Crítica

A angústia do skater no fim do globo terrestre

Daqui de longe, Portland, Oregon, é muito céu e nuvens. Gus van Sant já nos tinha convencido disso ao telefone, no ano de "Elephant", e não era preciso muito, vê-se céu, sempre, nos filmes de Gus van Sant. Daqui de longe, Portland é a paisagem dos filmes dele.

Mas é também o local, por exemplo, para onde se mudou, de Nova Iorque, um cineasta como Todd Haynes, o homem de "Longe do Paraíso" e da aguardada (anti-)biografia de Bob Dylan, "I"m not There"; Haynes deixou o Leste para ir viver para o Oeste. O que faz suspeitar, daqui de longe, que haverá algo de especial em Portland. Mesmo sabendo que correr atrás do indefinível é gesto que desemboca no logro, insistimos, e insistimos com alguém que passou a infância e cresceu ali, em Portland: Blake Nelson, escritor norte-americano.

"Penso que Portland tem um negrume que não é igual a nada do que eu conheça. Também parece ser um sítio no fim do globo terrestre. É como se fosse um dos extremos da civilização "ocidental". É um "posto avançado", lá longe nos bosques, lá longe de qualquer coisa. Dessa forma, é um local muito fatalista e negro na minha imaginação. Sombrio. Mas também tem uma influência asiática. Está mais perto do Japão do que da Europa. Por isso há qualquer coisa "zen" no ar. E uma estranha convicção nas pessoas, que é alheia aos ocidentais. E sim, parece haver muita gente interessante em Portland neste momento. Não apenas realizadores de cinema, músicos também. Talvez seja este o momento de Portland". Confere. Lembramo-nos outra vez da conversa de há anos com Gus van Sant. Dizia: pelo facto de Portland não ser Nova Iorque, não estar no centro das coisas, as pessoas eram especialmente interessantes, ainda mais interessantes provavelmente - juraríamos que foram as exactas palavras dele.

Dostoievski à cabeceira

"Lá longe nos bosques", longe de qualquer coisa, um local "fatalista" e "negro", "sombrio": fiquemos com esta ideia de "fim" que existe em Portland (suspendamos o que parece estar a nascer ou já terá nascido na cidade, uma "cena"), e assim começa a explicar-se que a imaginação de Blake Nelson se tenha lembrado da vertigem do Dostoievski de "Crime e Castigo" e de "Cadernos do Subterrâneo", obras que o escritor americano teve à cabeceira ou debaixo do braço enquanto escrevia "Paranoid Park", o livro (editado pela Relógio d"Água) que o realizador Gus van Sant transformou num filme que esta semana chegou às salas portuguesas.

"Crime e Castigo" aparece citado na epígrafe de "Paranoid Park"; de "Cadernos do Subterrâneo" retirou Blake Nelson a estrutura de carta/confissão/diário de um anti-herói. Já não se sabe quem começou a dizê-lo, mas o livro, e por arrasto o filme, passaram a ser descritos como ""Crime e Castigo" em skate". Claro está: a narrativa do americano Nelson é uma superfície suave, deslizante - mesmo que tenha um rasgão brutal lá pelo meio - se comparada com a convulsão niilista e o nojo do russo. Mas a superfície é mesmo escorregadia, e quando damos por isso estamos com a personagem principal, um jovem "skater", suspensos à beira de um abismo metafísico: ele matou, num acidente, quando andava a apanhar comboios em andamento, e a sua consciência foi testemunha, o que não é menor castigo, antes pelo contrário. E contar isto não é um "spoiler"; é mesmo questão que o leitor saiba, única forma de partilhar os dilemas deste "skater".

Sobre o filme de Gus van Sant se poderia dizer o mesmo. É que o realizador permanece completamente fiel ao livro, mesmo sendo-lhe completamente infiel na estrutura, baralhando e dando voltas ao tempo, que é o que vem fazendo nos seus últimos filmes, "Elephant" ou "Last Days". "Ouvi alguém dizer", nota Blake Nelson, "que Gus tinha originalmente uma versão cronologicamente mais linear". Como no livro. "Mas depois decidiu montar de forma menos linear. Gosto dessa coisa de "mexer com o tempo". Acho que uma das razões pelas quais isso está a aparecer agora na arte é que nós, humanos, estamos a ficar sem tempo e por isso fingimos que o tempo não existe. Estamos em negação, provavelmente". Provavelmente. Mas pode haver uma razão - não diremos mais prosaica, porque nada há de prosaico no cinema do realizador de "Elephant", no seu dispositivo formal - da ordem da eficácia: certamente Gus van Sant percebeu que enquanto Blake Nelson, a escrever, se coloca sempre no ponto de vista do seu protagonista, dentro dele mesmo, Gus, quando realiza, coloca-se sempre mais de lado, porque ao lado das figuras razoavelmente passivas que a câmara acompanha. (Poderíamos mesmo dizer que só na sua estreia na longa-metragem, "Mala Noche", Van Sant fez corpo com alguém que deseja; a partir daí, dedicou-se a observar os que eram desejados; ou seja, passou de Jean Genet a Andy Warhol). Por isso, a necessidade de, com os cortes temporais - e com os vários suportes e formatos que utiliza, como "samples", para montar a espantosa musicalidade (híbrida) deste filme - criar permanentemente no ecrã micro-acontecimentos, uma tempestade eléctrica que hipnotize o espectador.

"Coloco-me sempre na posição do miúdo", reconhece, por seu lado, o escritor. "Para mim escrever é como interpretar. Mergulho profundamente na pele daquela pessoa e regresso assim ao mundo, como se fosse aquela pessoa, e vejo o que então me acontece. É como quando somos crianças e estamos a brincar ao Caminho das Estrelas e dizemos aos nossos amigos: "Eu quero ser o Spock" e no resto do dia só fazemos as coisas que o Spock fazia, mas fazêmo-las também como as faríamos tentando ser Spock. Quando escrevo um livro como "Paranoid Park", transformo-me naquele miúdo, depois escrevo a história como ela se desenrolasse através dos olhos dele." (E nós, Blake Nelson, estamos também a aproveitar o seu olhar de autor de um romance para ler o filme de Gus van Sant...)

Adolescentes do "american lifestyle"

"Em todos os meus livros para adolescentes utilizo a minha memória emotiva, para mostrar como dói ser rejeitado por amigos ou por paixões amorosas, como é difícil viver em família quando se é jovem. No meu caso, também, como aprendi que podia estar sozinho e estar "okay"". Blake Nelson distingue: vê na sua obra livros que escreveu "para adolescentes" ("Girl", o primeiro, escrito por um admirador confesso do "American Psycho" de Bret Easton Ellis e dessa geração; ou "Rock Star Superstar", o livro que Van Sant na verdade queria adaptar, antes de Nelson lhe ter enviado "Paranoid Park") e "para adultos" ("Exile", sobre um poeta em dificuldades; "User", o seu "livro sobre sexo e drogas", ou "Prom Anonymous").

"Mas também estudo Portland como cidade e como ambiente urbano. Mesmo se estou a viver fora da cidade, visito-a muitas vezes. Vou aos novos lugares frequentados por miúdos. Vejo o que se está a passar. Que cenas da rua se estão a passar, por que tipo de música um determinado tipo de pessoas se está a interessar. O Burnside Skate Park, que na verdade é o sítio real que serviu de modelo ao Paranoid Park do livro, existe há anos e é um local fascinante. Foi construído por miúdos da cidade, é mantido por eles e durante anos foi um dos grandes recintos de "skate" do mundo. Descobri-o um dia quando estava a andar de bicicleta. Está ali há anos. A maior parte dos miúdos de Portland conhece-o. Os "skaters" de todo o mundo sabem que ele existe". Tanta pesquisa, que pode denotar angústia excessiva pela obtenção da credibilidade da rua (tanto Blake como Van Sant, nos tempos em que tinham idade para isso, gostavam de apanhar comboios em andamento), poderia erradamente levar a pensar que "Paranoid Park", o livro, está demasiado cheio de "agora"... erradamente, porque há algo de intemporal, de clássico, que remete para o tempo dos livros e dos filmes (os "film noirs") de outros tempos americanos. "É uma questão interessante. É um tema tão "noir". E no entanto não sou fã do "noir", de forma alguma. O meu ângulo é, de facto, mais o de Dostoievski", sublinha Blake Nelson.

E o que é que os seus miúdos (americanos) sabem do mundo? "Será que os miúdos hoje percebem as coisas terríveis que estão a ser feitas para que eles mantenham o seu extravagante "american lifestyle"? Eu acho que sim. Mas são mimados e egoístas e não se importam. Isso é natural, contudo. São miúdos. É da natureza dos miúdos serem egoístas. Eu sou religioso. Mas não penso nas minhas convicções religiosas quando escrevo. Penso naquilo em que pensaria a minha personagem. Por isso, em termos de Deus, penso que este miúdo [de "Paranoid Park"] está provavelmente a crescer sem "background" religioso consistente, e isso é uma coisa bastante comum na América. E no entanto, apesar de toda a confusão, os americanos acreditam em Deus e têm neles a fundação espiritual básica: rezam quando algo de mal lhes acontece, e não pensam nisso na maior parte do resto do tempo. No livro, o miúdo invoca Deus da forma mais óbvia no chuveiro e acho que foi óptimo Gus ter feito a sua própria versão da cena com a câmara lenta, a música... Talvez tenha sido essa a forma de Gus invocar Deus. De qualquer forma, é a minha cena favorita" - e deve dizer-se que ao chamar-lhe "cena do chuveiro" nos lembramos do "Psico", de Hitchcock (de que Gus van Sant em tempos fez um "remake" cena a cena), com uma banda de som que podia ser digna das bicadas de "Os Pássaros"...

E perguntamos se, nesse caso, a personagem do seu filme deve ser olhada como representante de uma geração ou dos dilemas de uma geração. "Não, mas de facto tentei fazer da personagem do filme uma personagem vulgar, dando-lhe as características mais universais que podia. Será que o dilema deste rapaz é a metáfora da luta da sua geração? Não sei. Agora que penso nisso, talvez seja." E Blake deixa-nos com notícias não do "subterrâneo" mas daquilo que é ser um escritor, na América, "que gosta mais das coisas menos tradicionais do que do material "middle of the road"." "É muito difícil sobreviver como escritor na América. Não há Michel Houellebecq"s na América [autor francês de "Plataforma"]. E os jovens escritores que estão a tentar escrever na tradição de gente como Henry Miller ou Charles Bukowski são obrigados a fazer edições de autor. Se se quer fazer desta profissão um modo de vida é preciso descobrir uma forma inteligente de introduzir a nossa ambição artística num livro. É preciso que pareçamos estar a escrever um livro normal sobre gente normal. Como disse alguém um dia sobre os filmes de Hollywood: "Podes ser tão artístico quanto quiseres, desde que não sejas apanhado"."