A fantasia espanhola de Woody Allen

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Um telefonema de Penelope Cruz e ele foi convencido a ir até Barcelona realizar a sua fantasia de cineasta europeu

O único lugar onde Woody Allen realmente quer estar é na cama. "O meu lugar na cama é o meu lugar no mundo", explica. É onde vê jogos de baseball, onde lê, e onde escreve, normalmente da parte da manhã, porque se começar à noite por vezes fica tão excitado que não consegue dormir. É onde o acto de imaginar é, de facto, "agradável" e onde pode "ir escolher as pessoas" e ver as suas "personagens ganharem vida."
"E ponho música e vejo as personagens encenarem as suas cenas ao som da bela música. Sabe, divirto-me com isso. E se mais ninguém faz isto, é uma pena."

Woody parece menos desafiador do que resignado. De todos os grandes artistas americanos, sofreu um dos mais violentos e cruéis reversos de fortuna, caindo da adulação pública para a reprovação generalizada. A sua solução para os caprichos do afecto do público é agarrar-se à crença de que isso não significa nada. "Quando somos miúdos pensamos para nós próprios: 'Fama e fortuna e vai ser tudo tão excitante e...'. Mas depois descobrimos rapidamente, depois de três ou quatro filmes: 'Espera aí, o lado positivo é nada e o negativo também é nada.' A adulação das massas ou dos críticos é uma experiência impessoal, e os sentimentos negativos [das] pessoas são uma experiência impessoal. O contrato que o público tem com a pessoa é: 'tu entretens-nos e nós aparecemos'. E é assim que o contrato deve ser."

Da maneira como Allen fala, podemos pensar que estamos na véspera do lançamento de um dos seus projectos falhados, uma série de filmes triviais e ineficazes incluindo "Celebridade" e "A Vida e Tudo o Mais", que se seguiram ao escândalo público da sua separação de Mia Farrow, as horríveis acusações (negadas e nunca provadas) de abuso infantil e mais tarde o seu casamento (que já dura há 10 anos) com a filha adoptiva de Farrow, Soon-Yi Previn, então com 22 anos.

Na verdade, Woody fez um dos mais deliciosos e divertidos filmes em mais de uma década, "Vicky Cristina Barcelona", a história de duas jovens americanas (Scarlett Johansson e Rebecca Hall) que, durante umas férias de verão em Espanha, se envolvem numa relação com um atraente artista, que adora mulheres (Javier Bardem) mas também a sua confusa e deliciosa ex-mulher (Penélope Cruz).

O filme é uma representação dos acasos do amor com cada uma das mulheres que lutam por uma posição estável: a aventureira sexual que está sempre cronicamente insatisfeita (Johansson), a futura académica que não gosta de correr riscos e que corre o perigo de sufocar a paixão da vida (Hall) e o espírito intoxicante e anárquico (Cruz), que torna a arte grande e a vida num inferno.

Com o chapéu na mão

Num fim de semana recente, Allen esteve fechado num quarto de hotel, dando entrevistas - fardo raro para Allen, que costumava ser capaz de escapar a tais experiências de rotina. O cineasta, 72 anos, passou uma temporada em Los Angeles, ficando num hotel com a mulher e as suas duas filhas pequenas, enquanto fazia a sua estreia na ópera dirigindo a ópera cómica de Puccini "Gianni Schicchi."

Parece mais fraco do que se esperava, vestindo uma impecável camisa com quadrados azuis e umas calças de algodão. Tem o cabelo completamente grisalho, grossos óculos pretos e uma pele que, curiosamente, não tem rugas. Ficamos com a sensação de que ficaria mais feliz se toda a gente o deixasse sozinho para fazer o seu trabalho. O seu trato é delicado mas cauteloso.

Allen admite que ir até Barcelona, Espanha, para fazer um filme concretizou a sua fantasia de ser um dia um cineasta europeu. "Sempre quis fazer o tipo de filmes que vi nos anos 50. Os filmes de Truffaut e os filmes de Godard e os de Bergman e Fellini, e esses são os filmes que sempre influenciaram o meu trabalho. E sempre os copiei e fui influenciado por eles. 'Vicky Cristina Barcelona' parece-me, quando o vejo, como um desses filmes. Tem todas as características: a música, as pessoas a andarem de bicicleta pela Europa, a interacção das personagens e as cenas desfocadas que vemos nesses filmes."

O filme, cheio de belas imagens de edifícios de Gaudi e velhas igrejas, é um dos acidentes felizes que surgiram depois de ter deixado de ser popular na América. Allen realizou mais de 40 filmes e fez mais grandes obras do que quase qualquer realizador vivo - "Annie Hall", "Manhattan", "A Rosa Púrpura do Cairo", "Crimes e Escapadelas", "Hannah e as Suas Irmãs", "Maridos e Mulheres" - mas a América nem sempre tratou particularmente bem os seus iconoclastas. Allen não é como Orson Welles, reduzido a vender vinho Gallo, ou Charlie Chaplin, que fugiu para a Suíça, mas desde os anos 90 qued as suas receitas de bilheteira diminuíram e a qualidade dos seus filmes tornou-se mais irregular. O seu filme anterior, "O Sonho de Cassandra", fez menos de um milhão de dólares nos EUA, se bem que tenha arrecadado cerca de 20 milhões no resto do mundo. Ele tem de andar com o chapéu na mão à procura de financiadores, que são na maioria europeus.

Quase por necessidade, foi catapultado do seu cenário familiar de Nova Iorque para Londres e agora Barcelona. A mudança de cenário parece ter sido rejuvenescedora, resultando em "Match Point" e "O Sonho de Cassandra" - dramas satíricos acutilantes e niilistas, que investigam se o mal é alguma vez realmente punido.

Quando uma companhia espanhola, Mediapro, o contactou com a proposta de financiar um filme em Barcelona, o argumentista-realizador basicamente pensou: "Porque não?" "Barcelona é uma cidade onde posso viver muito facilmente", diz. "Se tivessem mencionado uma qualquer cidade na Ucrânia ou no Sudão ou algo assim, teria dito não. Mas Barcelona é uma cidade bela e maravilhosa."

Se bem que Nova Iorque seja uma personagem em muitos dos seus filmes, Allen nunca tinha escrito um filme para um local específico, mas a sua tarefa ficou mais fácil quando recebeu um telefonema inesperado de Penélope Cruz, que lhe perguntou se podia visitá-lo. "E quando a vi, pensei: 'Meu Deus, ela é - se acreditar nisto - mais bonita em pessoa do que é no ecrã.' Achei que ela era tão bela que quase fiquei sem fôlego." Cruz disse-lhe que adoraria entrar no seu filme de Barcelona e quando ela partiu Allen confessa que "ter-lhe-ia dado toda a mobília, sabe?" Teve conhecimento através dos seus contactos que Bardem também estava interessado. "Pensei: 'Está bem, tenho estes dois grandes e tempestuosos espanhóis e Barcelona, mas não tenho filme."

Nada como a sua personagem

Ao longo do ano, Allen escreve ideias para filmes em pedaços de papel e carteiras de fósforos e atira-as para dentro de uma grande gaveta. No caso de "Vicky Cristina Barcelona", usou uma ideia que teve em tempos acerca de duas raparigas que vão de férias até São Francisco. Transportou a história para Barcelona e juntou-lhe Scarlett Johansson, que se tornou figura recorrente nos seus filmes mais recentes, como um símbolo de juventude, de intoxicante indisponibilidade. Começou a moldar as personagens ao seu elenco e, quando filmava, nunca falou com os actores, a não ser para lhes dar indicações de cena.

Diz que não se importa se nunca mais voltar a representar num dos seus filmes. "Se não houver papéis para mim, então não interpretarei nenhum... E se houver uma personagem adorável chamada Gramps que seja sábia apesar da idade, então. ..."
Torna-se claro, à medida que fala, que ele não é nada como a sua personalidade cinematográfica - não é nada um neurótico falador e assustadiço acometido de pânico existencial. Afirma que o seu alter-ego é apenas o seu número cómico, como o bigode e o chapéu de côco de Charlie Chaplin, e que a personagem nasceu do seu limitado talento de actor. "Não sou como Dustin Hoffman ou Robert De Niro. Esses tipos fazem milagres no ecrã. Sou um actor perfeitamente credível no meu pequeno âmbito. Assim posso interpretar um professor universitário, posso interpretar um psicanalista, podia interpretar um intelectual, apesar de não ser um intelectual, ou posso interpretar um tipo mais modesto.

Posso ser como Broadway Danny Rose ou podia interpretar um pequeno angariador de apostas ou um qualquer tipo de vigarista porque era capaz de fazer isso. O verdadeiro eu está mais perto do pequeno vígaro, mas posso interpretar os dois tipos de personagens."

Para um homem brilhante que compreende as muitas nuances do impulso humano, Woody é obstinadamente anti-psicológico (ou simplesmente cauteloso em público), decidido a dizer que nenhum dos seus filmes reflectem o que quer que seja da sua vida pessoal.
"Sinto sempre como se estivesse sempre a fazer o mesmo processo. Eu não os faço de forma diferente. Eu não sinto nenhuma sensação de libertação na Europa. Eu não sinto que faça filmes felizes quando estou feliz e filmes tristes quando estou triste. Eu não sinto que faça filmes autobiográficos. Eu não era particularmente feliz, ou a passar um bom momento da minha vida, quando fiz 'O Inimigo Público' e 'Bananas'. Esses são dois dos meus filmes cómicos mais patetas. Por outro lado, quando fiz 'O Sonho de Cassandra' e 'Match Point' estava a atravessar um período maravilhoso da vida. Estes têm sido anos muito bons para mim. Eu tenho um excelente casamento, filhos óptimos. Não há um plano ou uma agenda ou algo parecido. É sorte. É o acaso."

O único impulso que reconhece ter é o de trabalhar, como um maníaco, como se estivesse a afastar a morte. "É uma forma de lidar com o mundo. Sabe, da mesma maneira que alguém lida com o mundo sendo um coleccionador de selos ou um viciado em desporto ou um gigante da indústria ou um alcoólico ou qualquer coisa. A minha forma de lidar com os horrores da existência é pôr-me a trabalhar duramente e não olhar para cima."

Muitas das pessoas que vão ver o seu novo filme deliciar-se-ão com a comédia e com a possibilidade de passarem 90 minutos banhadas de sol em Barcelona. Mas, ele nota, a sua fábula espanhola é de facto "um filme muito triste". Este é, afinal de contas, o universo de Woddy Allen, não interessa em que continente é que é passado, ou quantas gargalhadas são dadas. Ninguém consegue o que deseja.

"Uma relação é como dois grupos de fios que estão espalhados por toda a parte e todos têm de se ligar", diz. Ele usa os dedos para demonstrar, tocando suavemente uma mão com a outra. Elas são delicadas e surpreendentemente jovens, mas a sua atitude acerca do amor é fatalista. "Se um dos fios não se ligar, então não funciona. É como se faltasse uma coisa. Falta o sal na dieta. É uma pequena coisa, mas dá cabo de nós. Morremos."