Balanço

CDS-PP: Um ano depois, Paulo Portas quer partido a crescer sozinho

Pontaria ao Governo, processo ao ministro Jaime Silva e críticas internas marcam o reinado de Paulo Portas
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Pontaria ao Governo, processo ao ministro Jaime Silva e críticas internas marcam o reinado de Paulo Portas Carlos Lopes (arquivo)

O anúncio da estratégia do CDS-PP para as próximas eleições marcou o final do primeiro ano de regresso de Paulo Portas à liderança dos democratas-cristãos, durante a qual fez pontaria ao Governo, processou um ministro e ouviu críticas internas.

Após um ano "virado" para a oposição ao Governo sobretudo nas áreas fiscal, educação, saúde e idosos, Paulo Portas entrou em discurso pré-eleitoral ao definir as prioridades do CDS-PP para o próximo ciclo eleitoral de 2009.

O crescimento do CDS-PP para "tirar a maioria absoluta ao PS" e recados ao PSD avisando que os democratas-cristãos não serão "boleia de ninguém" foram as linhas principais do discurso de Paulo Portas, no encerramento das jornadas parlamentares do partido, terça-feira passada.

"Quando decidi candidatar-me à presidência do CDS fui muito claro. A prioridade do CDS é crescer. Não estamos à espera da boleia de ninguém nem estamos para dar boleia a ninguém. O país precisa de uma direita mais forte e o CDS é muito diferente do PSD", afirmou.

Portas anunciou em Março do ano passado que queria voltar à liderança do CDS-PP tendo sido eleito a 21 de Abril com quase 75 por cento dos votos, após um processo polémico que culminou no afastamento de Ribeiro e Castro da liderança.

No plano interno, o ano de Portas foi de consolidação como líder, com as vozes críticas a fazerem-se ouvir, mas sem se apresentarem como alternativa.

As críticas surgem sobretudo por parte de militantes afectos à direcção anterior de Ribeiro e Castro, que começaram por criticar o mau resultado eleitoral do partido nas intercalares de Lisboa.

Logo a seguir à derrota, os "castristas" foram ao Conselho Nacional pedir a Portas que ficasse no partido "para se enterrar até ao fim".

Apoiantes de Ribeiro e Castro como Martim Borges de Freitas e o histórico Narana Coissoró têm lançado regularmente críticas a Portas por posições assumidas e pelos resultados do partido, que surgiu com 6 por cento nas últimas sondagens.

Insatisfeitos com o rumo do CDS-PP, vários ex-dirigentes e militantes, entre os quais Ribeiro e Castro e o deputado José Paulo Carvalho organizaram "clubes de reflexão" enquanto outros membros da anterior direcção, como Pedro Pestana Bastos e Pedro Melo, apresentaram o movimento Alternativa e Responsabilidade.

Este último grupo recuou na decisão de disputar a distrital de Lisboa do CDS-PP ao deputado António Carlos Monteiro, com críticas à forma como o partido conduziu o processo eleitoral interno, antecipando-o, o que foi visto como o "fechamento de um partido que tem medo" de novas ideias.

As críticas surgiram também devido aos casos judiciais que envolveram ex-ministros do CDS-PP. Anacoreta Correia e Narana Coissoró defenderam que a credibilidade do líder democrata-cristão e do CDS-PP está prejudicada em consequência desses casos, que consideram mal explicados.

Em Julho de 2007, o antigo mandatário financeiro do CDS Abel Pinheiro foi acusado de tráfico de influências no âmbito do processo Portucale, aguardando o início do julgamento.

O "caso Portucale" relaciona-se com o despacho que declarou a "utilidade pública" de um projecto do GES para um empreendimento turístico na herdade da Vargem Fresca, em Benavente, autorizando o abate de mais de 2.500 sobreiros e que foi assinado pelos ex-ministros Costa Neves (Agricultura), Nobre Guedes (Ambiente) e Telmo Correia (Turismo), mas os ex-governantes ficaram de fora do despacho de acusação.

Outro caso que envolveu directamente o líder do CDS-PP e ex-ministro da Defesa Paulo Portas surgiu na campanha das intercalares de Lisboa, com notícias que davam conta de suspeitas de financiamento ilegal do partido e dúvidas sobre o concurso de compras de submarinos, alegadamente a partir de informações que constam do processo Portucale.

Nessa altura, Paulo Portas anunciou que iria processar o Estado por violação do segredo de Justiça no âmbito do caso Portucale e exigir uma indemnização.

O caso mais recente, do Casino de Lisboa, envolveu o nome do ex-ministro do Turismo Telmo Correia e deu origem à abertura de um inquérito pela Procuradoria-Geral da República.

Um alegado favorecimento à Estoril-sol para impedir que o edifício do Casino de Lisboa, situado no Parque das Nações, revertesse para o Estado foi desmentido pelo ex-ministro Telmo Correia.

Mais recentemente, o que começou com críticas de Portas à política do Governo para o sector da agricultura acabou num processo judicial.

Portas, que tinha acusado Jaime Silva de praticar uma "política de calote" aos agricultores, foi surpreendido quando na resposta o ministro o acusou de dar "calotes políticos" referindo os casos Portucale e do Casino de Lisboa, o primeiro a aguardar o início do julgamento e o segundo em investigação.

Paulo Portas contratou o advogado e ex-dirigente do PCTP/MRPP Garcia Pereira para o defender num processo em que se diz prejudicado no direito ao bom nome.

Na oposição ao Governo, Paulo Portas concentrou-se em temas como a educação, a saúde, as pensões, a política fiscal, os "abusos do fisco" sobre os contribuintes, defendendo até "sanções" para os dirigentes da administração fiscal que cometam irregularidades.

Nas últimas semanas, Portas insistiu no que considera serem "os recuos do Governo" por "força da pressão" do CDS-PP, entre os quais a decisão do executivo de abrir concurso este ano para a admissão de mais efectivos da GNR e PSP e a alteração das custas judiciais nos processos de adopção.

Críticas à Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (ASAE) que acusa de ser uma "polícia do gosto" foram feitas pelo CDS-PP, o primeiro partido a propor uma comissão de inquérito à supervisão das alegadas irregularidades no BCP, que foi chumbada pela maioria PS.