"Jeanne d`Arc au bûcher" estreia esta noite no S. Carlos

Isabelle em estado de graça

A "metamorfose" subtil do rosto será uma constante: Isabelle combativa e masculina, mulher e rapariga, santa e heroína que morre pela verdade, pelo amor a Deus e aos homens
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A "metamorfose" subtil do rosto será uma constante: Isabelle combativa e masculina, mulher e rapariga, santa e heroína que morre pela verdade, pelo amor a Deus e aos homens Miguel Madeira/PÚBLICO

É a última a chegar ao palco do São Carlos, em Lisboa. Para se colocar ao centro, sempre ao centro. Porque Isabelle Huppert é alguém que "está só e ao mesmo tempo no meio de todos", diz. É o quarto dia de ensaio de "Jeanne d'Arc au bûcher", oratória dramática escrita por Paul Claudel com partitura musical de Arthur Honegger e encenação de Luís Miguel Cintra, que hoje estreia. A actriz francesa, de 48 anos, parece uma rapariga, com o cabelo apanhado, camisa branca, calças e ténis pretos.

A "metamorfose" subtil do rosto será uma constante: Isabelle combativa e masculina, mulher e rapariga, santa e heroína que morre pela verdade, pelo amor a Deus e aos homens. Isabelle sacrificada, em estado de graça. Isabelle e não Jeanne d'Arc porque, citando Luis Miguel Cintra, "é uma actriz com uma interpretação pessoal e inteligente dos papéis que faz; há uma espécie de dureza, de violência na figura da Jeanne que creio ser uma visão pessoal da figura e que surpreende." O olhar de Claudel e Honeger sobre Joana d'Arc, a mítica pastora iletrada que um dia vestiu a armadura, montou a cavalo e lutou contra a ocupação inglesa na Guerra dos 100 Anos, integra as diversas facetas, diz Huppert que a interpreta pela segunda vez - agora ao lado de Cintra (Frére Dominique) e do maestro britânico Jonathan Webb - 12 anos depois de ter subido ao palco da Ópera de Bastille, na versão teatral de Claude Régy.
Passaram-se pouco mais de dois meses sobre o inesquecível "4.48 Psicose", de Sarah Kane (Culturgest, pela mão do mesmo Régy), onde assistimos à morte hierática de Isabelle. E passaram-se anos desde a encenação de Bob Wilson de "Orlando", uma figura entre homem e mulher. Em "Jeanne d'Arc au bûcher" Huppert volta a estar "entre" - a vida e a morte, o masculino e o feminino.

Como é a experiência de regressar a Jeanne D'Arc?

Isabelle Huppert - É muito divertido, porque é uma obra de que gosto imenso. Adoro a música... Para mim é como se estivesse num concerto, todas as noites. A [encenação] é muito diferente. Trabalhei durante muito tempo da primeira vez porque não conhecia verdadeiramente a obra. A encenação de Luis Miguel Cintra é diferente da de Claude Régy: o palco não é o mesmo, isso muda.


E o seu olhar sobre a personagem mudou?

Não. A oratória é uma forma particular: não creio que se faça uma pesquisa da personagem nem que se reflicta sobre ela da mesma maneira que no teatro, a expressão está ligada à presença da música, é diferente. A partir do momento em que estamos numa oratória, a passagem entre a palavra e a música, a palavra normal e a palavra ritmada, torna-se muito mais num trabalho sobre a forma. O sentimento vem da forma, há uma intensidade que dá o sentimento.


Qual é a particularidade da Jeanne d'Arc de Claudel?

Não sei. Não sou grande conhecedora das obras à volta de Jeanne d'Arc. Parece-me que nesta existe tudo o que possamos imaginar sobre ela, a infância, a santidade... Há também humor na música de Honegger. Há algumas situações que são irónicas, há uma música muito distanciada. É também um drama popular com a presença do povo à volta de Jeanne. E há a santidade e uma parte guerreira de Jeanne - é isso que transmite a música de Jeanne, que fala um pouco ao ritmo do seu cavalo.


Claude Régy é um encenador fotográfico, Luís Miguel Cintra sublinha a teatralidade.

Claude Régy também fez uma encenação muito teatral, talvez mais fria. Cintra traduz bem a organização no espaço, a forma como toda gente se movimenta - embora não veja bem, porque estou à frente. Tenho a impressão que toda a relação com o grupo está muito bem conduzida nesta encenação. Jeanne está só e ao mesmo tempo no meio de todos. Na encenação de Régy eu estava numa coluna alta, a 10 metros do solo, como uma virgem crucificada. Era uma imagem que se aproximava de Cristo. Passaram-se doze anos, não me recordo bem, mas aqui tenho a impressão de estar muito livre - bom, sou obrigada a respeitar a partitura musical. Claude Régy é mais restritivo quanto à forma de pronunciar a palavra, faz um trabalho mais formal. É divertido trabalhar com o maestro, Jonathan Webb. Para uma actriz, é uma experiência teatral diferente e gosto muito disso. A relação com o maestro é muito particular, é engraçado ver como se dirige uma orquestra, um coro. Sou simultaneamente actriz, espectadora e eu própria.


Conhecia o trabalho de Luis Miguel Cintra?

Como encenador não, conhecia como actor de cinema. Agrada-me fazer esta peça com o Luis Miguel e adoro música e ópera. Uma actriz devia sonhar sempre em ser cantora porque o canto é a expressão última, está no topo da arte dramática. É por prazer que me aproximo um pouco do canto.


Jeanne d'Arc é uma figura mítica sobre a qual há recriações artísticas, da literatura ao cinema. Como geriu esta herança?

Não coloquei essa questão. Para mim é um trabalho musical e não sobre a personagem. Vi o filme de Rivette [com Sandrine Bonnaire], vi a Falconetti no filme de Dreyer, não me lembro se vi o filme de Bresson.


Algum desses filmes foi uma referência em termos de imagem?

Não. A imagem somos nós próprios que a encontramos. Não é preciso ter uma referência.


Vimo-la no teatro, a representar papéis entre o masculino e o feminino, a vida e a morte; e imóvel.

É verdade. Mas já agora: a diferença entre este espectáculo e o de Régy é que aqui há uma imagem mais infantil de Jeanne D'Arc (tenho um vestido) e no espectáculo de Régy tinha uma imagem mais masculina, estava vestida com fato de guerra. Mas isso é que é interessante: podemos fazer Jeanne D'Arc como uma criança, uma guerreira, um homem, uma mulher, ela tem todas as facetas. A faceta combativa e guerreira está sempre no texto mas aqui a forma de representação é mais feminina, como virgem. Não fui eu que escolhi, foi Luis Miguel. É uma representação como um ícone, mais religiosa. Jeanne é ao mesmo tempo espiritual e terrestre, é a imagem da santa e da guerreira. É uma imagem complexa. O que é fascinante é pensar que ela é muito jovem, alguém que não sabe ler mas muito inteligente - a forma como se defende dos que a julgam é um modelo de retórica.


Como trabalhou a sexualidade dessas personagens?

Em Jeanne D'Arc não reflecti muito sobre nisso. Acho que está na energia, na combatividade, que podemos ver como algo masculino. Em 'Psicose' estava no texto. Ela diz que é ao mesmo tempo homem e mulher. Não foi um trabalho muito consciente: está no texto e há o espectador que o recebe e que no seu imaginário constrói o que há de masculino e feminino. Em 'Psicose' sei que tinha calças, e que a luz me tornava andrógina. No teatro e no cinema, o actor não faz mais do que ser o elo de transmissão entre os signos que o espectador recebe e ele próprio. Aqui tenho um vestido, há a música e conheço Jeanne d'Arc: isso é suficiente para trabalhar o imaginário do espectador.


Em 'Psicose', a decisão de morte era voluntária. Qual é a relação de Jeanne d'Arc com a morte?

Ela prefere morrer do que abdicar da sua verdade. Há várias personagens, como Antígona, que têm esta relação com a verdade, que em nome das ideias preferem morrer do que abdicar. É por isso que as representamos regularmente: há uma força e uma relação com a verdade que força a admiração.


Isso fascina-a?

Morrer pelas ideias... Não sei. Não é por isso que faço o espectáculo, mas pela adesão a uma construção.


Tem uma relação com Deus?

Tenho uma relação forte com o que faço. Não sei se Deus faz parte. Talvez.


Jeanne d'Arc tem a inocência, a fragilidade da força e a força da fragilidade que estão presentes noutros papéis que representou. Esta complexidade é tão extrema quanto a de 'Psicose' e a de 'A Pianista'?

Fiz papéis que são tão extremos quanto este. É sempre bom representar os que têm esta mistura entre força e energia e ao mesmo tempo fragilidade. Todos somos fortes e frágeis, isso não é original. O que é forte é representá-los e permitir que as pessoas se aproximem dessa força e fragilidade. Em Jeanne também existem esses extremos: ela é uma rapariga e ao mesmo tempo uma guerreira.


Jeanne d'Arc, Sarah Kane, Maria e Madalena de "Deux", de Schroeter, são mais novas do que a Isabelle Huppert. Agrada-lhe representar o conflito entre a rapariga e a mulher?

No filme de Schroeter é uma hipótese literária: são personagens que exploram a infância, a juventude. Não penso que seja um conflito entre a rapariga e a mulher mas uma relação com a infância. Mesmo Sarah Kane fala da doença de crescer. É uma frase obscura, porque não sabemos se para ela os doentes são os que cresceram ou os que não chegaram a crescer, é ambíguo. No fundo, esta é a doença de toda a gente. A vida é esse compromisso com o que fomos, o que somos e em quem nos vamos tornar. Não é uma escolha particular que eu faça, é uma maneira de falar de toda a gente.


A propósito de Sarah Kane, disse que era essencial preservar uma parte de inocência...

Em todos os papéis é preciso que haja uma parte de inocência. Em Sarah Kane há esta violência contra o mundo e contra ela própria mas há acima de tudo uma inocência que faz com que nos possamos interessar por ela.


O que é a inocência, para si?

É difícil... Podemos dizer: "Não faço o bem nem o mal, sei simplesmente existir" - cá está, é esta a parte de inocência da personagem. É como a personagem de "A Pianista". Foi sobretudo com ela que desenvolvi esta ideia de inocência. Porque ela incarna toda a violência do mundo mas tem a sua parte de inocência, que lhe dificulta a vida, mas há algo de legítimo na forma como procura o amor. Legítimo aos seus próprios olhos e legítimo para mim: tem uma ideia absoluta do sentimento amoroso e em nome disso comete coisas horríveis. Mas nesse absoluto não deixam de existir coisas inocentes. Isso não é culpável.