Comité criticou directamente Administração dos EUA

Polémica envenena atribuição do Nobel da Paz a Carter

O ex-Presidente americano foi distinguido pelos esforços a favor da paz, da democracia e do desenvolvimento
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O ex-Presidente americano foi distinguido pelos esforços a favor da paz, da democracia e do desenvolvimento Daud Mizrahi/AFP

Se a atribuição do Prémio Nobel da Paz ao ex-Presidente norte-americano Jimmy Carter foi saudada pela generalidade da comunidade internacional, a justificação apresentada pelo Comité Nobel da Noruega, numa clara crítica à política da Casa Branca em relação ao Iraque, gerou uma polémica que desagradou ao próprio laureado.

Carter, que ocupou a Casa Branca entre 1977 e 1981, foi galardoado "pelas décadas de esforços incansáveis para encontrar soluções para os conflitos internacionais, defender a democracia e os direitos humanos e promover o desenvolvimento económico e social", escreve o Comité Nobel da Noruega em comunicado.

O organismo sublinha em particular o papel de Carter como promotor dos acordos de Camp David, em 1978, que um ano depois culminariam no Tratado de Paz entre Israel e o Egipto. Na altura, o então Presidente americano esteve perto de ganhar o prémio, o qual acabaria por ser partilhado pelo primeiro-ministro israelita, Menachem Begin, e o Presidente egípcio, Anwar Sadat. Nas décadas que se seguiram, a Fundação Carter, criada pelo laureado após a saída da Casa Branca, assumiu um papel de relevo na mediação de vários conflitos regionais e internacionais e na defesa da democratização.

Uma critica directa a Washington

No entanto, se a atribuição do prémio a Carter foi saudada com entusiasmo por quase toda a comunidade internacional — que reconhece em Carter um mediador e um pacifista — a justificação dada pelo comité Nobel veio envenenar a distinção.

"No panorama actual, marcado pelas ameaças de uso do poder, Carter sempre defendeu o princípio de que os conflitos, tanto quanto possível, devem ser resolvidos através da mediação e da cooperação internacional, baseada no direito internacional, no respeito pelos direitos humanos e pelo desenvolvimento económico", lê-se no comunicado emitido pelo Comité.

Questionado pelos jornalistas após a divulgação do laureado, o presidente do Comité Nobel norueguês, Gunnar Berge, esclareceu que a escolha de Carter, opositor do uso unilateral da força, "pode e deve ser interpretada como uma crítica à política da administração actualmente no poder nos EUA em relação ao Iraque".

A explicação criou de imediato polémica no seio do comité, uma vez que dois dos seus cinco membros (eleitos pelo Parlamento norueguês) afirmaram que a escolha de Carter não deve ser encarada como uma crítica à política americana em relação ao Iraque.

Inger Marie Ytterhorn, membro do comité e conselheira do Partido do Progresso (FRP, populista) declarou que o organismo "não quis fazer qualquer crítica à Administração Bush" que ontem recebeu luz verde do Senado para usar a força, caso necessário, para garantir o desarmamento do Iraque. O próprio líder do Partido do Progresso, Carl Ivar Hagen, considerou que a "utilização do Prémio Nobel da Paz para exprimir opiniões políticas" é um "desvio" das intenções para que o galardão foi criado.

Também o ministro dos Negócios Estrangeiros norueguês, Jan Petersen, se mostrou "um pouco surpreendido" pelas explicações dadas pelo presidente do Comité Nobel. Perante as fortes críticas de que foi alvo, o ex-ministro trabalhista norueguês declarou ter falado à imprensa não em nome do comité, mas "por conta própria".

Carter não comenta polémica

O próprio laureado não parece ter ficado agradado com a crítica feita a Washington, apesar de já se ter manifestado publicamente contra qualquer acção unilateral dos EUA no Iraque. Em entrevista à CNN, o antigo Presidente preferiu não "fazer qualquer comentário particular sobre as políticas do Presidente Bush".

Mesmo assim, o presidente da Fundação Carter não deixou de manifestar a sua opinião sobre qual deveria ser a actuação da Administração norte-americana: "Penso, no entanto, que antes de nos envolvermos em qualquer guerra, devemos esgotar todas as outras alternativas, o que implica negociações, mediação, ou, se tal não for possível no caso do Iraque, trabalhar por intermédio das Nações Unidas", declarou.

Já esta tarde, o antigo Presidente democrata afirmou aos jornalistas que se ainda fosse membro do Congresso teria votado contra a resolução aprovada ontem pelo Senado.

Embora a Casa Branca tenha preferido não comentar, várias outras instituições sublinharam a importância da atribuição do Nobel da Paz a Jimmy Carter. Em declarações aos jornalistas, o ministro dos Negócios Estrangeiros canadiano, Bill Graham, considerou que esta distinção constitui "uma mensagem clara a favor do multilateralismo". "Creio que o mundo em geral vê aqui um sinal positivo da forma como gostaríamos que os EUA agissem em matéria de política internacional", acrescentou o chefe da diplomacia canadiana.

A mesma posição foi assumida pelo International Peace Bureau, uma organização não-governamental fundada em 1892 e vencedora do Nobel da Paz em 1910. A distinção de Carter representa "uma mensagem absolutamente clara" numa altura em que o seu sucessor está a "usar o tambor da guerra", afirmou Colin Archer, secretário-geral da IPB, num comunicado divulgado hoje em Genebra.

Comité Nobel volta a criar embaraços

Tal como lembrou o director do Instituto de Investigação pela Paz de Oslo (PRIO), "esta não é a primeira vez que o comité se intromete numa questão altamente política", mas "é a primeira vez que faz uma crítica directa a uma super-potência mundial".

Com efeito, em 1975, o comité decidiu atribuir o prémio ao activista dos direitos humanos Andrei Sakharov, irritando a União Soviética. Já antes, em 1935, a atribuição do prémio a Carl von Ossietzky, um jornalista alemão opositor do regime nazi, levara Hitler a proibir qualquer cidadão alemão de aceitar um prémio Nobel.

Em 1989, foi a vez da China demonstrar a sua irritação com a atribuição do galardão a Dalai Lama, líder espiritual do Tibete, sob domínio do regime maoísta. Em 1997, a campanha internacional contra o uso de minas anti-pessoais foi distinguida depois de promover um tratado internacional para a proibição do fabrico, venda e uso destes engenhos, o qual contou com a oposição de Washington. Um ano antes, a atribuição do prémio a Ramos Horta e ao bispo de Díli, D. Ximenes Belo, centrou as atenções no território, então ainda ocupado pela Indonésia.