Crítica

O Vento Levar-nos-á

Há um "catálogo Kiarostami" à disposição em "O Vento Levar-nos-á" - desde o plano inicial, com o carro a serpentear pela estrada, motivo figurativo que o cineasta iraniano vem repetindo de filme para filme? Sim, mas o que se ouve no som - dois homens a conversar, procurando uma árvore isolada (quando a paisagem está cheia de árvores isoladas...) - coloca essas imagens iniciais sob o signo da ironia e da sabotagem. A auto-citação é, então, uma forma de questionamento do cineasta, aqui, como nos outros filmes, misterioso, insondável e perverso. Através desta história de um homem que se desloca a uma aldeia do Irão para filmar um ritual de morte (como Kiarostami se deslocou a uma aldeia do Irão para filmar os efeitos de um terramoto em "E A Vida Continua"?), e que por essa obsessão passa ao lado de tudo, não "vê" nada, Kiarostami interroga o que o leva a perseguir a realidade com uma câmara de filmar. Concluirá que a realidade - o humano - se perde sempre por entre as imagens e o cinema está condenado a ficar com isso. É um cinema sofisticadíssimo, o de Kiarostami, apesar da exiguidade de meios, e é óbvio que já não faz sentido continuar a considerá-lo "realista" e "transparente" - veja-se como filma um dos planos iniciais da aldeia, como fortaleza inexpugnável, guardadora de segredos, como se fosse um filme onde se esconde um tesouro.