A história contada por César

Se fosse crítico de cinema, João César Monteiro dava entre duas e três bolas a Branca de Neve, que à custa da polémica criada pelo gesto radical de apresentar a tela negra corre o risco de se tornar o filme mais mediático do realizador

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João César Monteiro DANIEL ROCHA/DANIEL ROCHA

Esta entrevista foi publicada a 11 de Novembro de 2000, quando se estreou Branca de Neve de João César Monteiro.

Fala da sua última obra como "um filmezinho", um filme que "era fácil falhar". Se fosse crítico de cinema, João César Monteiro dava entre duas e três bolas a Branca de Neve, que à custa da polémica criada pelo gesto radical de apresentar a tela negra corre o risco de se tornar o filme mais mediático do realizador. Mas o negro, como explica numa entrevista surpreendentemente serena, não foi a primeira ideia para uma obra cujo orçamento inicial atingiu os 270 mil contos.

João César Monteiro explica: o negro não foi a ideia fundadora de Branca de Neve. Os 70 minutos de ecrã cinzento que quase só é rasgado por breves clarões de céu azul, que se tornaram no mais polémico filme português dos últimos tempos, foram uma solução tardia, segundo o próprio realizador, tomada à revelia do produtor, Paulo Branco.

A génese deste "filme negro", que adapta o conto do suíço Robert Walser, teve duas etapas antes mesmo de o projecto ter sido apresentado a concurso no Instituto do Cinema, do Audiovisual e Multimédia (ICAM). E só na terceira etapa, na véspera do início das rodagens, é que César Monteiro optou por realizar o objecto que o público português desde ontem pode conhecer.

Antes disso, quis desistir. "Não me estava a apetecer nada fazer o filme. Não sentia prazer nenhum na fabricação da coisa. O que é mau. O desprazer roça muito a indiferença", explica. Com o director de fotografia Mário Barroso, acabou por decidir informar Paulo Branco que não queria filmar. "É uma decisão que só o produtor pode ter, parar o filme, adiá-lo". Mas não foi necessário.

Às 8h da manhã do dia seguinte, César estava determinado. "Prometi ao Mário que ia teorizar à volta do negro. Nem sequer os directores de produção estavam ao corrente." Esse "negro" levaria, segundo o realizador, "duas horas e tal a executar".

As coisas secretas dele

Para trás ficaram dois projectos falhados. O primeiro ia no sentido de filmar em estúdio, com cenários pintados, e ter uma partitura musical composta para o filme, a partir da qual os actores teriam um recitativo cantado. "Seria um filme para ser dançado. Dançar como os corpos podem dançar sem os conhecimentos da técnica da dança."

Abortada a ideia, numa segunda etapa chegou-se a pensar no abandono do poema de Walser. Optar-se-ía por trabalhar Filosofia da Alcova, de Sade. Mas "Paulo [Branco] e eu decidimos voltar à Branca de Neve", já com novos princípios.

Tratava-se, então, de "um filme com quatro semanas de rodagem", segundo os planos, a realizar no Jardim Botânico - onde, de resto, se acabou por remodelar uma sala. Era aí que se filmaria a princesa Branca de Neve, com quem se cruzaria "um outro caminhante na neve, um vulto". "Nem vale a pena dizer quem era", afirma Monteiro, referindo-se a si próprio.

Foi esse o projecto apresentado ao ICAM, com um orçamento de 270 mil contos, o que representava um apoio de 130 mil. Sobre a polémica em redor de um filme negro feito com dinheiros públicos custar tal verba, César Monteiro responde lacónico: "A polémica não me diz respeito." .

Depois, "houve uma incrível sucessão de mudanças de actores. Experimentaram-se várias coisas. O tipo de representação teatral não funcionava." Apareceu outra solução que entusiasmou o realizador: manter décores e gravar os textos à parte, que seriam ouvidos por um velhote sentado num banco. Uma ideia que tinha a ver com Film, o filme de Beckett com Buster Keaton. Mas isso "implicava três dias para o som e dois ou três dias de filmagens".

Já na altura havia apenas planeada uma cena de representação, aquela em que a rainha põe o caçador a teatralizar com Branca de Neve uma encenação do assassinato desta. "Depois é que se passou para esta coisa do negro."

"Se calhar era uma coisa em que já tinha pensado antes, em relação a outros filmes. Não sabia que se tinham feito coisas muito próximas. Não tinha visto L'Homme Atlantique, da Duras. Nem o filme do Guy de Debord" - um trabalho que se rebela contra o cinema espectáculo, o que, no caso de Monteiro, seria redundante, uma vez que toda a sua obra tem apontado nessa direcção.

Tirar o chapéu a Paulo Branco

Como objecto final, César Monteiro considera Branca de Neve "um filme falhado", provavelmente símbolo de um momento de viragem. Porquê? Em parte, pelo trabalho sobre as vozes, que "devia ter sido mais cuidado": "Estou a jogar com uma coisa que é terrível para mim. Uma coisa de ordem puramente vocal. Próximo da música. Se calhar o meu ouvido não é suficientemente apurado. Se calhar deixei-me levar pela qualidade das vozes, fui à procura de vozes bonitas."

No entanto, ao ver o filme, João César diz que não conseguiu tirar os olhos do ecrã. "É curioso porque sabe-se que dali não vem nada." E não seria a maior das ironias se toda a mediática celeuma transformasse "Branca de Neve" no seu filme mais bem sucedido? "Se isso acontecer temos que tirar o chapéu ao Paulo Branco", afirma.

Afinal, o que é Branca de Neve? "Das duas uma: ou fiz tábua rasa [do que tenho vindo a fazer] ou arrasei a tábua. Não sei." Se calhar, foi pegar na obra de Walser à luz da ideia de expulsão do paraíso - Branca de Neve come uma maçã vermelha. E, nesse caso, César estaria a pensar numa ordem superior, divina: "Aquelas personagens são todas indiferentes a essa ordem. Porque foram todas expulsas, abandonadas por Deus." E, por isso, no plano final, César sussurra "Não". Não "à aceitação daquilo". Ou à sua própria expulsão.

O que fazer a seguir

"Eu gostava de saber o que é que vou fazer a seguir. Uma nova etapa pode não ser nada. Pode ser uma conclusão, pode ser o fim. Neste momento não encontro resposta para o desfecho". Pode ser uma incursão num outro registo - "que posso fazer de modo mais caseiro, com o vídeo." Pode ser uma libertação? "Pois pode".

Para já, quer ir ver o filme a uma sessão normal "para apalpar a reacção do público". No meio dessas pessoas estarão os seus dois tipos de público: "Os fanáticos, para quem o que faço é sempre notável, mesmo que de facto o não seja e uns que são mais críticos."

Se ele próprio fosse crítico de cinema, César Monteiro dava a Branca de Neve entre duas e três bolas, "andava por aí". Até porque este filme "era fácil falhá-lo". "De repente um filmezinho parece que veio abalar o cinema. Não é grave, mas então que abale no bom sentido."