A Comédia de Deus: Será pecado?

Depois de ter permanecido em hibernação durante O Último Mergulho, o alter ego de João César Monteiro regressa agora, "lavado e tratado" pela personagem da fabulosa Manuela de Freitas

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A Comédia de Deus dr

Este texto foi publicado a 19 de Janeiro de 1996, data da estreia do filme A Comédia de Deus de João César Monteiro.

No final de Recordações da Casa Amarela, a personagem de João de Deus emergia de uma tampa de esgoto e, como Nosferatu, voltava do mundo dos mortos para dar trabalho aos vivos. Depois de ter permanecido em hibernação durante O Último Mergulho, o alter ego de João César Monteiro regressa agora, "lavado e tratado" pela personagem da fabulosa Manuela de Freitas, que o colocou como responsável pela gelataria Paraíso.

Os gelados de João de Deus são, diz o próprio, de "gosto requintado, não são para qualquer um". A frase dá o mote para, pelo menos, "uma parte" do filme: a que se refere a um discurso, sempre insinuado, sobre a solidão de César Monteiro enquanto cineasta. Se um processo criativo é sempre problemático, então as angústias são as mesmas quer se trate da fabricação de gelados, quer da de filmes. Algo de particularmente importante num filme que atravessou uma rodagem complicada — incluindo "falsas partidas" — e que aliás consegue servir-se desses acidentes em proveito próprio, incorporando-os na sua estrutura.

O exemplo mais evidente será a cena do encontro com uma personagem chamada Antoine Doinel, de quem João de Deus diz que "esperava uma pessoa diferente". É que esse era o nome da personagem interpretada por Jean-Pierre Léaud em vários filmes de Truffaut, e estava prevista uma participação do actor em A Comédia de Deus. Se não quisermos reduzir o facto a um mero fait-divers, podemos acrescentar que Antoine Doinel — particularmente em Os 400 Golpes — ficou na história do cinema como um dos símbolos mais vivos de uma solidão desamparada. Podia ser, portanto, uma espécie de irmão de João de Deus.

Não se esgotam aqui os fios que conduzem ao cinema, com referências a Manoel de Oliveira— João de Deus entrapado em ligaduras numa caricatura a um célebre plano de Non ou a Vã Glória de Mandar — e a frase emblemática de O Pátio das Cantigas - "Ó Evaristo, tens cá disto?" — transformada em gesto obsceno, num ajuste de contas com a chamada "idade de ouro" do cinema português. Oscilando permanentemente entre o "sujo" e o "limpo" —  o filme abre com conversas sobre o asseio das empregadas -, A Comédia de Deus é uma obra cuja escatologia se acentua até à inenarrável sequência final, pungente e jubilatória celebração do sórdido.

Depois de Adão e Eva

Abate-se sobre A Comédia de Deus um pesado fardo: vai ser o primeiro filme português a estrear-se na "era pós-Adão e Eva". É evidente que, com o sucesso do filme de Joaquim Leitão e Tino Navarro, muitos benefícios poderão advir para o cinema português, em especial no que toca à formação de uma apetência ou, melhor ainda, de um hábito na relação entre o público e os filmes. Se, pelo menos, tiver contribuído para que haja menos espectadores a torcer a boca à simples menção de "filme português", então benza-o Deus.

É, no entanto, preciso evitar que Adão e Eva deixe de ser uma referência para se transformar num fantasma: as circunstâncias que o rodearam, da produção à promoção, são por enquanto excepcionais. Para que não adquiram uma dimensão perversa, convém lembrar apenas uma coisa: se Adão e Eva é um filme modelar, não é possível nem desejável que esse modelo se assuma, ou seja visto, como o único. Também por isso, os cento e tal mil espectadores que conseguiu não poderão servir de referência senão para si próprio e tendo em conta os objectivos a que se propôs. Comparar esses resultados, em termos absolutos, com os de outro filme representaria uma transposição para o campo do cinema dos automatismos que regem a lógica das audiências televisivas, onde a crueza dos números se sobrepõe sempre às especificidades intrínsecas de cada produto.

Isto tem um único objectivo: lembrar que, mesmo com arremedos industriais, a verdadeira dimensão do cinema português ainda encontra o seu melhor espelho no artesanato. E que, consequentemente, seria triste que um filme "artesanal" como é A Comédia de Deus fosse devorado pela euforia estatística que se apossou dos "media" a propósito de Adão e Eva.

Trata-se, obviamente, de uma peça "de autor", como o artesanato propicia. O que, contrariamente ao que dizem alguns raciocínios sempre retomados, não é sinónimo de um filme feito de costas voltadas para o público. Que se saiba, não costuma haver cineastas a gabar-se de terem feito poucos espectadores e só é lícito crer-se que qualquer realizador deseja que o seu filme seja visto pelo maior número possível de pessoas.

A questão está na atitude: se há filmes que se encarregam eles próprios de atirar uma corda ao espectador, outros há que preferem permanecer recatados e disponíveis à espera que seja o espectador a lançar-lhes a corda. Uma atitude diferente no modo de fazer, sem dúvida, mas também a pedir uma atitude diferente no modo de ver.

O que há então em A Comédia de Deus que o possa impedir de vir também ele regozijar-se com dezenas de milhares de espectadores? Aparentemente, nada. Simplesmente, exige do público um pouco de "trabalho": é a partir daqui que toda a filtragem se exerce. Será pecado?

Pelo que ficou escrito parece ser claro que A Comédia de Deus é um filme "difícil", se por tal entendermos que se furta a propor uma visão "normalizada" e imediatamente assimilável das coisas, numa recusa de convenções desde logo reconhecíveis. É, todavia, o contrário de um filme árido: quem se deixar seduzir por ele viverá, sobretudo nas alucinantes sequências finais, uma das mais intensas experiências emocionais dos últimos tempos - e deixando de reduzir as coisas ao universo do "cinema português".

É também um filme "livre", igualmente no sentido em que, por exemplo, se pode permitir suspensões temporárias da narrativa para se fixar em momentos que, se nada acrescentam à história, têm tudo a acrescentar ao filme. Os que acham que a incapacidade de ultrapassar a submissão a um argumento - alguém disse que "há cada vez menos filmes e mais argumentos filmados" - é um primeiro motivo de frustração saberão dar-lhe o devido valor.