Crítica

O agente secreto no seu labirinto

Vencida a batalha do relançamento do "franchise" 007 com o excelente "Casino Royale", reinvenção inteligente do super-espião James Bond para o século XXI introduzindo no papel Daniel Craig, os "guardiões" Michael G. Wilson e Barbara Broccoli levam a renovação da máquina ao patamar seguinte, entregando improvavelmente a direcção do filme 22 da veneranda série ao suíço Marc Forster ("Monster''s Ball - Depois do Ódio", "Contado Ninguém Acredita", "O Menino de Cabul").

À imagem do que Martin Campbell fizera em "Casino Royale", também "Quantum of Solace" (título abstruso, retirado a um conto de Fleming mas aplicado a um guião original) foge a algumas das tradições da série, logo a começar pela "regra" que implicava que todas as aventuras de Bond eram independentes das anteriores: aqui, a acção arranca no ponto exacto em que o anterior terminava, naquela que é a primeira sequela oficial nos 22 filmes da série.

Forster prolonga a "circunscrição" que "Casino Royale" introduzira, sugerindo um Bond que tenha feito dieta e treino físico intensivo: eliminou-se impiedosamente toda e qualquer "palha" acessória para deixar apenas a musculatura de um filme de acção cosmopolita e espectacular que se quer espelho do mundo moderno (o vilão Mathieu Amalric é um executivo ambientalista com segundos motivos, Bond é demasiado individualista para deixar os seus chefes políticos descansados), o que explica a sua duração atípica (com 1h45, é o Bond mais "curto" de sempre). Mas, ao contrário do filme anterior, isso acaba por tornar "Quantum of Solace" numa espécie de versão "genérica" do "medicamento" Bond, presa entre o respeito pela tradição da série e a necessidade constante de a reinventar. Um excelente pósgenérico pelos telhados de Siena é demasiado derivativo da série Bourne, mas a "Bond girl" de serviço (Olga Kurylenko, num papel quase decalcado de Claudine Auger em "007 Operação Relâmpago") está mais próxima dos filmes Connery-Moore do que das actrizes mais determinadas de filmes recentes como Eva Green, Michelle Yeoh ou Sophie Marceau.

Mais à frente, o esplendoroso hotel no deserto criado pelo cenógrafo Dennis Gassner recorda-nos os tecnológicos covis de vilania que Ken Adam desenhou para a série durante décadas, mas a quantidade "nonstop" de cenas de acção (compensando o seu uso parcimonioso no anterior "Casino Royale") praticamente afoga a densidade psicológica que se queria uma das pedras basilares do "novo" Bond, tornando Daniel Craig numa eficiente máquina de matar mais do que o agente secreto complexo que se pretende.

Entre modernidade e tradição, Marc Forster procura um equilíbrio que não consegue atingir, e assina um Bond atípico, um pouco esquizofrénico, que quer agradar a gregos e troianos e acaba por não consegur convencer nem uns nem outros. "Quantum of Solace" cumpre o caderno de encargos enquanto filme de acção, mas depois da refundação de "Casino Royale" era legítimo esperar muito mais do que aquilo que nos dá.