Jim Carrey é tão "gay" que põe estreia americana em risco

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O filme com Jim Carrey, Ewan McGregor e Rodrigo Santoro está em risco de não ser distribuído nos EUA por conter uma cena de sexo que os distribuidores acham demasiado forte

Depois de "O Segredo de Brokeback Mountain" e de "Milk", ainda há preconceito "antigay" em Hollywood? Talvez não tanto em Hollywood e nos estúdios, que deram luz verde ao filme e fizeram "I Love You Phillip Morris", mas na América dos negócios, sim. O filme com Jim Carrey, Ewan McGregor e Rodrigo Santoro está em risco de não ser distribuído nos EUA por conter uma cena de sexo que os distribuidores acham demasiado forte.

Não, não é explícita. Não, não há nudez frontal masculina. Mas há um grande e peludo senhor de quatro no chão a ser açoitado por Jim Carrey. Isso bastou para criar tensão nos semblantes dos distribuidores americanos, receosos de que a coisa não corresse bem em sala - e talvez junto dos grupos de pressão da direita religiosa? A cena foi vista pelo relações públicas da distribuidora americana TLA Video, Lewis Tice, que contou tudo ao "Village Voice": "A cena não é chocante no sentido em que se revelem algumas partes do corpo (...). A parte surpreendente é que há um tipo musculoso, tipo 'bear' [uma descrição do universo "gay" que retrata homens fortes, com bastante pilosidade corporal e atitude de macho], que está de quatro e a receber uma valente sova de Carey." Para Tice, a cena é forte pelo facto de a actuação de Carey o revelar de forma nova ao público: "sexual" e ainda por cima "autêntico" nesse espancamento sensual. Porque é que essa cena está a dar cabo do lançamento do filme nos EUA? "Acho que a maior parte das pessoas está habituada a ver o Ewan McGregor nu e envolvido em sexo com homens, mas não tanto o Carrey", diz Tice, que gostou do filme e da interpretação.

A "Variety" já previa as dificuldades na sua crítica ao filme sobre um pai de família (Carrey) que recupera de um acidente e descobre ser "gay" e, quando vai parar à prisão, se apaixona pelo colega de cela, Morris (McGregor). "A crueza do guião de Glenn Ficarra e John Requa [que realizam o filme] e a rudeza do romance de Carrey e McGregor podem limitar a exposição do filme", escrevia o crítico John Anderson, "mas a curiosidade quanto à 'conversão' de Carrey será muito chamativa".

Essa conversão não se refere só à homossexualidade no ecrã. Refere-se também ao facto de ser um papel cómico forte, mas com os toques de dramatismo que Carey já usou em "Homem na Lua" ou em "O Despertar da Mente". Mas, voltando à cena em causa, Tice diz que ela "ultrapassa tudo" o que já viu "no cinema 'mainstream' com uma celebridade". O problema é, portanto, a cena, mas sobretudo o seu protagonista: os fãs de "Ace Ventura - Detective Animal" "arriscam-se a ter uma crise cardíaca", avisa a "Variety", quando virem Carrey a cavalgar o tal homenzarrão.
O filme tem futuro mais tranquilo na libertina Europa, com estreia em Portugal a 28 de Maio (Lusomundo) e já garantida em França (a produtora do filme é a Europa Corp., de Luc Besson, e vai distribuí-lo em França).

A hipersensibilidade "gay" já toca outros filmes em 2009. "Bruno", de Sacha Baron Cohen (ex-Borat), vai estrear-se nos EUA, mas sob a classificação "maiores de 17". E a Motion Picture Association of America até devolveu o filme ao estúdio por causa de uma cena de sexo "gay" considerada demasiado explícita. Talvez a experiência de "Borat" tenha vacinado os americanos contra o desconforto que Cohen é capaz de criar. Na América.