Crítica

Os portugueses

Esta dupla, Tiago Guedes e Frederico Serra, começa a habituar-nos... Ou dito de outra forma: não fazendo questão de explicitar, com as palavras e com as imagens, discurso algum sobre "autoria", Guedes e Serra, com a cumplicidade do argumentista Rodrigo Guedes de Carvalho, dedicam-se a experimentar. O terreno onde o fazem é híbrido, nem tanto ao mar (o cinema dito de "autor"), nem tanto à terra (o cinema dito "comercial"). E começamos, de facto, a habituar-nos a encontrá-los onde não os esperamos. (Ou dito de outra forma ainda: foi longo o caminho desde uma curta chamada "O Ralo", de 1999).

"Coisa Ruim" (2006) já era um filme ao lado - do "filme de terror", género com que jogavam a publicidade, o cartaz, o "trailer", género com que Guedes e Serra jogavam. O núcleo que às tantas encontrávamos revelava-se outra coisa, provavelmente outro género, certamente uma obsessão: família. O risco que correram - eles, que fizeram "Coisa Ruim"; nós, espectadores, que o vimos - foi o de permitir que sobrasse algo para os lados: ao ficarmos apenas com o que nos interessava, que sendo o mais escondido, estava lá, escolhíamos o "nosso" filme (naquele caso: um filme sobre a família) e deixávamos o resto de lado.

"Entre os Dedos" aumenta os riscos: não há um género a que nos agarremos, mesmo se depois do encontro Altman/Carver/depressão em "Shortcuts-Os Americanos", o "puzzle" de personagens é algo que faz género (sendo assim, devemos chamar ao encontro Guedes/Serra/ Guedes de Carvalho/depressão "Entre os Dedos - Os Portugueses"?). O filme arrisca passar todo ele entre os nossos dedos, desaparecer, nem chegar a materializar-se. É um desafio que a dupla (ou o trio) mantém, e a coisa seria de espantar se isso acontecesse sem danos: apanhar o realismo através das portas, nos vultos, na atmosfera, deixar para os lados (para a televisão?) psicologia, biografia, causalidade; reunir actores que pedem espessura e tirar-lhes, com o acordo deles, o tapete, reduzir-lhes as hipóteses de fazerem o seu "número", torná-los fantasmas (quem encontra por ali Eunice Muñoz?); fazer o espectador "apanhar boleia" com as "personagens" em vez de as entregar de bandeja (não é por acaso que o melhor cinema em "Entre os Dedos" está dentro de uma carrinha - veja-se o filme, não é metafórico... -, é aí, nessas sequências de personagens em trânsito que a máquina de cinema se permite ser tão frágil, tão livre como o que era suposto aprisionar).

É claro que há danos, bengalas incorrigíveis que contradizem o que acabou de se dizer: por exemplo, o "segmento" Lavínia Moreira/Luís Filipe Rocha, filha e pai, está "escrito" e interpretado como mais nada no filme - parece, aliás, que vem daquele tipo de filme que "Entre os Dedos" tenta evitar. Mas encontremos o "nosso" filme: uma exploração pelos domínios do atmosférico que é uma experiência com risco sempre que tacteia em vez de agarrar. E se não desbrava caminhos novos, faz figura de "antena". Cinematográfica e social. E assim eram os portugueses...

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