Centenário do nascimento do pintor catalão

Salvador Dalí: o surrealista que persistiu na memória popular

Salvador Dalí
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Salvador Dalí DR

Salvador Dalí gostava de moscas, via-as como um símbolo de coisas boas. Gostava sobretudo dos seus olhos, compostos por milhares de minúsculas lentes. São olhos formados por uma manta de olhinhos, o que permite ao insecto ver em várias direcções ao mesmo tempo. Uma ideia que Dalí quis ver reproduzida na cúpula de vidro que coroa o Museu Teatro Dalí, em Figueres, a cidade catalã onde nasceu e morreu.

Hoje, no entanto, inverte-se a lógica da mosca: olhares de vários continentes voltam-se para um mesmo ponto, Figueres. É ali que esta manhã, pelas 8h45 locais, os "tambores de Calanda" - instrumentos tradicionais da Semana Santa - vão rufar à porta do nº 6 da Rua Monturiol. Tudo porque foi ali, há exactamente 100 anos, que nasceu o artista que nos habituou a relógios moles, elefantes com patas de aranha, ovos gigantescos e tantas outras imagens surrealistas.

Desde criança, o autor do quadro "Persistência da Memória" mostrou um comportamento irreverente e polémico. Primeiro dizia que queria ser cozinheiro, depois já queria ser Napoleão. Durante a juventude chegou à conclusão que era suficiente ser Salvador Dalí. Cultivou muito a imagem de um homem único e irrepetível - usava, por exemplo, pasta de tâmara para enrijecer o bigode e atrair as suas queridas moscas -, mas também o convívio com criadores. Picasso, Buñuel, Lorca, Miró, Freud, Éluard e André Breton são alguns dos seus amigos, uns mais próximos do que outros. Do contacto com Freud, por exemplo, traz a psicanálise como instrumento criativo. E do encontro com Éluard, traz a própria mulher do poeta - Gala, uma russa dez anos mais velha do que Dalí e com quem o pintor acabou por viver toda a vida.

O pintor catalão gozou em vida do reconhecimento que poucos pintores têm após a morte. Era diariamente solicitado por jornalistas, fotógrafos e criadores, até mesmo na sua recôndita casa em Port Lligat, Espanha. A sua estada nos Estados Unidos - onde se exilou a partir de 1940, passando antes por Lisboa (ver texto na página ao lado) - foi marcada por espectáculos e exposições de sucesso, tendo mesmo sido inaugurado no Ohio um museu em sua homenagem. Centros culturais de renome, como o Georges Pompidou, em Paris, organizaram mostras retrospectivas ainda nos anos 70.

A ausência de Gala

O centenário do pintor é celebrado na Europa e nos Estados Unidos, com concertos, teatro, dança, ciclos de cinema, seminários e edições de livros, catálogos e a sua obra completa. As iniciativas exploram as várias facetas de Dalí, um artista capaz de se expressar em diferentes linguagens e abolir hiatos entre aquilo que se convencionou chamar de popular e erudito. O resultado? Um trabalho que tanto está na parede de um museu, como na capa de uma revista, num perfume ou no padrão de um tecido. É o que mostra a exposição "Dalí: Cultura de Massas", que inaugurou em Barcelona a programação do "Ano Dalí 2004".


Curiosamente, nenhuma das iniciativas se dedica inteiramente ao papel de Gala na obra de Dalí. A sua musa e companheira não teve o mesmo espaço de figuras como Lorca e Gaudí. Apesar de ser indiscutível a participação desta mulher na vida do pintor, e de a sua força estar expressa por toda a parte - desde o nome da fundação do artista às figuras femininas nos quadros -, Gala parece não ser um nome consensual. Mesmo sabendo-se que após a sua morte, em 1982, Dalí começou a definhar e que no ano seguinte deixou de pintar.

Os corpos do casal não repousam no mesmo lugar - os restos mortais de Gala estão em Púbol e os de Dalí em Figueres. Apesar da cave do Castelo de Púbol dispor de duas urnas funerárias - e haver até mesmo um buraco entre elas, para que simbolicamente os amantes pudessem estar de mãos dadas -, o cadáver do pintor catalão acabou por ser depositado numa cripta no Museu Teatro Dalí.

"É um mistério que ninguém sabe explicar. O autarca de Figueres diz que Dalí lhe pediu para ficar em Figueres, mas não houve testemunhas disso. Estavam só os dois. Ou acreditamos nisso, ou no facto de Dalí querer estar ao lado de Gala, além ter mandado construir em Púbol uma cripta para o casal", explica Joan Vehí, que foi carpinteiro de Dalí por 35 anos. Ele acredita que ainda será possível transladar o corpo do mestre surrealista para junto do de Gala.

Jordi Artigas, coordenador da Casa-Museu Castelo de Púbol - um refúgio que Dalí ofereceu à sua amada -, considera que a musa e companheira pode ser vista como uma "infraestrutura" para Dalí, sem a qual não lhe era possível seguir em frente. "Ele era intelectualmente forte, tinha a força do pensamento, mas ela era o apoio, funcionava como uma comissária de exposição", diz o responsável. Josep Playà, comissário da exposição "O País de Dalí", corrobora esta ideia, lembrando que era Gala quem pagava as contas, cuidava da parte logística, lia os textos que o inspiravam e desempenhava uma série de funções de bastidores para que "o espectáculo Dalí acontecesse". Admirada por uns, odiada por outros, o facto é que esta mulher enigmática parece ser um nome quase incontornável cada vez que se pronuncia o nome Salvador Dalí.