Sindicato diz que o Governo entra em contradição

Lisboa: utentes concentram-se no Saldanha contra fecho do Hospital do Desterro

Os utentes admitem que o hospital está degradado mas querem primeiro um substituto
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Os utentes admitem que o hospital está degradado mas querem primeiro um substituto PÚBLICO (Arquivo)

A União dos Sindicatos de Lisboa (USL) e o Movimento dos Utentes dos Serviços Públicos (MUSP) organizam hoje uma concentração no Saldanha, em Lisboa, seguida de uma caminhada até ao Ministério da Saúde, em protesto contra o anunciado encerramento do Hospital do Desterro.

A USL, afecta à central sindical CGTP, acusa o Governo de contradição e de subverter o princípio constitucional de um serviço de saúde tendencialmente gratuito.

Arménio Carlos, da USL, espera "largas centenas de pessoas" na marcha para o ministério, onde as duas organizações vão entregar 20 mil assinaturas contra o encerramento do hospital e algumas urgências de centros de saúde.

Os manifestantes pretendem exigir o respeito pela Constituição, no sentindo de que o serviço de saúde seja tendencialmente gratuito e não tendencialmente pago. Contudo, a principal exigência é o não encerramento do Hospital do Desterro, pelo menos enquanto não existirem alternativas para as "50 mil consultas externas anuais de dermatologia, urologia, cirurgia e medicina".

Arménio Carlos admitiu que o Hospital do Desterro está degradado, tal como o dos Capuchos, de Santa Marta e de S. José, mas defendeu que primeiro se construam novos hospitais e só depois se substituam os actuais, que funcionam em antigos conventos.

"Não pode ser encerrar e depois construir, sem se saber quando, tanto mais que vários grupos privados estão a construir hospitais à volta de Lisboa", afirmou.

No entender do sindicalista, pretende-se "transferir os doentes dos hospitais públicos para os privados", o que significa "desrespeitar o princípio" do Serviço Nacional de Saúde.

"Queremos saber o que o Ministério da Saúde quer fazer, queremos que o ministro seja claro e exigimos dele clarividência e objectividade nas questões", concluiu.

Segundo o sindicalista, o Governo entrou em contradição porque, por um lado, aumentou as taxas moderadoras para forçar as pessoas a recorrer mais os centros de saúde e, por outro, encerrou as urgências dos centros de saúde.

Para falar sobre estas questões, a USL pediu audiências ao ministro da Saúde e à Administração Regional de Saúde de Lisboa, entre outras entidades, mas até agora não obteve resposta.

Para além do encerramento do Hospital do Desterro, no futuro o Governo pretende fechar também os hospitais de S. José, dos Capuchos, de Santa Marta e a maternidade do Dona Estefânia, referiu o sindicalista, considerando depois que o objectivo do Executivo é "uma redução significativa do investimento do Estado [na saúde] e a entrada de grupos económicos e financeiros para fazer da saúde outro grande negócio do século".

Depois, acrescentou, o Governo tem ainda como objectivo "transferir os encargos da saúde para as famílias portuguesas". Em Portugal os utentes pagam cerca de 30 por cento dos encargos da saúde, mas nos outros países europeus esta verba não chega aos 20 por cento.