Crítica

Vontade Indómita

Se não é, preto no branco, a obra-prima de King Vidor é porque na riquíssima (mas relativamente pouco vista) filmografia do cineasta há outra mão cheia de escolhas possíveis para tal. Não deixa de ser por isso um filme fundamental: no elogio do visionarismo individualista da sua personagem, mas sobretudo na crónica da sua crispação e do seu fechamento, "Vontade Indómita" faz a ponte entre a Hollywood dos anos 40 e o esplendoroso canto do cisne que será a década de 50. Inesgotável, o filme de Vidor permite ainda notar, em termos pedagógicos, que o melhor do cinema clássico não se reduzia a um modelo narrativo em plena carburação e que muita da sua vitalidade provinha da subtil articulação desse modelo com um trabalho figurativo por vezes (é o caso) à beira da abstracção - ou seja, que mesmo num "cinema de argumento" eram as formas que decidiam, e diziam, tudo. (1998/0807)

O fogo e o gelo, o máximo de desejo a corresponder à maior frigidez, uma obra totalitária de King Vidor em reposição que é, em absoluto, um dos grandes filmes do ano. É uma obra erecta por uma delirante arquitectura cinematográfica, sufocada em simbologia (um constante movimento de ascensão e queda, mas uma vertigem sexual gelada) como se castigasse e manietasse as figuras no espaço. Assim, a relação entre Gary Cooper (o arquitecto individualista) e a incrível Patricia Neal, vestida de homem e de chicote nas mãos (na linhagem de personagens femininas excessivas do cinema de Vidor - mas no caso dela, o excesso está petrificado num rosto paralisado), transforma-se num combate sadomasoquista com uma pedreira por cenário.