Crítica

Um épico intimista

Este é o filme que ajuda Jean-Jacques Annaud - e outros com ele - a sonhar com uma Hollywood à europeia. Houve espaço para o delírio: os estúdios de Babelsberg, na Alemanha, palco mítico dos fulgores do passado do cinema europeu. O filme, esse, vem anunciado como a mais cara produção europeia (embora os dinheiros sejam em grande parte americanos - mas essa é apenas uma das contradições deste sonho). Agora "Inimigo às Portas": é um "épico intimista" (Annaud quer passar da escala maior à escala menor, como sabiam fazer David Lean ou Visconti). O lado épico é o cerco a Estalinegrado, episódio da II Guerra Mundial - lá estão as duas sequências de batalha, no início e no fim; o lado intimista é o que está no meio, o confronto entre um camponês dos Urais tornado herói do Exército Vermelho (Jude Law notoriamente no filme errado) e um atirador de elite alemão (Ed Harris certíssimo, magnético, um silêncio e um olhar gelados). Há uma componente de "luta de classes" entre os dois, mas é anedótica, como, aliás, o interlúdio amoroso que também faz a sua aparição. Já que Annaud cita tantos filmes (para além de Lean e Visconti ainda há Eisenstein e Tarkovski), podemos ajudá-lo com mais um: "O Resgate do Soldado Ryan", de Spielberg, de que deve ter visto vezes sem conta a sequência do desembarque na Normandia. E agora o problema fundamental: "Inimigo às Portas" é um empreendimento tão artificial, tão cheio de remendos para querer vencer em várias frentes que pouco sobra para existirem nele personagens, emoções, filme.