Teatro digital no Passeio Marítimo de Algés

OBS-La Fura dels Baus: entre o real e o virtual

O teatro real-virtual do OBS está no Passeio Marítimo de Algés até domingo
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O teatro real-virtual do OBS está no Passeio Marítimo de Algés até domingo DR
O teatro real-virtual do OBS está no Passeio Marítimo de Algés até domingo
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O teatro real-virtual do OBS está no Passeio Marítimo de Algés até domingo DR

O teatro digital está de visita ao Passeio Marítimo de Algés, em forma de tenda branca e pelas mãos do grupo catalão La Fura dels Baus. OBS é um espectáculo obsessivo, em que actores e espectadores estão em constante movimento, fugindo ou aproximando-se das sinistras máquinas metálicas móveis.

Entre o medo e a curiosidade, os cerca de 650 espectadores diários (número avançado pela organização) que percorrem o caminho de terra até penetrar na escura e enorme tenda que alberga o espectáculo têm algo em comum: o pasmo. OBS é, antes de tudo, um espectáculo pouco clássico. Estranho ou fora do normal talvez sejam as melhores definições. Provocante e agressivo, sem dúvida.Apavorados alguns, atraídos outros, os espectadores estão em constante movimento, ao mesmo tempo que as máquinas barulhentas começam a circular e os actores invadem a área "reservada" ao público.
Simultaneamente, imagens são projectadas em vários ecrãs espalhados pelo recinto — gravadas ou filmadas na altura pelo incansável "cameraman" do grupo. Algumas (muito poucas) das projecções consistem em imagens 3D, dispondo os espectadores de óculos para o efeito.
A acção decorre entre um tempo medieval, de guerras físicas, reis e magia, e o tempo actual, das guerras televisivas, da ilusão publicitária e dos concursos. Os dois tempos de um mesmo tempo são unidos pela música — electrificante e, por vezes, estridente, entre a electrónica e a percussão ——, o vídeo e os efeitos pirotécnicos e luminosos. La Fura dels Baus pretende abordar "a comédia e, sobretudo, a tragicomédia da sociedade de informação em que vivemos", explica o grupo no seu sítio oficial na Internet. E, para o fazer, recorre a fortes imagens sexuais, que roçam a pornografia, no caso do concurso em que os concorrentes masculinos são virtualmente sodomizados por pénis metálicos gigantes, manipulados pelas anfitriãs até obterem provas de ejaculação, mas que também adoptam uma forma angelical, como quando a amada do rei está imersa numa banheira de sangue e este abraça-a e penetra-a na altura em que ela solta o último suspiro. A violência é outra das constantes, chegando o grupo a perseguir e capturar virtuais espectadores para os entregar de bandeja (neste caso, em passadeira rolante) ao rei, que lhes abocanha os corações à medida que vai rebentando sacos com sangue de cinema e sujando o recinto e o público.
Entretanto, os espectadores vão reagindo de formas diversas ao que observam, entre as namoradas apavoradas, que são empurradas pelas respectivas caras-metade para o meio da cena, e aqueles que só falta subirem para cima das máquinas. No final, ao acender das luzes, o público parece, de certa forma, aliviado e soltam-se as palmas. Mas nem todos saem completamente satisfeitos. Filipa Costa disse ao PUBLICO.PT que "como tinha ouvido falar muito do grupo, tinha altas expectativas, que saíram um pouco defraudadas". A proporção qualidade-duração-preço do espectáculo também foi criticada.
A mensagem retirada do espectáculo não é, por seu lado, imediata. Entre o "alargar de horizontes" e a "banalização das cenas de violência que vemos todos os dias nos telejornais", a imagem que parece ficar é a da agressividade, da bestialidade, do Homem transformado em bicho, do Homem obcecado por sexo e violência.
Quando decidiu enveredar pelo teatro digital, La Fura dels Baus deixou em manifesto que isso significaria abarcar "uma concepção genética do teatro", que resultaria numa série de "experiências interactivas, sensoriais e interculturais". Tudo através de uma linguagem binária, que interliga "o orgânico com o inorgânico, o material com o virtual, o cenário físico com o ciberespaço".
O Passeio Marítimo de Algés acolhe o OBS até domingo e a entrada no teatro real-virtual está marcada para as 22h00, a custo de 4500 escudos.