Quando Hollywood era uma fábrica de sonhos gay

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A história é conhecida, mas não cansa recordá-la. Dois homens cheios de charme, em início de carreira, pretendidos por todas as mulheres e acabados de chegar à terra de todos os sonhos. Hollywood, 1932. Cary Grant tem 28 anos e Randolph Scott 34. Dá-se a coincidência de começarem a trabalhar quase ao mesmo tempo para a Paramount Pictures, já então um gigante da indústria do cinema. E por coincidência também travam conhecimento nas filmagens de Hot Saturday, de William A. Seiter - segundo filme a sério em que Grant participa, depois de uma estreia prometedora em A Vénus Loira, de Josef von Sternberg. Ficam amigos. Tão amigos que se tornam mais do que amigos e decidem ir viver juntos. "A imprensa descreve essa vida em comum através de frases como 'a dupla de Hollywood' ou 'o casal feliz' e os boatos que circulam atraem os fãs e dão a entender que os dois actores partilham mais do que o apartamento", escreve Brett L. Abrams no livro Hollywood Bohemians, agora editado nos EUA.

O livro, de que foram publicados excertos este mês na revista gay americana "Advocate", não traz novidades sobre a alegada relação entre Cary Grant, considerado um dos melhores actores da história do cinema americano, e Randolph Scott, que ficou conhecido por protagonizar westerns realizados por Budd Boetticher no fim dos anos 50. Mas traz nova interpretação sobre o assunto, recorrendo para isso a fotografias da época, onde os dois actores aparecem unidos pela extremosa intimidade que em público sempre negaram.

Brett L. Abrams, que trabalha como arquivista na National Archives and Records Administration, defende uma tese controversa: entre 1917 e 1941, os estúdios de Hollywood e os media que faziam a cobertura do que por lá se passava veicularam propositadamente imagens daquilo a que o autor chama "boémios". A saber: "homossexuais, adúlteros, homens efeminados e mulheres másculas, ora reais, ora de ficção". Com que objectivo? "Atrair o público e forjar a mística de Hollywood enquanto fábrica de sonhos e o sítio mais vigoroso, libertino e extravagante de todo o país".

No caso de Grant e Scott, é sugerido, mas não dito, que até foi conveniente para a Paramount explorar a ambiguidade sexual dos dois actores, pois quanto mais impressionados ficassem os fãs, mais se sentiriam atraídos por eles.

As fotografias de Grant e Scott a que Abrams recorre para explicar isto foram feitas por volta de 1932 pelo departamento de Relações Públicas da Paramount. Não são inéditas, mas estavam esquecidas. Nelas, Grant e Scott aparecem na casa de praia que partilhavam em Santa Mónica, Los Angeles. O objectivo oficial das fotos, segundo escreve Brett L. Abrams, que as encontrou na Academy of Motion Pictures Library, em Beverly Hills, era o de sublinhar a aura de estrelas dos dois actores e vender a imagem de galãs solteiros, que tinham vidas independentes mas, por acaso, até viviam juntos. Homossexuais sem o serem. Heterossexuais capazes de transgredir. "Estas imagens apelavam quer às mulheres heterossexuais, que apreciavam a aparência dos actores e a exposição da sua privacidade, quer aos homens heterossexuais, que projectavam neles a fantasia de uma vida na alta-roda", lê-se em "Hollywood Bohemians: Transgressive Sexuality and the Selling of the Movieland Dream" (título completo). 

No meio das fotos, Brett L. Abrams encontrou uma que lhe chamou a atenção e que, no seu entender, faz prova da ligação romântica entre Grant e Scott. Ao fim da tarde, no pátio da casa de praia, com o oceano Pacífico em fundo, Scott acende com a ponta do seu cigarro o cigarro que está preso aos lábios de Grant. Uma foto em contraluz, como a de dois apaixonados num momento de grande intimidade. "A imagem de dois homens a fumar juntos era, à época, muito frequente, mas apenas em bares, saloons ou outros áreas 'masculinas', nunca num espaço considerado romântico e com a interacção desses dois homens isolada do que está à volta", diz o autor. "Um homem raramente acendia o cigarro a outro e de certeza que não tomaria a iniciativa de o fazer se o cigarro estivesse a pender da boca do outro". Isso, conclui Brett L. Abrams, era normal nos anos 20 na publicidade aos cigarros, mas apenas entre homem e mulher e na tentativa de criar um ambiente romântico entre os dois.

Estamos a falar de uma época em que mesmo nas grandes cidades americanas "havia poucos bares gays ou zonas onde os homossexuais se encontrassem", segundo explica ao P2, numa entrevista por e-mail, Damon Romine, dirigente da Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (GLAAD), com sede em Los Angeles. "Quase toda a gente estava 'fechada no armário', sem se poder assumir perante a família e muito menos no trabalho, por medo de despedimento".

No microcosmos de Hollywood, os homossexuais tinham uma atitude ainda mais resguardada. "Os actores eram despedidos se se soubesse que tinham comportamentos homossexuais, razão por que muitos deles arranjavam casamentos de fachada para proteger a sua verdadeira orientação sexual", conclui o activista. Uma época, aliás, em que pedofilia e homossexualidade, então consideradas uma e a mesma coisa, eram punidas em vários estados americanos com penas de prisão entre cinco e 15 anos, segundo o "Alyson Almanac" (1993). Uma época em que a palavra gay só significava alegre ou feliz, de acordo com o mesmo almanaque. E a palavra homossexual tinha entrado na linguagem comum havia poucos anos (aparece nos EUA a partir de 1890; em 1899 em Portugal, segundo o Dicionário Houaiss). Faltavam, no fundo, cerca de 40 anos para a chamada Revolta de Stonewall, em Nova Iorque, em 1969, que marcará o início do movimento organizado de defesa dos direitos dos homossexuais.

É por isso que a tese de Abrams é polémica. Será que os estúdios Paramount estariam mais interessados em vender o exotismo que, aos olhos do grande público, uma relação entre dois homens representava, em vez de contribuírem para a construção de uma fachada heterossexual? Ou será que a forma como se interpretava a camaradagem entre homens tinha um espectro suficientemente alargado para permitir cenas íntimas, não se vendo nisso qualquer sinal de erotismo? Não se sabe. O PÚBLICO contactou por e-mail os dois responsáveis pelas Relações Públicas da Paramount, Carl Folta e Patricia Rockenwagner, mas não obteve resposta.

De qualquer forma, sabe-se hoje que Cary Grant (1904-1986) e Randolph Scott (1898-1987) viveram juntos entre 1932 e 1934 e que a relação continuou mesmo quando Grant se casou e foi viver, em 1934, com Virginia Cherrill (primeiro de cinco casamentos, todos falhados). No ano seguinte, com o divórcio já em curso, Grant e Scott voltaram a dividir casa, relata Hollywood Bohemians. E seria assim até 1944, com alguns intervalos pelo meio.

Nunca assumiram nada: nem a provável relação amorosa, nem outras que terão tido mais tarde com outros homens (na biografia "Brando Mas Pouco", Darwin Porter garante que Cary Grant foi amante de Marlon Brando). Portanto, oficialmente eram perfeitos heterossexuais. E em Novembro de 1980, por exemplo, Grant processou o actor cómico Chevy Chase por este ter dito num programa da NBC que Grant era gay. A hipótese de bissexualidade também nunca foi admitida. Betsy Drake, com quem Grant foi casado entre 1949 e 1962, chega a dizer que talvez o ex-marido se sentisse atraído por ambos os sexos - no documentário "Cary Grant, A Class Apart", de Robert Trachtenberg (2004). Mas logo a seguir declara que nunca teve tempo para tomar atenção a esses boatos, pois ela e Grant estavam os dois "demasiadamente ocupados a ter relações sexuais".

Ainda que seja de colocar a hipótese de a amizade entre os dois ter sido apenas uma amizade, tal é pouco provável. As omissões sobre o assunto são suficientemente reveladoras nas várias biografias que se têm escrito sobre eles. Em "The Private Cary Grant" (1983), por exemplo, os autores, William Currie McIntosh e William Wever, sentiram necessidade de sublinhar que "nunca houve qualquer dúvida sobre a afeição de Cary Grant por mulheres". Ao mesmo tempo, em 150 páginas de livro, referem-se a Randolph Scott apenas uma vez e de passagem.

Mesmo que a boémia hollywoodesca tenha servido para tornar a indústria do cinema mais rentável, o que parece correcto concluir é que a negação da homossexualidade sempre foi a regra. E ainda hoje é assim.

Num artigo de Maio de 2007, na revista gay americana "Out", o publicista Michael Musto escreve, a propósito da assunção da actriz Jodie Foster, que existe actualmente em Hollywood um "armário de vidro" que permite às estrelas homossexuais viver a vida íntima com normalidade, ao mesmo tempo que em público têm uma imagem de certo modo heterossexual. Musto cita o director da empresa de Relações Públicas Fifteen Minutes, segundo o qual há quatro géneros de gays em Hollywood: os assumidos; os que toda a gente sabe que são gays, mas nunca falam sobre o assunto; os casados, que nunca se referem à sexualidade; e aqueles que ameaçam processar toda a gente que diga que são gays. Grant e Scott, a confirmarem-se as suspeitas, encaixariam na perfeição na terceira e quarta categorias. Seriam aquilo a que o activismo gay português chama "armariados" ('closeted', dentro do armário).

No extremo oposto daquilo que Abrams diz no seu livro, há quem entenda que a pressão exercida sobre a orientação sexual tem uma explicação: o lucro. Bryan Batt, gay assumido e actor na Broadway, dizia há poucas semanas à CNN que "há alguma homofobia em Hollywood", mas não por razões morais. "Hollywood é uma máquina de milhares de milhões de dólares; se os actores gays apresentarem resultados e venderem, voltam a ser escolhidos para novas produções". Mas haverá uma primeira oportunidade?

Ao PÚBLICO, Damon Romine, da GLAAD, não tem dúvidas em afirmar que "os actores assumidos enfrentam desafios que os outros não enfrentam. É certo que conseguir um papel envolve grande competição, mas quando alguém assumido é rejeitado tem de se perguntar se a sua sexualidade foi ou não determinante nisso". Romine recorda o caso de Rupert Everett, que na sua autobiografia, "Red Carpets and Other Banana Skins" (2006), garante ter ficado de fora dos filmes "Era Uma Vez Um Rapaz" e "Instinto Fatal 2" por ser gay assumido. E recorda, também, por outro lado, Neil Patrick Harris, conhecido pela série "O Menino Doutor", do fim dos anos 80, e actualmente protagonista de "Foi Assim que Aconteceu". Ele assumiu-se em Novembro de 2006 e nem por isso deixou de conseguir trabalhar - se bem que seja um actor de televisão e na televisão a homossexualidade é bem aceite ("Nunca na televisão houve tantas personagens gays, bissexuais, lésbicas e transgénero: 83, segundo a GLAAD, sem contar com reality shows, telenovelas e canais por cabo temáticos", lia-se no "New York Times" em Setembro último).

Numa entrevista à revista gay americana "Out", em Agosto, Neil Patrick Harris revelou que "a maioria das pessoas que trabalha nas empresas de casting é gay e muitos dos directores também". Mas disse compreender em parte as barreiras que Hollywood levanta aos homossexuais assumidos. "Se eu fosse um activista gay, provavelmente eles teriam preocupações acerca da minha credibilidade em determinados papéis" (heterossexuais, leia-se). "Percebo que um agente não quisesse ser representante de um actor masculino muito efeminado, não por aversão, mas porque os agentes sabem a limitação que essa característica impõe em termos de oportunidades de trabalho".

Jason Stuart, um actor e comediante americano que dirige a secção gay da Screen Actors Guild, sindicato de actores, acha que os actores assumidos "não perdem apenas a oportunidade de serem o novo Brad Pitt, mas também a de serem famosos e de, através disso, conseguirem bons trabalhos" - disse ao "New York Times", no ano passado. E dá um exemplo actual: porque é que Gus Van Sant, que é gay, teve de ir buscar um actor "hetero", Sean Penn, para protagonista do seu novo filme, Milk, que até é sobre um activista gay americano? "Porque não há actores gays suficientemente famosos para ficarem com o papel", diz Jason Stuart.