Crítica

O Verão de Kikujiro

Takeshi Kitano pega de caras a herança do burlesco clássico (Kikujiro é o seu "garoto", assim como Chaplin e Jerry Lewis também tiveram um) e assina um filme fulgurante, que conserva do burlesco "humanista" a sua dimensão mais vulnerável e, possivelmente, mais esquecida: a de que ele pode ser, em primeiro lugar, a manifestação de uma relação solitária e "desprotegida" com o mundo, ou o retrato de uma espécie de orfandade "cósmica". Por isso o órfão, aqui, é tanto o miúdo como o adulto, para quem o desejo de paternidade aparece como forma de suprimir as suas próprias, e pessoais, lacunas. Território onde o encontro entre os dois se processa: o cinema. A sinopse de "Kikujiro" podia-se resumir a qualquer coisa como "um adulto entretém uma criança que não encontrou a mãe". E o adulto entretém a criança inventando-lhe um cinema, fabricando "gags" e improvisando trucagens à la Méliès. "Kikujiro", o último grande filme de 1999, é só isto, mas nisto ? neste testemunhar do cinema como único, ou como derradeiro, recurso ? está contido o essencial, e nada mais do que o essencial.