Crítica

O escritor também é o assassino

É aquela altura do ano em que as nomeações para os Óscares despejam sobre nós todos os filmes bem-intencionados de prestígio sobre temas "difíceis" que de outra maneira talvez fossem enviados directos para DVD. É aquela altura do ano em que Hollywood gosta de afixar as suas credenciais liberais e mostrar que também sabe produzir filmes de qualidade, de gravidade, de arte e ensaio. "Capote" cumpre na perfeição esse programa ao mesmo tempo que atira uma chave inglesa para o meio da engrenagem: o filme de Bennett Miller, baseado num livro de Gerald Clarke, é frio, distante, pensativo, menos um "biopic" tradicional de um artista famoso do que uma exploração fascinante do processo criativo.

Porque "Capote" não é a história da vida de Truman Capote, mas sim a história da criação de "A Sangue Frio", o "romance de não-ficção" que escreveu sobre o caso verídico de um crime no Kansas rural de 1959, em que uma família inteira é assassinada a sangue-frio por rapazes locais.

Claro que tudo aqui gira à volta da "performance" de impecável mimetismo de Philip Seymour Hoffman que muitos juram a pés juntos ir-lhe dar o Óscar de Melhor Actor - e é inegável que "Capote" existe por e para Hoffman, igualmente investido como produtor do filme. Mas é uma das mais desconfortáveis interpretações jamais nomeadas para um Óscar, graças à recusa terminante do filme e do actor de fazerem de Truman Capote um herói nominal, oscilando untuosamente entre o encantador de serpentes, o sedutor sem escrúpulos e o monstro egoísta e insensível. Hoffman faz de Capote, por trás dos maneirismos que podem irritar muito boa gente como superficiais, um ser humano frágil e amedrontado que descobre horrorizado até onde é capaz de ir em nome da sua musa, quando compreende que tem de cumprir as expectativas que ele próprio se criou quando anunciou que o seu próximo livro iria mudar radicalmente a face da literatura americana. E à sua volta orbitam outros tantos magníficos actores que funcionam, de alguma maneira, como "vozes da razão" que circulam à volta do autor perdido no seu labirinto, fascinado pelo assassino com quem sente uma afinidade: Perry Smith (uma igualmente magnífica, mas injustamente não reconhecida, interpretação de Clifton Collins Jr.). Perry Smith a quem Capote seduzirá para lhe contar a sua história, com o qual criará uma intimidade emocional inesperada - e que o fará pagar o preço das expectativas.

É demasiado fácil cair na alusão homoerótica no fascínio de Capote por Perry, e o filme não hesita em afastá-la do caminho, preferindo sublinhar que o que se joga nas conversas entre o escritor e o assassino é antes uma espécie de subterrânea irmandade do "outsider" - ambos são figuras fora da sociedade normal, que, como diz Capote a certa altura, sairam de casa apenas por portas diferentes. Como quem diz "pela graça de Deus não sou eu no lugar dele". E é essa identificação que ganha o filme de Bennett Miller, que começa anónimo para ganhar embalo, intensidade e emoção, à medida que a história segue inexoravelmente em direcção ao único final possível: a execução de Perry Smith. Que é também a morte criativa de Truman Capote, que nunca mais completaria um livro depois de "A Sangue Frio".

"Capote" é uma viagem pelos caminhos ínvios que se percorrem em nome da arte, uma interrogação sobre o monstro dentro de cada um de nós. E o título do livro - "A Sangue Frio" - não se refere, afinal, apenas aos assassinos; porque cada escritor é, também, um assassino, quando mata a coisa que ama em nome da sua arte.