marinha. E de repente, a investigadora da Universidade de Évora, que está a trabalhar num doutoramento sobre os teatros reais na segunda metade do século XVIII, tirou uma conclusão: partes da ópera que ficaram em pé teriam sido aproveitadas para a construção do novo edifício que se ergueu no mesmo lugar. Ou seja, ainda existem vestígios dessa mítica sala na qual se estrearam apenas três óperas.

A descoberta - que, sublinha Aline, para ser confirmada precisava de um estudo muito mais aprofundado do Arsenal da Marinha, nomeadamente por um arquitecto - viria mostrar que as ruínas não tinham sido completamente arrasadas e teriam sido integradas no novo edifício.

Com autorização da Marinha, Aline foi depois tentar conhecer o arsenal por dentro - e recentemente convidou o P2 a acompanhá-la numa dessas visitas. "Se formos ao Google Earth percebemos perfeitamente que toda esta zona, incluindo o Tribunal de Contas, parece um puzzle gigante e que contrasta claramente com a simetria, a racionalidade, o traço quase a régua e esquadro da maior parte da Baixa Pombalina", diz a investigadora, segurando na mão um mapa que mostra as novas construções pós-terramoto, tendo por baixo a traço mais claro as antigas.

Aline chama a atenção para "um corpo mais ou menos quadrangular" que parece corresponder ao que estava lá anteriormente - e que seria a Ópera. As paredes dos dois corpos são coincidentes, o que reforça a ideia do aproveitamento. "Sei que a tradição diz que o Iluminismo favorecia o princípio de deitar abaixo e construir de novo. É verdade, mas nos sítios em que isso era possível. Mas quando temos edifícios com vários metros de altura, ainda sólidos, não faz sentido que um homem tão pragmático como era o Marquês de Pombal, que tinha que reerguer uma cidade e agir com rapidez, não reaproveitasse aquilo que podia".

Uma escada em caracol?

Entramos no edifício e Aline começa a apontar aquilo que considera serem incongruências. "Isto é um verdadeiro emaranhado de reaproveitamentos", sublinha. "Quem espera um edifício tipicamente pombalino não percebe como é que este funciona. Só sabendo que houve aqui uma construção prévia é que se consegue explicar a falta de funcionalidade de alguns destes espaços". Um dos exemplos mais evidentes fica no pavilhão desportivo ao fundo do edifício (uma zona que inicialmente a investigadora admitia que pudesse pertencer à ópera, mas que concluiu que não). Aí, num ângulo entre duas paredes rectas está uma estrutura cónica, com uma porta em baixo e outra em cima, suspensa no ar, que "parece ser uma estrutura em pedra para uma escada em caracol, possivelmente em madeira". Esta estrutura só é visível no interior do pavilhão, e não tem correspondência no exterior, como um corpo estranho, mais antigo, que tivesse sido integrado ali por necessidades de construção.

Durante muito tempo acreditou-se que única planta existente da Ópera do Tejo seria a encontrada em 1933 pelo historiador José de Figueiredo, primeiro director do Museu Nacional de Arte Antiga e da Academia nacional das Belas-Artes. Foi com base nela que Aline fez, em 2005, juntamente com o arquitecto Francisco Brandão, uma tentativa de reconstituição do edifício. A mesma planta serviu também para a recriação virtual da ópera por Alexandra Gago da Câmara e Helena Murteira, da Universidade de Évora.

A planta errada

Mas, no ano passado, Pedro Januário, arquitecto e professor na Faculdade de Arquitectura de Lisboa, apareceu com uma tese que contraria esta ideia. "Inicialmente tomei a planta encontrada por José de Figueiredo como verdadeira, estudei a vida e obra dos Bibiena [família com várias gerações de arquitectos] e comecei a verificar que existiam erros crassos, por exemplo na dimensão dos degraus", conta.

A partir de uma planta de 1759, assinada pelo Conde de Oeiras (Marquês de Pombal), que encontrou na Academia Nacional das Belas-Artes e na qual se vê a localização da ópera, Pedro Januário concluiu que as medidas não batiam certas com as da planta identificada por José de Figueiredo, tal como não batia certo a proporção entre a sala e o cenário (a ideia de que essa não seria a planta certa tinha já sido defendida no passado pelo olissipógrafo Augusto Vieira da Silva). Mas o arquitecto foi mais longe: projectou sobre a gravura das ruínas a planta e o corte do projecto e verificou que faltava profundidade. "A ópera teria cerca de 120 metros, segundo o Tombo de Lisboa de 1758 (levantamento do edificado da cidade), e a que José de Figueiredo propôs tinha à volta de 65 metros".

As investigações conduziram-no a um conjunto de desenhos localizados pela professora italiana Giuseppina Raggi e pelo arquitecto do Porto Luís Soares Carneiro, autor de uma tese sobre os teatros portugueses de raiz italiana, no Museu Nacional de Arte Antiga e na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Trata-se de cinco imagens que se julgava corresponderem ao teatro real de Salvaterra de Magos. Mas Januário conclui que de forma nenhuma aquele teatro podia estar implantado no palácio daquela localidade e que, por outro lado, tinha dimensões e características que permitiam arriscar a hipótese de se tratar do edifício da Ópera do Tejo. É, por isso, a partir desse desenhos que Pedro Januário tenta nova reconstituição do mítico teatro desaparecido em 1755.

Seria assim? Seria diferente? Serão as empenas triangulares ainda visíveis no Arsenal da Marinha um aproveitamento do edifício original e estarão as paredes integradas no actual, como defende Aline Gallasch-Hall? Duzentos e cinquenta anos depois de ter desaparecido a Ópera do Tejo continua a guardar os seus mistérios.