Crónica: O homem que não gostava de livros de instruções


A 8 de Agosto de 2000, o homem que mesmo nas situações mais difíceis conseguia transmitir tranquilidade e determinação estava quase fora de si. Ao aeroporto de Díli chegavam os corpos de três funcionários da Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, mortos em Timor Ocidental por membros das milícias pró-Indonésia. Sérgio Vieira de Mello não escondia a sua revolta. Os seus olhos molhados não se desviavam das urnas que saíam do avião. Os seus punhos cerrados e o corpo tenso revelavam uma indignação que nunca se lhe tinha visto nos meses que já levava de Timor.

Pouco depois, elevando a voz, afirmava que era preciso encontrar os assassinos. Dizia-o de forma revoltada, porque havia uma coisa que Vieira de Mello garantia não compreender: como é que alguém que dedica a sua vida a ajudar os que são vítimas podia ser visto como um alvo a abater.

A sua morte revolta agora todos os que o conheciam, porque Sérgio Vieira de Mello mostrou, em todas as missões em que participou e especialmente em Timor, que as pessoas, as vítimas, estavam em primeiro lugar no seu pensamento. Sempre.

É fácil recordar o homem de uma simpatia extrema, determinado e inteligente que conseguia transmitir como poucos os seus ideais. É fácil recordar o político brilhante que quando subia a um palco para discursar parecia fitar os olhos de cada uma das pessoas que o ouviam. Que aliava a cada palavra um gesto que acentuava uma elegância que lhe era natural. Que conseguia calar e despertar uma multidão como poucos. Que transmitia emoção e determinação quando falava sobre o que acreditava.

É fácil recordar com simpatia Sérgio Vieira de Mello, mesmo quando a sua teimosia deixava os nervos em farrapos aos seus interlocutores. É fácil recordar com simpatia e admiração Sérgio Vieira de Mello porque aquele carioca bem humorado, que sorria como um miúdo sempre que alcançava um objectivo, amava a vida com todas as suas forças e via o seu trabalho como uma ferramenta para conseguir um mundo mais justo, mais livre e com menos desigualdades.

Sérgio Vieira de Mello dizia frequentemente que a sua missão em Timor não tinha livro de instruções. Dizia-o com o orgulho de quem tinha vencido sem a necessidade de um guia regras para se orientar. Era assim que Sérgio Vieira de Mello gostava de viver. Morreu lutando para fazer este mundo melhor, mesmo sabendo, como ele próprio afirmou, que estava mais uma vez a trabalhar num terreno minado.

Luciano Alvarez/PÚBLICO




Atentado em Bagdad desafia as Nações Unidas e mata Vieira de Mello

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Um português, Ramiro da Silva, coordenador do programa alimentos por petróleo, terá ficado ligeiramente ferido Bullit Marquez/AP

Num ambiente de crescente insegurança, o ataque segue-se à mortífera explosão junto da embaixada da Jordânia, no passado dia 7, e à sabotagem do mais importante oleoduto iraquiano, no domingo, o que suscita interrogações sobre o objectivo escolhido, as Nações Unidas, e sobretudo quanto ao futuro da ocupação americana do território.

A explosão ocorreu às 16h30 locais (12h30 TMG) e a violência foi de tal ordem que fez desmoronar uma ala inteira do hotel e partiu os vidros das janelas num raio de dois quilómetros. As televisões mostravam destroços e imagens de pessoas em sangue, no ambiente irreal do "nevoeiro" provocado pela poeira. No edifício trabalhavam perto de 300 pessoas. Bernard Kerik, antigo chefe da polícia de Nova Iorque e conselheiro da nova administração iraquiana, admitiu à Reuters tratar-se de uma atentado suicida. Esta versão é confirmada por Fayez Sarhan, um funcionário da ONU, testemunha do atentado, que disse à AFP: "Vi um camião de cimento, de cor amarela, chocar contra o muro do recinto do hotel e explodir."

A explosão ocorreu perto da janela do gabinete de Vieira de Mello, situado no segundo andar. Ele ficou gravemente ferido e preso nos destroços, no rés-do-chão, com uma viga de betão sobre as pernas. Falou por telemóvel com pessoas da ONU, pedindo água. A última pessoa a vê-lo foi o seu conselheiro político, o antigo ministro libanês Ghassan Salamé. Entreviu-o do segundo andar e gritou-lhe "Sérgio". Ele respondeu: "Ghassan?". Mas demorou chegar até ele. Entretanto, deixou de atender as chamadas. Ao fim da tarde, a ONU anunciou a sua morte. Quando um segurança o conseguiu alcançar já estava frio. Morreu da hemorragia nas pernas. Salim Lone, porta-voz das Nações Unidas, admitiu que Vieira de Mello fosse o alvo do atentado. "Tudo aconteceu debaixo da sua janela. Acho que ele era o alvo", disse à BBC.

Um português, Ramiro da Silva, coordenador do programa "alimentos por petróleo", terá ficado ligeiramente ferido.

O hotel tinha uma segurança ligeira. Segundo o "Estado de São Paulo", terá sido o próprio Sérgio Vieira de Mello que não quis uma segurança aparatosa, para mostrar que a ONU não era uma potência ocupante. "A ideia era mostrar que a ONU está lá para ajudar as populações", disse ao jornal um dos seus assessores.

A reacção internacional foi unânime. "Tais incidentes terroristas não quebrarão a vontade da comunidade internacional de intensificar os seus esforços para ajudar o povo do Iraque", declarou o sírio Fayssal Mekdad, presidente em exercício do Conselho de Segurança. "Este atentado é tão mais chocante quanto as Nações Unidas estão no Iraque numa missão de paz e de estabilização do país."

"O mundo civilizado não se deixará intimidar e estes assassinos não determinarão o futuro do Iraque", declarou o Presidente George W. Bush, no seu rancho em Crawford, no Texas, depois de ter falado com Kofi Annan, secretário-geral da ONU. "O Iraque está no caminho do autogoverno e da paz. E a América e os nossos amigos nas Nações Unidas continuarão a apoiar o povo iraquiano", acrescentou. Numa mensagem a Kofi Annan, o presidente da Comissão Europeia, Romano Prodi, denunciou o "ataque bárbaro contra civis e contra o futuro do Iraque e de todo o seu povo". De Londres a Moscovo, de Paris a Tóquio, de Brasília a Amã, as reacções foram similares.

As interrogações

As Nações Unidas não são um alvo comum de atentados. No Iraque havia no entanto um precedente. Em Julho, os escritórios da ONU em Mossul foram atacados. À primeira vista, pode associar-se o ataque à recente aprovação pelo Conselho de Segurança da nova administração iraquiana e da criação da missão da ONU no Iraque, a Unami. Para os terroristas, tal seria lido como uma cobertura à ocupação anglo-americana. Em breve chegarão ao Iraque tropas estrangeiras, por exemplo da Índia. O atentado poderia levar certos países a hesitar em se meterem no vespeiro iraquiano. Mas o objectivo será mais vasto.

Rosemary Hollis, especialista do Médio Oriente no Royal Institute of International Affairs, declarou à Reuters: "Penso que se trata de arruinar as perspectivas de uma efectiva reconstrução do Iraque. Assim, é algo que não é exactamente anti-EUA e [contra] a ocupação, mas algo que visa tirar proveito do medo e do caos sentido por todos os membros da comunidade internacional."

Mustapha Alani, do Royal United Services Institute, também de Londres, compara este atentado com o que visou a embaixada jordana. "Não foi um trabalho de amadores. Para construir este tipo de bomba é preciso um grupo bem organizado, com um enorme fornecimento de explosivos. Penso que estamos a entrar num novo estádio do movimento de resistência: do ataque esporádico ao ataque bem planeado. Creio que o evidente candidato será um grupo islamista que considere a ONU tão inimiga como os Estados Unidos. (...) O objectivo é mostrar que a América está a perder o controlo e que a resistência cresce dia a dia. Penso que este é o maior objectivo", conclui.

Toby Dodge, especialista da Universidade de Warwick, aponta o dedo aos serviços secretos de Saddam. "Para onde se vai de uma guerra de atrito, matando um americano por dia? Vai-se para um nível superior de violência e medo, e penso que isto marca um novo capítulo na horrenda confusão do Iraque. Dada a natureza indiscriminada da bomba, a brutalidade envolvida e o nível de competência técnica penso ser provável olhar para elementos dos serviços secretos de Saddam ou do exército."

É visível que a situação no Iraque se está deteriorar. No dia 7, houve o atentado contra a embaixada jordana, um alvo árabe. No domingo, foi sabotado o oleoduto que permitia exportar o petróleo iraquiano pela Turquia, o que implicou um elevadíssimo prejuízo económico para um país que necessita urgentemente de fundos e de investimentos. Na segunda-feira, foi morto o 61º soldado americano desde o fim oficial da guerra, a 1 de Maio. Segundo o principal porta-voz americano, coronel Guy Schields, o número de ataques contra as forças de ocupação passou de um patamar de 12 para 15 por dia. E, segundo outro militar, os atacantes estão a tornar-se "mais sofisticados".

A nova administração iraquiana ainda não tem credibilidade nem eficácia. Paralelamente, a exasperação da população continua a crescer, perante o clima de insegurança e o péssimo funcionamento dos serviços públicos básicos. O atentado de ontem marca o fracasso da primeira parte da ocupação do Iraque. Washington terá de rever a sua estratégia.

Em Bagdad desde Maio

Com 55 anos e uma larga experiência em zonas de conflitos internacionais, Vieira de Mello, que foi a primeira escolha de Annan para representar a ONU ao mais alto nível no Iraque, onde se encontrava desde Maio, ficou retido nos escombros após a explosão e chegou a comunicar com o exterior através de um telemóvel.

Alto comissário da organização para os Direitos Humanos desde Setembro, Vieira de Mello não viu problemas em suspender este cargo durante apenas quatro meses, período durante o qual aceitou representar a ONU em Bagdad.

Nascido no dia 15 de Março de 1948, no Rio de Janeiro, Vieira de Mello estudou Filosofia em Paris e obteve título de doutorado pela Sorbonne. Em 1969, quando ainda estudava, começou a trabalhar no ACNUR (Alto Comissariado da ONU para os Refugiados), exercendo cargos no Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique e Peru.

Foi o principal assessor das Nações Unidas no Líbano entre 1981 e 1983, no momento da invasão israelita. Depois, ocupou vários cargos de direcção no ACNUR em Genebra, antes de dirigir, em 1994, a Força de Protecção a Civis da ONU (Forpronu) para a antiga Jugoslávia, no momento mais crítico da guerra na Bósnia.

Após o genocídio no Ruanda, Vieira de Mello foi, durante alguns meses de 1996, coordenador humanitário para a região dos Grandes Lagos, no Leste da África, e depois, nomeado alto comissário-adjunto para os refugiados.

Em 1998, Vieira de Mello foi nomeado para dirigir o escritório de Assuntos Humanitários da ONU.

Defendeu com entusiasmo a acção da ONU em Timor-Leste, após a votação maciça da população a favor da independência do território. Em Outubro de 1999, foi nomeado administrador de Timor-Leste, com a tarefa de reconstruir o território devastado pela guerra.

Em Junho do mesmo ano, o diplomata brasileiro já havia sido convocado por Annan para administrar provisoriamente o Kosovo, imediatamente após a entrada das tropas da NATO e da partida dos sérvios nos Balcãs.