4 de Junho: quase setenta mil pessoas

Metallica no Rock in Rio: santo regresso

Os Metallica são os cabeças de cartaz de hoje
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Os Metallica são os cabeças de cartaz de hoje DR

O dia dedicado aos “headbangers” foi o que mais gente trouxe ao Rock in Rio até agora . 69 mil pessoas estiveram na cidade do rock a 4 de Junho. A música pesada move multidões como poucos outros estilos: os fieis vêm e o ritual cumpre-se. É dos Metallica o indiscutível troféu de melhor concerto da noite no palco mundo.

Ainda há bem pouco tempo, a ideia de voltar a ver ao vivo os gigantes do metal era tão desejada quanto longínqua. Lembramo-nos disso quando, minutos antes do concerto, passa nos écrans um excerto de um DVD rodado justamente na má fase que se seguiu aos álbuns "Load" e "Re-Load": o abandono do baixista Jason Newsted, o processo com o Napster, os problemas de dependência do vocalista James Hetfield e, enfim, o fantasma do desmembramento a pairar insistentemente.

Já sabíamos que os Metallica tinham dado a volta por cima: as curas de Hetfield, o novo baixista Rob Trujillo e, finalmente, o novo álbum "St. Anger" (o primeiro de originais desde 1997). O que não sabíamos – ou ainda não tínhamos testemunhado era a força imensa dessa rentrée. Vinte anos passados, transpiram mais do que nunca boa forma e convicção por todos os "riffs".

Eles são a banda de metal. E provam-no. Depois de "Blackened" e "Fuel" (já com pirotecnia à mistura), um James Hetlfield surpreendentemente sóbrio e limpinho agradece às bandas anteriores, mas avisa logo que os Metallica se preparam para nos levar para outro nível.

"Harvester of sorrow" dá o primeiro cheiro de virtuosismo da guitarra de Kirk Hammett. O despertar de memórias prossegue com os acordes de "Welcome home sanitarium". O alinhamento iria, aliás, privilegiar os momentos mais antigos, com o novo álbum claramente em desvantagem. De "St Anger" só viria o tema homónimo e o alucinado "Frantic". O resto faz-se com "Leper Messiah", "No leaf dover", "Sad but true", "Creeping death", "Battery", "Wherever I may roam", "Nothing elese matters" (momento à parte: os isqueiros não faltam à chamada, nem as vozes ao coro), "Master of puppets" (o público canta o... solo de guitarra), "One" (estamos agora em terreno de guerra e as explosões confirmam-no) e "Enter Sandman" (o mais explosivo, pirotecnia e fogo novamente incluídos).

Quem se enganou foi a banda, que pensava que os deixavam ir embora assim. Na verdade, se o concerto tivesse ficado por aqui, já tinha sido perfeito (à excepção da mácula que foi a pequena falha na entrada do grande One). Mas o público quis mais. E os Metallica lá vieram dar um bónus aos amigos barulhentos de Lisboa. Directamente do baú das memórias, lá vieram "Hit the lights" e "Seek and destroy". Ficam pelo palco ainda um pouco, passeiam-se junto aos fãs, atiram baquetas e palhetas. Passa das três da manhã e o trono é deles.

Incubus: um corvo deslocado

Os Incubus já provaram em passagens anteriores que são banda para encher o Pavilhão Atlântico, para mover fãs e para assinar álbuns – e concertos – dignos de registo nas listas de melhores do ano. Esta noite coube-lhes a tarefa ingrata de subir ao palco depois de toda a parafernália dos Slipknot e antes dos mestres Metallica. Começaram mornos e um pouco intimidados, mas acabaram por virar os contras a seu favor.

O concerto interrompe a escalada de peso em direcção aos gigantes, embora o alinhamento, inteligente, não esqueça a posição em que ficaram entalados no cartaz e proporcione um arranque em força com o excelente novo single "Megalomaniac".

O alinhamento é também um pouco arriscado. Evitaram o caminho fácil, que seria fazer desfilar êxitos atrás de êxitos. Se o fizessem, tinham ganho da mesma forma. Ou mais. Mas preferiram arriscar (até "Drive" saiu transformado) e isso só lhes ficou bem.

Assim, em vez dos quase obrigatórios "Pardon me" ou "Nebula", assistimos sobretudo à apresentação do novo álbum "Crow Left of the Murder". O restante tempo de antena é preenchido por canções como "Nice to know you", "Just a phase", "Wish you were here", "The warmth", "Take me to your leader", "Vitamin" ou "Idiot box". O chill-out acabou. Vêm aí os senhores do metal.

Slipknot: pesadelo in Rio

Quando a noite começa a cair, instala-se o circo do medo. Os Slipknot estão na cidade do rock a promover o seu pesadelo, num excelente exemplo do que seria a banda de Freddy Krueger se ele se dedicasse ao metal. Só podia ser assim: brutal, vertiginoso, visceral. E com o seu quê de aterrorizador. O recém-lançado "Vol. 3: (The Subliminal Verses)" dá o mote a esta viagem às entranhas.

A viagem é alucinante, com as máscaras a substituirem expressões e o frenético pedal duplo usado ao limite a substituir o bater do coração. Na multidão misturam-se os fãs com aqueles que para já só estão à procura de uma razão para explodir em saltos "mosh pit"”.

O vocalista Corey Taylor é o dinamizador deste cenário grind e está com vontade de fazer história. Entre outros momentos, fica para a posteridade uma imagem difícil de descrever. Tentemos. Taylor pede a todos para se abaixarem. A plateia entra no jogo. A banda também está agachada. Imagine-se agora milhares de pessoas a saltar de uma vez só assim que Taylor dá sinal.

Do álbum novo chegam temas como "Three nil", "Duality" ou "Pulse of the maggots", todos bem recebidos. Mas os melhores pontos do concerto vão para canções mais conhecidas, como "Disasterpiece", "Spit it out", "Eyeless" ou "People = shit". Que tarefa difícil têm agora os Incubus.

Sepultura no Rock: demolição em pó

Um concerto dos Sepultura é como uma demolição instantânea. Já vem preparada. Basta juntar-lhe não água, mas muito pó, uma enchente (a maior até agora) de pessoas sedentas de forças brutais, alguns êxitos em carteira e... está pronto a servir. Às 20h30, quando os Sepultura deixam o palco mundo do Rock in Rio, fica um sabor de mais uma actuação avassaladora do grupo brasileiro.

Se os Moonspell têm o seu culto, os Sepultura não lhes ficam atrás no séquito. Ainda mais quando estão a tocar no palco de um festival brasileiro. O concerto foi directo, poderoso e sem surpresas de maior, muito semelhante ao que deram em Vilar de Mouros no ano passado. O álbum em exibição é o mesmo, "Roarback".

Lá estão os rugidos e a voz de Louis Armstrong se cantasse trash metal, pelo microfone de Derrick Green. O vocalista está cada vez mais integrado na banda, cada vez mais na frente e cada vez mais distante do pouco à-vontade que revelava nos primeiros tempos em que substituiu Max Cavalera. Está mais do que ultrapassado o estigma do "substituto". Green quase faz esquecer o seu antecessor. E quando se fala de alguém tão carismático como Max Cavalera, percebe-se o quanto isso pode ser difícil...

É muito dele que vem a garra que acompanha temas como "Refuse/resist", "Territory", "Arise" ou "Roots bloody roots" (esta sabiamente deixada para o final). Perante uma plateia em euforia "mosh", fixa os olhos no céu ainda claro, com o microfone apertado entre as duas mãos e uma presença em palco possante. O pedal duplo da bateria dá a vertiginosa aceleração desejada para um concerto demolidor.

Moonspell: a lição do feitiço

Não faltaram os fieis ao chamamento da mais internacional das bandas portuguesas no campo do metal. Que é, ao mesmo tempo, a que regista um culto mais consolidado, dentro e fora de portas. O culto transformou-se em ritual ao som dos Moonspell, que em plena tarde soalheira se viram obrigados a privar-se dos efeitos da lua cheia, reservada para os sons dos Metallica (antes, entram em palco Sepultura, Slipknot e Incubus).

Primeira lição a tirar em eventuais futuras edições do Rock in Rio em Portugal: há bandas portuguesas que movem multidões, que assinam espectáculos fantásticos e que deviam ser mais bem tratadas no cartaz. Exemplos? Xutos & Pontapés e, agora, os Moonspell.

Não que a banda da Brandoa se sinta intimidada com o que quer que seja. O vocalista Fernando Ribeiro lamenta o sol e promete uma lua cheia de grandes hinos para uma tarde inesquecível. E foi mesmo, a julgar pela vibração dos milhares de devotos. Ao centro da assistência, a bandeira portuguesa nas cores ideais: vermelho, verde, amarelo e... preto.

Fernando Ribeiro está apostado em agarrar o público no punho que ergue fechado. E quando a banda sai de palco, não duvidamos que leva o público nas mãos. Este, presta devoção ao pregador e rende-se a a uma prestação com o nível de qualidade, força e competência a que a banda já nos habitou. Momentos altos: "Vampiria", "Opium" e "Mephisto", com mãos erguidas com o símbolo em chifre e um cântico colectivo. "A melhor vista que já tive daqui", diz Ribeiro. O concerto foi idealmente "um passo na direcção do abismo". Com o cartaz que aí vem, alguém duvida?

Civic: o momento da vida deles

Objectivo cumprido: os Civic foram os vencedores do concurso de bandas promovido pelo Rock in Rio e aqui está o prémio principal. Cabe ao grupo português abrir o dia dos "headbangers" . São, provavelmente, o grupo de abertura que mais assistência teve até agora, num prenúncio da casa cheia que se avizinha.

Finalmente, as cores das bancas patrocinadoras do festival foram abafadas. Já não é o cor-de-rosa predominante que nos entra pelos olhos. É o negro que domina. É que este é o dia dos sons pesados (e também o dia dos preconceitos associados à música mais "agressiva" - logo à entrada, por exemplo, o pente da vistoria ao público é bem mais fino que nos outros dias...). A assistência mudou. A tribo do metal veio em peso, devidamente artilhada de roupa escura, tatuagens, cabelos compridos e tudo o mais.

Cabe aos Civic abrir as hostilidades. E eles fazem-nos transformando o peso da responsabilidade (e os muito compreensíveis nervos) numa actuação à altura do acontecimento (aliás, mais à altura do que outros grupos que já por ali passaram). A primeira nuvem de pó levanta-se e, por entre ela, vislumbram-se referências como Incubus ou Faith No More, num resultado que é um todo coerente e com boas ideias. A multidão aplaude e apoia os Civic, naquele que foi, certamente, o momento da vida deles.