Edição comemorativa amanhã nas bancas

"Trabalho militante" do Avante! faz hoje 75 anos

O jornal foi lançado na clandestinidade, em 1931
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O jornal foi lançado na clandestinidade, em 1931 DR

O Avante! celebra hoje 75 anos. Assumido desde a sua fundação como órgão central do Partido Comunista Português, PCP, o jornal é um caso único no mundo pela longevidade na clandestinidade e fora dela, sempre fiel aos seus princípios, assumindo-se sempre como órgão central do PCP. A receita desse sucesso, dizem estudiosos do fenómeno e quem nele participou, reside na sua estrutura enquanto jornal assente na concepção comunista do colectivo. E deve-se também aos seus "heróis".

António Dias Lourenço, dirigente histórico do PCP contou um dia como, disfarçado de trabalhador apressado, furou um pneu da bicicleta, que ficou presa no carril do eléctrico na Estrada de Benfica. Na bagagem, Dias Lourenço levava toda a tiragem, de 1500 exemplares, de uma das edições do Avante! clandestino. O pânico apoderou-se dele, quando viu aproximar-se um polícia. Mas, no final, o polícia ainda ajudou aquele modesto operário a arranjar o pneu.

Dias Lourenço, que, com Álvaro Cunhal, entre outros, asseguraram a publicação, na clandestinidade, do Avante!, de 1940 até à madrugada do 25 de Abril, sem falhas, acabaria por ser o primeiro director do Avante! legal, em Maio de 1974.

Para José Casanova, director há oito anos do Avante!, são estes os nomes a que hoje se deve o facto de se cumprirem 75 anos da primeira edição do jornal que se assume desde sempre como "órgão central do Partido Comunista Português": "O que me apaixona é a história heróica de gente do Avante! clandestino, de gente que morreu. Gente que desenvolveu um trabalho ao qual hoje queremos dar continuidade", afirma. "O Avante! era o úncio jornal que não ia à censura. Era a voz dos que não tinham voz e pensamos que continua a ser. O Avante! é um instrumento de trabalho militante".

José Moreira era responsável por uma das tipografias clandestinas que fazia nascer, a cada edição, o Avante! clandestino. Maria Machado foi a mulher que, reza a história, salvou outros de serem presos numa investida da polícia numa tipografia e que acabou ela na prisão e foi torturada. Joaquim Rafael, o mais mítico dos tipógrafos relacionados com o Avante!, morreu em 1974. E José Dias Coelho, pintor, era responsável por muitas das ilustrações do Avante!, foi assassinado em 1961. Folheadas as páginas da história clandestina do Avante!, 75 anos depois resta a homenagem a esses tempos. Gustavo Carneiro, de 27 anos, é um dos 11 jornalistas da redacção actual do jornal partidário. É a ele que cabe a coordenação da homenagem a quem fez o Avante! na clandestinidade - oito páginas na edição de amanhã que vão falar dos 75 anos do jornal do PCP. Uma edição que contará com uma tiragem maior que os normais 20 mil exemplares.

Para além das oito páginas de homenagem e da tiragem aumentada, o Avante! que amanhãestá nas bancas mantém-se como há 75 anos. Amanhã, mais uma vez, o cabeçalho emitirá a mesma máxima: "Proletários de todos os países uni-vos!" O que está por trás dessa longevidade e que lugar ocupa o título entre os jornais de hoje?

Fernando Correia, investigador nos media, foi jornalista do Diário de Lisboa e em 1974 subchefe de redacção do Avante!, na equipa que publicou o primeiro jornal legal. Ocupou o lugar durante 14 anos. Para ele o Avante!insere-se dentro da imprensa doutrinária: "A imprensa doutrinária tem legalidade constitucional. Tal como há a Rádio Renascença. Na redacção do Avante! nunca tivemos a fotografia do Álvaro Cunhal, como na Renascença há a do Papa. São jornalistas profissionais que ali trabalham, que assumem uma posição clara. Compra quem quer. Tem limitações óbvias, mas todos assumimos compromissos acerca do tipo de jornalismo que entendemos fazer. Não são mais, nem menos. São diferentes", conclui Fernando Correia.

José Pacheco Pereira, historiador e autor da biografia do líder histórico do PCP Álvaro Cunhal, classifica o Avante! como um jornal diferente: "É uma concepção comunista de um colectivo, é um instrumento de organização. Não é um jornal como os outros, corresponde a um conceito leninista de jornal como frente comunista, é um organizador colectivo." "É a estrutura organizativa interna do PCP que o sustenta. O jornal é a expressão da linha oficial do partido."

Ruben de Carvalho, vereador da Câmara Municipal de Lisboa, integrou, como chefe de redacção a primeira equipa do Avante! legal, a seguir ao 25 de Abril. O vereador comunista crê que esses momentos, os primeiros após mais de 40 anos na clandestinidade, foram cruciais para o sucesso do projecto. "Tínhamos a consciência de que era preciso ter uma redacção profissional e não apenas um grupo de militantes do partido que soubessem escrever", diz o antigo jornalista de O Século. "Isso foi um rasgo de compreensão do PCP, que era um partido com 50 anos de clandestinidade. A grande vitória foi ter conseguido conjugar as coisas. O Avante! não é um boletim partidário. Criou uma escola. Pode não se concordar com o que lá se diz, mas é um jornal feito com critério", diz o deputado comunista.