David Foster Wallace deixou romance inacabado

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A "New Yorker" acaba de revelar um excerto do novo livro, The Pale King, que será publicado no próximo ano. A viúva diz que, com ele, o autor queria demarcar-se do sucesso de Infinite Jest

Esta semana vai voltar a ouvir-se falar de David Foster Wallace (1962-2008), o escritor americano que se suicidou em Setembro passado, alegadamente por não ter conseguido resistir a uma profunda depressão nervosa que terá tido origem na incapacidade do autor em lidar com o êxito conquistado pelo seu romance "Infinite Jest" (1996). A revista "The New Yorker" publica no seu primeiro número de Março um excerto de um romance inacabado do escritor, intitulado "The Pale King", descoberto pela viúva, Karen Green, em Novembro, quando remexia os papéis na garagem da casa do casal na Califórnia, onde ele costumava trabalhar.

Apresentado pelo jornalista D.T. Max como "a obra inacabada" e também como "a luta de David Foster Wallace para ultrapassar 'Infinite Jest'", o texto revela um romance que ia já em 200 páginas e cuja acção decorre numa repartição de finanças americana cheia de empregados aborrecidos.

"The Pale King" denota também um estilo de escrita diferente do de Infinite Jest, que valera a Wallace uma inesperada aclamação da crítica, que logo viu nele um dos nomes mais significativos da sua geração. "Penso que ele não queria voltar a escrever aquilo de que as pessoas estavam à espera. Mas também não fazia ainda ideia do que iria fazer de novo", comentou Karen Green à "The New Yorker".

Os editores americanos de Wallace anunciaram que "The Pale King" será publicado no próximo ano, com as notas e os apontamentos encontrados junto da obra inédita. A profusão de notas era já uma marca do escritor: "Infinite Jest" tinha mais de uma centena de páginas delas, entre as mais de mil do romance. Narrava uma história na América num futuro não muito distante, mas já irremediavelmente mergulhada no consumismo e definitivamente em conflito com o vizinho Canadá. O protagonista, um jovem prodígio de 17 anos, frequenta uma academia de ténis - uma clara reminiscência autobiográfica, já que o próprio Wallace fora um praticante exímio da modalidade, antes de optar definitivamente pela filosofia, pela lógica e pela escrita.

Antes de "Infinite Jest" Wallace tinha publicado outro romance, "The Broom of the System" (1987), quando era ainda estudante, mas que chamou logo a atenção sobre ele - paralelamente, editara também contos e ensaios. Mas nada que se parecesse com a escrita maníaca e com o humor negro daquele com que surpreendera a crítica americana. Algo que Wallace - simultaneamente uma figura tímida que fugia das multidões e um egocêntrico que gostava de ser o centro das atenções - não terá conseguido gerir. No dia 12 de Setembro de 2008, suicidou-se.