Duas horas de concerto

Coimbra teve mais encanto na hora dos Rolling Stones

O público português não teve direito a encore, mas em compensação foi brindado com um minuto de fogo de artifício
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O público português não teve direito a encore, mas em compensação foi brindado com um minuto de fogo de artifício Paulo Novais/Lusa

Os Rolling Stones actuaram ontem à noite em Coimbra, num concerto considerado como o maior de sempre em Portugal e num espectáculo que aliou a tecnologia à entrega da banda em palco.

Horas antes do concerto, Coimbra ardia de excitação. "Estás a senti-la subir?", grita um jovem para outro no interior de um dos vários autocarros que a câmara disponibilizou (um euro por cabeça) para transportar os fãs até ao estádio. Refere-se à adrenalina, evidentemente. A terceira vinda dos Stones a Portugal é, para todos os efeitos, um acontecimento.

Para a imprensa, porém, a excitação é de outra ordem. Um sem número de exigências obrigam os jornalistas a permanecer fora do recinto uma hora e meia a mais do que o previsto. Depois de se falar na necessidade de ter que assinar um termo de responsabilidade, no final acaba toda a gente por entrar com um bilhete vulgar. Lá dentro o estádio está à pinha e os Xutos já disparam o seu rock'n'roll com pontaria. A seguir hão de tocar os Primal Scream e só depois entrará em cena a banda dos sexagenários que dá pelo nome de Rolling Stones. A expectativa é enorme.

Eduardo, 49 anos, director comercial, veio de Lisboa. Esteve em Alvalade em 1995 e comparece em Coimbra para ver se os Stones "ainda estão em forma". Espera ouvi-los tocar a sua canção favorita, "Simpathy for the devil". Um álbum do seu agrado? "'Sticky Fingers' - mas não se diz porque parece mal." Eduardo considera os Stones "uma memória, uma banda sem futuro", aproveitando para frisar que também está aqui para ouvir os Primal Scream, de quem recorda o álbum "Screamadelica".

Já o Carlos, 24 anos, é da opinião que "os concertos do grupo em Portugal são um marco". Veio de Lisboa e conhece o grupo há cinco, seis anos, através dos discos do pai "que andavam espalhados pela casa". Tem "expectativas muito altas" em relação ao concerto e confessa: "Nunca se sabe quando os Rolling Stones vão a qualquer país se é a última vez. Pode ser um acontecimento histórico!"

Miguel tem 45 anos e é médico dentista. Veio da Figueira da Foz "impreterivelmente" para ouvir os Stones. "Significam a minha juventude, horas e horas a ouvir músicas como '(I can?t get no) Satisfaction'". Trouxe consigo o filho, António, de 11 anos. "Foi ele que quis vir". Apesar de gostar mais dos Xutos e dos Red Hot Chili Peppers, o António também gosta dos Stones, citando mesmo a sua canção preferida, "Angie".

A excitação cresce entretanto. Os Primal Scream já estão em palco e os níveis de adrenalina continuam a subir. Mas não para todos. A Madalena, 18 anos, que veio de Vila Franca de Xira sem os pais, está aqui apenas "para se divertir". Embora ache piada aos Stones, o seu artista preferido é Bob Marley. Também indiferente ao rock ácido dos autores de "Screamadelica", o Carlos, 29 anos, guia-intérprete, veio directamente de Portimão. Os Primal Scream não lhe "dizem nada", por isso prefere ficar no bar a beber uma cerveja (imperial a 1,50 euros). Os Stones são outra coisa: "um grupo tão querido dos mais velhos como dos mais novos, apanham toda a gente dos 12 aos 70 anos". E remata: "São um caso único em que a teoria não conta. Na prática continuam a tocar como rapazes de 25 anos", diz, reconhecendo embora que "lá virá o dia em que dirão que acabou". Enquanto esse dia não chega, "continuam com a força toda". É a verdade nua e crua.

Já passa das 22h quando os Rolling Stones começam a tocar. A lenda do rock entra mesmo com a força toda, pondo de imediato a multidão em delírio, aos gritos de "Portugal! Portugal! Portugal!". Entram a todo o gás com "Brown sugar" e, uma vez mais, a magia "branca ou negra, pouco importa", acontece. Segue-se "Start me up" e os Rolling Stones e os seus fãs tornam-se uma pessoa só. Mick Jagger agita-se, salta e saúda em português: "Olá Coimbra, olá Portugal, é bom estar de volta!". Continua tudo igual, ou melhor, os Rolling Stones parecem confirmar que assinaram, de facto, um pacto com o diabo. A energia transborda e, a julgar pelo que se vê e ouve em Coimbra, o contrato não perdeu a validade.

Após as anunciadas duas horas de concerto, o público português não teve direito a "encore", mas em compensação foi brindado com um minuto de fogo de artifício.

Álcool e droga levam uma dezena de pessoas ao hospital

Porém, apesar do sucesso do concerto, nem tudo correu bem. Uma dezena de pessoas foi assistida nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) com sinais de intoxicação alcoólica e por drogas, disse hoje fonte da unidade.

Foi durante a noite que o maior número de pessoas que consumiram álcool em excesso e, num dos casos, droga, deram entrada nas urgências dos HUC, tendo ao longo da tarde sido assistidas quatro pessoas, disse à Lusa a mesma fonte.

Ao início da manhã de hoje, todas as pessoas já tinham tido alta hospitalar.

Durante a Queima das Fitas de Coimbra ou a Latada, duas festas estudantis que atraem também a Coimbra milhares de forasteiros, o número de intoxicações alcoólicas assistidas nos HUC chega quase a triplicar o número de casos associados à realização do concerto da mítica banda britânica, na noite se sábado, a que assistiram cerca de 45 mil pessoas.

A saída de Coimbra de grande parte dos espectadores foi "complicada, com a circulação muito intensa ou congestionada" até cerca das 05h00 da madrugada nas entradas para a auto-estrada A1, tal como aconteceu, nas horas que antecederam o espectáculo, disse fonte da Brigada de Trânsito da GNR da Mealhada.

Contactada pela Lusa, a PSP de Coimbra informou não ter registo de qualquer incidente relacionado com a realização do concerto, sublinhando que "correu tudo bem".