Crítica

Mais Apocalypse

São mais 50 minutos de "Apocalypse Now", o tal filme sobre o Vietname cuja rodagem foi o próprio Vietname. Há sequências novas, Brando mais humano, há mais surf e mais "playmates". Há ganhos e há perdas - porque não há nada como a primeira vez. Mas o monumento continua hipnótico.

Diz que não sentiu nostalgia. Tem 62 anos e não tem tempo para ficar com saudades. Foi assim, surpreendentemente "sem grande emoção", que Francis Coppola voltou a "Apocalypse Now", para, com o montador de imagem e de som Walter Murch, trabalhar na nova versão do épico, "Apocalypse Now- Redux".

"Tenho de ser honesto", disse aos jornalistas em Cannes, no ano passado, onde apresentou mais 50 minutos de imagens inéditas do que a versão de 1979, totalizando uma duração de 203 minutos. "Na minha cabeça, 'Apocalypse Now' era um livro fechado: comercialmente bem sucedido, um dos filmes a que periodicamente se regressa. A única emoção que senti foi ver imagens dos meus filhos, quando eram crianças, isso foi uma surpresa [Roman e Gio Coppola, entretanto falecido, aparecem numa das sequências a descobrir, a da "plantação francesa"].

Como é possível regressar sem emoção à "idiodisseia", como Coppola lhe chamou, à memória de uma rodagem de anos em que um tufão destruiu o "plateau" nas Filipinas, em que um actor, alcoólico, quase morreu de ataque cardíaco, em que todos viveram em estado de guerra e em que o próprio realizador, aos 37 anos, ia perdendo a saúde mental por uma obsessão? Sobre este homem, a mulher, Eleanor, escreveu nos diários que, na selva, deixou de distinguir no marido "o visionarismo da loucura". Ao excesso se deve agora a ausência de emoção? Como defesa? Porquê "Apocalypse Now - Redux"?

do nirvana ao apocalipse. "Naquele tempo, 'vendemos' o filme como sendo de acção e aventura. Mas começou a tornar-se, na rodagem, algo de filosófico. Aquela duração - mais de duas horas e 15 minutos - já era considerada muito longa. Eu não tinha poder, capacidade financeira, para impor uma versão de mais de três horas. Sabia que na montagem tinha de escolher de entre o melhor material".

Por difícil que seja de acreditar, quando Coppola se interessou pelo argumento de John Milius (um ex-surfista encantado com as histórias de uma guerra psicadélica em que se matava no intervalo das ondas), que era suposto ser dirigido por George Lucas (que preferiu o Vietname no espaço, "Star Wars", tornando os EUA no Império e os vietnamitas nos rebeldes aventureiros), Coppola queria fazer "um filme normal". Depois de "O Padrinho II", queria deixar os interiores pesados, filmar no exterior um filme de aventuras.

"Francis via 'Apocalypse Now' como uma ópera em exteriores, uma hipótese para correr de um lado para o outro em calções na selva, nadar, e fazer um filme que estivesse longe dos assuntos em que trabalhara", lembra-se Eleanor. Em 1976, o realizador escrevia: "Quero vender este filme como 'A Ponte do Rio Kwai' [de David Lean]. Será uma aventura de acção de grande qualidade e espectacularidade. Haverá uma meditação sobre a natureza humana em situação de guerra. Mas não quero que seja só referida a sua componente política. Quero que seja lançado como se fosse 'Lawrence da Arábia'".

Eram as intenções. Mas "nirvana now", um dos lemas que embelezava a lapela dos "hippies", tornava-se mesmo "apocalypse now", e o filme tornou-se "demasiado longo, demasiado estranho e não se resolvia numa clássica batalha final". Coppola era "bigger than life", mas teve medo. "Defendi-me", assume. Talhou o filme à medida do "público da altura" ("os espectadores aceitam ou rejeitam as coisas consoante aquilo que já viram"), tornando-o o mais possível aparentado ao género "filme de guerra" - mesmo assim ficou nas mãos com uma "ultimate trip", como "2001 Odisseia no Espaço", de Kubrick.

"Era proprietário do negativo, sempre senti que um dia podia regressar ao filme. Vi 'Apocalypse now' na TV, e percebi que tinha ficado mais convencional. Há um par de anos foram criadas as condições, numa atmosfera mais calma, sem pressão, de voltarao filme". "Apocalypse Now - Redux" não é, em rigor, um "director's cut"; não é o filme que não deixaram o realizador fazer. É um novo filme - ou em tons diferentes; é um passe de mágica possibilitado pela explosão do DVD (meio para o qual foi pensada a versão) e pela obsessão das cenas "extra".

"Eu não estava descontente com a versão de 1979. É o meu filme. Mas a sua missão era diferente. Era suposto ser um filme de guerra e de aventura bem sucedido comercial e artisticamente. Tratou-se, agora, de regressar ao tema - que se mantém: a hipocrisia, a dimensão da mentira - e dar-lhe novos ecos através de cenas que não foram usadas, como a 'sequência da plantação francesa', e através do ponto de vista das mulheres. É uma versão mais feminina. E já pode ser um filme mais atípico".

funny e political. Não é seguro que o seja (ou que a versão de 1979 deixe de ser "a nossa"). A memória de uma primeira vez, o mistério, é muitas vezes irreversível. "Apocalypse Now" era, é, enigmático; "Apocalypse Now - Redux", que começa e acaba da mesma maneira, continua um monumento, continua hipnótico; mas as novas cenas tornam-no mais explícito. As personagens são menos perfis alienados à deriva em paisagem psicadélica - agora, como se diz, são "mais humanas". "This is the funny, sexy, political version of 'Apocalypse Now'", resumiu Walter Murch. As novas sequências percorrem esse arco. Para começar, "funny": o Kilgore de Robert Duvall.

Na versão anterior, deixávamo-lo depois do "someday this war is gonna end". Agora, continuamos mais tempo com o fascista-surfista que abandona tudo pela onda - por exemplo, quando descobre que Lance/Sam Bottoms, um dos elementos da tripulação, comandada por Willard/Martin Sheen, que sobe o rio é um ás do surf. Nesta versão prolonga-se o surf e Lance, incitado por Willard, rouba a prancha de Kilgore, fugindo a tripulação rio acima. A cavalaria aérea de Kilgore persegue-a pela selva, ameaçando-a dos céus com altifalante (para fãs: a prancha está no Niebaum-Coppola Winery Museum, em Rutherford, California).

É um episódio pícaro, e tem consequências: explicita a camaradagem entre a tripulação, reduz o radical abandono dos alienados, torna Willard menos impenetrável. A subida do rio, até chegar a Kurtz/Marlon Brando, vai ser menos insondável e errática.

Mas é isso - abandono, desolação - o que se ganha com uma nova sequência com as "playmates". Depois da visão surreal do espectáculo americano - o "show" na selva -, em "Apocalypse Now-Redux" voltamos a encontrar as "coelhinhas". Numa sequência que não foi acaba por causa do tufão que destruiu os cenários em 1976, Willard e os seus homens trocam combustível por minutos de sexo - num helicóptero e numa cabana - com as representantes da Playboy. É o momento de agonia em que os objectos de desejo tomam consciência da sua alienação. "À sua maneira", diz Coppola, "as raparigas são os duplos dos rapazes do barco, só que no caso delas a exploração é sexual".

A "pièce de resistance", a razão, afinal, por que o Canal Plus sugeriu a Coppola a nova versão, vem a seguir: a "plantação francesa" [ver texto nestas páginas]. Os ecos históricos e políticos tornam-se nítidos. É o último sonho - conjunto de espectros saídos do nevoeiro - antes do derradeiro sonho, o encontro com Kurtz/ Marlon Brando.

Durante a rodagem Coppola percebera que não podia filmar Kurtz como Milius escrevera a personagem - com a dureza física do militar. Não havia nada a fazer contra a obesidade de Brando, a não ser escondê-la, filmando o actor da cintura para cima, em planos cerrados. E assim se fez; e assim Kurtz ficou um Buda no seu templo de escuridão, voz vinda do nada.

Agora há mais Brando, de corpo inteiro e à luz, por isso Kurtz está menos mítico. Vemo-lo rodeado de criancinhas, a ler a Willard um artigo da Time - de Dezembro de 1969, precisa, reduzindo assim a abstracção do original - e denunciando a "mentira" da propaganda governamental americana.

"O medo de que 'Apocalypse Now' falhasse, e as implicações financeiras que isso teria para a minha carreira e para a minha família fizeram com que fosse, talvez, mais defensivo", explica Coppola. Apesar de todos os prognósticos, o filme saiu do Festival de Cannes com a Palma de Ouro, e daí conquistou as bilheteiras do mundo. Mas os tempos mudavam. Um ano depois, "Heaven's Gate", de Michael Cimino, calamitoso "flop", seria o golpe de misericórdia na caminhada dos "realizadores/autores" dentro do sistema. Quanto a Coppola, numa decisão fatal como o destino optava por fazer "algo mais divertido e comercial". Saiu-lhe "Do Fundo do Coração", e foi o desastre. No seu auge criativo, embarcava no período mais negro da sua carreira.

"Foi difícil envelhecer tantos entre os meus 40 e 50 anos, numa altura tão vital da minha vida; foi difícil ter de ser um 'escravo', e fazer filmes para pagar as dívidas. 'Apocalypse Now" é hoje um valor seguro para os meus filhos. Mas sinto tristeza por a carreira que eu queria ter, a de argumentista/realizador, ter sido no essencial pervertida durante esses anos".

As emoções, afinal, não estão enterradas... "Apocalypse Now", em qualquer das suas versões, foi o último "hurrah!" de um visionário, de uma época. Ninguém acredita que ao preparar (há tanto tempo) o seu projecto actual, "Megalopolis", Francis Coppola não se recorde de um tempo: 1976, a loucura nas Filipinas...